Em salas de aula de instituições de ensino em diversas regiões, professores negros destacam o Dia da Consciência Negra como um momento crucial para aprofundar a discussão sobre o racismo. Eles reforçam que temas como racismo, identidade e pertencimento são importantes durante todo o ano, indo além de uma única data. Através de atividades pedagógicas, relatos pessoais e enfrentamentos diários, esses educadores demonstram que a luta contra o preconceito é uma construção contínua.
Essa batalha acontece na experiência, no corpo e na palavra, buscando romper silêncios históricos. Ela também desafia estruturas que continuam profundamente marcadas pelo racismo. O compromisso desses profissionais vai além da sala de aula, estendendo-se a todo o cotidiano escolar.
Enfrentamento do Racismo e a Lei 10.639
Desafios na Implementação da Lei 10.639
Um professor, com formação em História e Pedagogia e uma década e meia de atuação em instituições públicas de ensino, tem acompanhado de perto a implementação da Lei 10.639/2003. Essa legislação tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas do país. Ele reconhece a maior abertura atual para o tema, mas ressalta que a efetivação da lei ainda não atingiu o ideal esperado.
Conforme o educador, as escolas têm valorizado a cultura afro-brasileira e indígena, mas o tratamento ainda é insuficiente e frequentemente secundarizado. Essa abordagem superficial, ele pontua, reforça silenciamentos históricos e impede que estudantes compreendam suas próprias raízes, bem como a complexidade do próprio país. A falta de profundidade nessas discussões é um obstáculo significativo.
Abordagens e Desafios Cotidianos
O professor observa que muitos projetos sobre a temática surgem em novembro, mas com abordagens pontuais, muitas vezes folclorizadas e centradas em manifestações isoladas. Ele critica a tendência de tratar a cultura negra apenas como culinária, artesanato ou dança, desassociando-a da realidade brasileira. Isso, segundo ele, reforça referências colonizadas que privilegiam modelos externos.
Como contraponto, o educador coordenou trabalhos significativos, como um livro produzido em um período recente com crianças negras e autistas, e um filme realizado no período seguinte com estudantes neurodivergentes, inspirado na filosofia africana Ubuntu. Ele considera essas experiências como provas de que é possível trabalhar a consciência negra de forma profunda e conectada às vivências reais. O livro, por exemplo, criou um espaço de afeto e pertencimento para os alunos.
Apesar das experiências bem-sucedidas, o educador precisou construir seu próprio caminho, buscando materiais e projetos de forma autônoma. Ele lamenta que a temática ganhe visibilidade apenas no mês da Consciência Negra, muitas vezes só na semana de culminância. A escassez de acesso à vasta produção literária e acadêmica brasileira limita o trabalho dos professores. Existem formações, mas seu alcance é restrito, agravando-se quando o próprio professor negro sofre micro-silenciamentos naturalizados.
No começo da carreira, o profissional acreditava na ideia da democracia racial, por vezes confundindo atos de racismo com desavenças pontuais. Contudo, com o tempo, ele identificou padrões claros de racismo estrutural: interrupções, exclusão de reuniões, desconfianças e uma presença permitida apenas ‘até certo ponto’. Ele também percebe que projetos autorais de docentes negros parecem ter validade curta, sendo substituídos, após algum tempo, por produções de outra perspectiva.
Representatividade e Mudança na Educação Antirracista
O Impacto da Representatividade Docente
Um dos educadores recorda um reencontro com uma ex-aluna de anos anteriores, que o agradeceu por projetos relacionados à consciência negra. A estudante, já adulta, havia assumido o cabelo afro, gesto que o professor elogiou como ‘coroa’, reforçando a ancestralidade. Esse momento de transformação, ele relata, demonstrou o impacto da representatividade docente na autoestima dos alunos negros.
Em diversas escolas, ele era o único professor negro, e os alunos reconheciam essa presença como significativa. A visibilidade de pessoas semelhantes a eles em posição de autoridade e conhecimento faz uma diferença notável em seu desenvolvimento e percepção de si.
Resistências e Propostas para um Currículo Abrangente
Apesar de avanços pontuais, o educador afirma que ainda existem resistências claras no ambiente escolar. Religiões de matriz africana são frequentemente invisibilizadas, e figuras brasileiras contemporâneas são apagadas em favor de personalidades estrangeiras. Discursos como “antes da consciência negra, precisamos de consciência humana” ainda são utilizados, inclusive no dia 20 de novembro. O educador observa que, enquanto anos anteriores tiveram projetos mais profundos, houve um declínio na abordagem a partir de períodos subsequentes, com foco em figuras internacionais e pouca menção a intelectuais negros brasileiros vivos.
Para o profissional, a solução reside em um planejamento contínuo e interdisciplinar ao longo de todo o ano letivo. Ele questiona a ausência de personalidades negras relevantes nas aulas de Matemática e Ciências, e a falta de autores negros nas bibliotecas escolares de forma permanente. A situação, ele compara, assemelha-se à da educação inclusiva: a escola pode ter um aluno cadeirante, mas a estrutura ainda é inadequada, sendo discutida apenas em datas específicas. Para o educador, o ideal é um planejamento integrado que envolva toda a estrutura escolar, do início ao fim do ano.
