Quinta-feira, 24/09/26

Ameaça de Trump às exportações de diesel alarma mercado no Brasil

Ameaça de Trump às exportações de diesel alarma mercado no Brasil
Ameaça de Trump às exportações de diesel alarma mercado no – Reprodução

NICOLA PAMPLONA
FOLHAPRESS


A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as exportações de diesel daquele país acendeu um alerta no mercado brasileiro, que conta com fornecedores americanos para cobrir o déficit de produção interno.

Em setembro, cerca de 80% das importações brasileiras de diesel vieram de refinarias nos Estados Unidos, segundo a Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis). O Brasil importa cerca de 30% de seu consumo do combustível e tem vivido episódios pontuais de desabastecimento.

“Se Trump proibir as exportações de diesel, os importadores brasileiros terão grande dificuldade para continuar com as operações”, disse o presidente da Abicom, Sérgio Araujo. A entidade representa dez empresas que têm como principais clientes no Brasil distribuidoras de combustíveis regionais.

O presidente dos Estados Unidos comentou o assunto nesta quarta-feira (23) durante encontro com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski. O republicano disse que o país exporta muito diesel e defendeu uma suspensão temporária, que poderia reduzir os preços internos do combustível.

“Eu já disse que não devemos exportar diesel”, afirmou ele aos repórteres presentes. “Já defendi isso junto à minha equipe”. A medida dependeria, segundo Trump, de estudos sobre os efeitos na produção de gasolina nas refinarias do país.

Executivos de grandes distribuidoras também demonstraram preocupação em conversas com a reportagem, embora alguns tenham o sentimento de que a ameaça não se realizará, diante da possibilidade de judicialização pelas empresas exportadoras.

Os Estados Unidos substituíram a Rússia como maior fornecedor do Brasil depois que Moscou suspendeu as exportações daquele país em meio a ataques ucranianos a importantes refinarias. Sem o diesel russo, o mercado brasileiro teve que se voltar para as refinarias americanas.

A ameaça de corte nas exportações ocorre em um cenário de mercado já afetado pelas guerras na Ucrânia e no Irã e às vésperas do mês de maior consumo de diesel no Brasil, com o uso do combustível no escoamento da produção agrícola e no plantio da próxima safra.

“Todos estamos preocupados”, afirmou em evento no Rio de Janeiro o especialista em refino da S&P Global Felipe Perez. “Sabemos que o mundo inteiro está numa restrição de volumes, e agora tem essa decisão dos Estados Unidos”.

O presidente da Vibra Energia, Ernesto Pousada, respondeu não acreditar que a medida seja de fato implementada e disse que, caso seja, a empresa tem buscado diversificar suas fontes de suprimento do combustível.

No mesmo evento, a diretora de Comercialização, Logística e Mercado da Petrobras, Angelica Laureano, disse que a empresa já encomendou 650 milhões de litros do combustível para outubro, o suficiente para atender seus contratos.

“Não há nenhuma preocupação [com o suprimento de outubro]”, afirmou ela, em entrevista à agência Eixos. Angélica afirmou ainda que ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) e MME (Ministério de Minas e Energia) consideram que o mercado estará abastecido no próximo mês.

Fontes do setor dizem, porém, que eventual suspensão das exportações americanas pode pôr em risco o abastecimento de novembro -já que o consumo tende a crescer na Europa, gerando maior disputa pelo produto e maiores preços.

Na semana passada, o custo para importar diesel para o mercado brasileiro bateu recorde, segundo a ANP. A paridade de importação calculada pela agência chegou perto de R$ 7 por litro em alguns portos. É mais do que o dobro dos cerca de R$ 3 registrados no início do ano.

O governo está hoje pagando um subsídio de R$ 2,12 por litro, mas a defasagem segue elevada, desestimulando importadores privados e pressionando o preço final do produto.

Na abertura do mercado desta quarta, por exemplo, o litro do diesel vendido nas refinarias da Petrobras custava, em média, R$ 3,44 a menos do que a paridade de importação medida pela Abicom. Ou seja, mesmo com o subsídio, a diferença é de R$ 1,32 por litro.


T LB

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