Crianças e adolescentes de Águas Lindas de Goiás devem ganhar um novo espaço de formação musical com a expansão de um projeto social que já atende centenas de estudantes no Itapoã, no Distrito Federal. Ligada à Associação Missionária para Difusão do Evangelho (Amide), a iniciativa começa a estruturar turmas de musicalização, flauta doce, teclado e violão e pretende ampliar as modalidades conforme a formação de professores e a adesão da comunidade.
O novo núcleo terá como referência a Escola de Música Maestro Emílio de César, vinculada ao Centro de Integração Social da Família e da Criança (Cisfac). No Itapoã, a escola encerrou o ano passado com cerca de 350 matrículas e já levou antigos alunos à universidade.
A iniciativa faz parte de uma rede de ações da Amide, organização que há cerca de 30 anos desenvolve projetos missionários e sociais no Brasil e no exterior, com trabalhos nas áreas de educação, saúde e formação missionária. Fundadora da associação, Ana Maria Costa lembra que tudo começou de forma simples. “Era uma cadeirinha lá na garagem da minha casa, uma mesinha e uma máquina de escrever. Naquele tempo não tinha computador”, recorda.
Três décadas depois, a entidade mantém trabalhos no sertão nordestino, entre povos indígenas e em países da África e da Ásia. “Todos são atendidos na área de educação e saúde”, afirma Ana Maria.
No Distrito Federal, o Cisfac nasceu com uma proposta ampla de atendimento à comunidade do Itapoã e chegou a oferecer reforço escolar, informática, esporte e música. Com as dificuldades para manter todas as frentes, a formação musical se consolidou como uma das principais atividades. “O projeto foi um sonho, um sonho de que tivéssemos um trabalho social, um trabalho que inserisse as pessoas carentes do Itapoã”, conta o vice-presidente do Cisfac, Afonso Henrique Curado de Carvalho.
Da primeira aula à orquestra
Na Escola de Música Maestro Emílio de César, os estudantes têm aulas de violino, viola, violoncelo, flauta transversal, flauta doce, clarinete, violão e teclado, além de musicalização e canto coral. Com o avanço do aprendizado, podem participar da Orquestra Som da Esperança, formada por alunos e professores. A prática coletiva leva para os ensaios e apresentações o conhecimento desenvolvido em sala.
À frente da formação estão o maestro Emílio de César, diretor artístico da escola, e a filha, Cristina Carvalho, coordenadora pedagógica do Cisfac. A intenção não é transformar todos os estudantes em músicos profissionais, mas oferecer uma base consistente a quem decidir seguir carreira.
“A ideia não é que a gente vá profissionalizar todo mundo, mas aqueles que quiserem se profissionalizar vão ter uma boa base”, explica Cristina. Ela conta que estudantes preparados no projeto já avançaram para instituições especializadas. “Muitos que já foram para a Escola de Música, a maioria deles que faz prova passa e vai dando seguimento por lá.”
Algumas trajetórias já alcançaram o ensino superior. Vitória entrou no projeto ainda criança, ingressou na Universidade de Brasília (UnB) e hoje também atua como professora. Cauan seguiu caminho semelhante chegou à universidade e passou a assumir responsabilidades dentro da própria iniciativa.
Muito antes da universidade, porém, o percurso começa pela descoberta. Aos 12 anos, Cindy Evelyn participa do projeto há cerca de cinco anos. Matriculada pela mãe, ampliou aos poucos o repertório de instrumentos. “Eu aprendi teclado, piano, flauta doce e flauta transversal, violino também”, enumera.
Samily Barbosa, de 13 anos, está na iniciativa há quase quatro anos e toca flauta e violino. “Eu gosto bastante”, conta. Com os colegas, ela já participou de apresentações em diferentes espaços, principalmente igrejas. O palco funciona como extensão das aulas, além da técnica individual, os estudantes aprendem a dividir repertório, ensaios e responsabilidades.
Uma escola construída aos poucos
A estrutura atual foi formada gradualmente. Hoje, a escola reúne cerca de 12 a 13 professores. No início, porém, boa parte das aulas ficava sob responsabilidade do maestro Emílio de César.
“Quando o meu pai começou, era só ele, ele sozinho. Ele dava aula de violino, de viola, de violoncelo, flauta doce, ele fazia tudo sozinho”, lembra Cristina. Com o tempo, professores voluntários se juntaram ao trabalho e o corpo docente cresceu.
Emílio de César tem trajetória ligada à música em Brasília. Segundo Cristina, foi maestro titular da Orquestra Sinfônica, exerceu a função em Goiânia e Minas Gerais e atuou como professor da Escola de Música de Brasília. Hoje, dirige artisticamente a escola que leva seu nome.
Novo núcleo em Águas Lindas
É essa experiência que a Amide pretende levar a Águas Lindas. A nova unidade deverá receber diferentes atividades sociais e de formação, entre elas um braço do projeto musical desenvolvido no Itapoã. A implantação será gradual, começando por musicalização e aulas de flauta doce, teclado e violão.
Ainda não há número definitivo de vagas. A estimativa inicial é atender entre 20 e 30 estudantes e ampliar as turmas à medida que novos profissionais sejam incorporados. Um dos desafios será formar uma equipe local com professores da própria comunidade.
“O objetivo é a gente começar aulas iniciais com instrumentos como flauta doce, começar aulas de teclado, violão”, explica Afonso. No futuro, os responsáveis também pretendem aproximar os dois núcleos, com repertórios em comum e apresentações compartilhadas. “Fazer uma apresentação lá, outra aqui. Isso são coisas que a gente pode, para o futuro, tentar alinhar os dois projetos”, projeta Cristina.
Manter as portas abertas
Se iniciar novas turmas exige estrutura, mantê-las ao longo do ano é outro desafio. O projeto conta principalmente com padrinhos, madrinhas e igrejas parceiras para sustentar o quadro básico de profissionais. Recursos provenientes de emenda parlamentar também permitiram, em determinado período, contratar professores e bolsistas e ampliar a oferta de modalidades.
A participação foi gratuita durante grande parte da história da escola. Atualmente, há uma contribuição voluntária de R$ 50 para as famílias que têm condições de pagar, sem que a falta do pagamento impeça o ingresso no projeto.
Em Águas Lindas, a história começa com uma estrutura menor, mas tem como referência o caminho percorrido no Itapoã uma escola que nasceu com poucos professores, chegou a centenas de matrículas e acompanhou crianças das primeiras notas à universidade. Para alguns, a música permanecerá como espaço de formação e convivência. Para outros, poderá se transformar em profissão. Em ambos os casos, o ponto de partida é o mesmo, a oportunidade.