Luta Feminina no Contexto Educacional
Uma professora de Língua Portuguesa, com duas décadas de atuação em uma instituição de ensino militarizada, também tece sua resistência diária na escola. Ela se tornou uma referência para muitos estudantes devido à sua própria trajetória de superação, vinda de uma família de baixa renda e sendo a primeira de seu lado paterno a concluir o ensino superior. A educadora não se encaixa nos padrões de beleza hegemônicos.
Quando os alunos conhecem sua história, ocorre uma forte identificação. Muitas meninas, que também sofreram críticas e zombarias, enxergam nela um reflexo positivo, o que a docente considera extraordinário. Em sua escola, a Lei 10.639 está integrada ao Projeto Político-Pedagógico, e o tema é abordado durante o ano, com intensificação em novembro.
A professora não se limita ao eixo das Humanidades, levando o tema para sua própria disciplina por meio de leituras, crônicas e debates. Meninas negras a procuram para discutir questões de corpo, cabelo, autoestima e pertencimento, e a educadora oferece acolhimento dentro de suas possibilidades. A gestão escolar apoia as iniciativas antirracistas, o que se diferencia da experiência de muitos outros docentes.
Alunos mais antigos já antecipam e se organizam para participar dos projetos anuais sobre o tema. No entanto, o racismo e sua negação ainda persistem em sala, com estudantes reproduzindo falas como “é mimimi” ou “cotas são injustas”. A professora, nesses casos, intervém, realizando uma escuta atenta e mostrando outras perspectivas fundamentadas em história, literatura e ciência. Ela enfatiza que algumas falas são claramente errôneas e carregadas de racismo.
Essa cultura institucionalizada do 20 de novembro transformou a dinâmica escolar, com os alunos esperando e cobrando a continuidade das ações. A docente, porém, observa que nem todos os colegas possuem o mesmo letramento racial, havendo ainda falas com “o germe do racismo, um preconceito velado”. Ela não se cala, mesmo que seja vista como “a que quer fazer discurso com tudo”, pois entende que ter voz ativa é parte fundamental da resistência.
Além de ensinar, a professora também escreve. Em um evento recente, ela leu um poema de sua autoria que homenageava homens e mulheres negros que contribuíram para a construção do Brasil, mas foram apagados da história. Sua missão, ela afirma, é não permitir que essas pessoas permaneçam no esquecimento. Embora siga o currículo oficial, muitas vezes eurocentrado, ela cria brechas para apresentar essa narrativa, garantindo que os alunos conheçam essa parte da história por meio de suas palavras.
Olhar Antropológico sobre o Enfrentamento do Racismo
Uma antropóloga, que atua como professora em uma instituição de ensino superior e em um programa de pós-graduação em sociologia, reforça que o 20 de novembro é um marco simbólico importante, mas insuficiente. Ele não pode ser o único momento dedicado à pauta racial, pois datas comemorativas, embora garantam um espaço mínimo de memória, não substituem a responsabilidade contínua da escola. Ela enfatiza que “As práticas antirracistas precisam estar incorporadas ao dia a dia das disciplinas, dos projetos e das relações escolares”.
Antes de sua atuação universitária, a especialista lecionou por uma década na educação infantil e básica, experiência que moldou sua percepção sobre a desigualdade racial. Na formação docente, ela trabalhou por quase duas décadas com cursos e projetos focados em práticas antirracistas e direitos humanos para professores da rede pública. Ela também contribuiu para uma iniciativa de direitos humanos que oferece formação continuada a docentes em redes de ensino em grandes cidades. Ao se mudar para uma capital em anos recentes, a antropóloga continuou a ministrar formações e a desenvolver projetos em sociologia e educação em uma universidade.
A antropóloga ressalta que as diretrizes para o ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena existem há mais de duas décadas, mas ainda enfrentam resistência na implementação. Os desafios incluem a falta de formação adequada para os professores, a carência de materiais e os limites institucionais. Ela defende o papel central das universidades nesse processo, pois são elas que formam os futuros profissionais da educação básica. “As instituições de ensino superior precisam consolidar currículos realmente comprometidos com o enfrentamento ao racismo“, afirma.
Se a formação for sólida, os professores chegarão às escolas com mais instrumentos para trabalhar essas questões no cotidiano. Além disso, a presença de mais docentes negros nas graduações e pós-graduações, sublinha a especialista, fortalece o debate e amplia as referências para os futuros educadores. Para a antropóloga, a escola pública brasileira, com sua diversidade e desigualdades históricas, deve assumir o compromisso de ser um espaço de luta contra as desigualdades. Isso implica revisar práticas pedagógicas, questionar currículos e dar destaque às histórias da população negra. A educação, ela defende, só cumpre seu papel quando enfrenta as estruturas de desigualdade, exigindo uma ação contínua.
Os profissionais da educação mencionados, cada um em seu contexto, ilustram uma mesma premissa: a resistência negra dentro da escola é permanente. Ela não se limita ao 20 de novembro, nem a murais coloridos, apresentações culturais ou projetos pontuais. A resistência se manifesta diariamente na sala de aula, nos corredores, nas reuniões e no acolhimento aos estudantes.
Ela também se faz presente na coragem de corrigir falas racistas, na produção de materiais, na escrita de poemas, na condução de debates e na crítica às estruturas. A resistência está nos gestos que reafirmam a humanidade e a história de um povo, insistindo em existir e ensinar em espaços que, por séculos, negaram sua presença.
Por Correio de Santa Maria, com informações de instituições de ensino.








