Quinta-feira, 15/10/26

Jornada média mais curta que a do contrato pode reduzir impacto do fim da 6×1

Jornada média mais curta que a do contrato pode reduzir impacto do fim da 6×1
Jornada média mais curta que a do contrato pode reduzir – Reprodução

O fim da escala 6×1 pode ter um impacto menor do que o previsto sobre a economia, já que, na prática, os trabalhadores formais já cumprem, em média, jornadas mais próximas de 40 horas semanais do que das 44 horas previstas na maioria dos contratos.

Essa é a avaliação do economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, que detalhou dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, que mostram as horas efetivamente trabalhadas.

O especialista em mercado de trabalho aponta para uma disparidade entre os números da Pnad e os da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os dois dados são diferentes, já que a Pnad é uma pesquisa, e a Rais é um registro administrativo dos contratos com carteira assinada.

Pela Rais de 2025, 73,8% dos vínculos formais têm contratos entre 41 e 44 horas. Mas pela Pnad do primeiro trimestre deste ano, somente 35,8% dos trabalhadores formais informaram que efetivamente trabalharam essa quantidade de horas por semana.

Um percentual maior de trabalhadores, de 39%, informou que trabalha entre 31 e 40 horas semanais, segundo a pesquisa do IBGE, enquanto o registro do MTE contabiliza somente 15% de contratos para essa carga horária.

A partir da Pnad, Imaizumi calcula que, em média, os trabalhadores com carteira assinada do setor privado trabalharam efetivamente 41,6 horas por semana no segundo trimestre deste ano. “

Na prática, o impacto vai ser menor do que se imagina, porque há discrepância entre horas trabalhadas no contrato e efetivas”, aponta o economista.

Na avaliação de Imaizumi, além das diferenças metodológicas entre Pnad e Rais, há outros fatores que explicam a diferença.

“Férias, feriados, afastamentos, alguma hora prolongada de almoço, principalmente para quem não bate ponto, e variações na demanda das empresas podem reduzir as horas trabalhadas sem alterar a jornada prevista em contrato.”

Outra possibilidade, aponta, é que parte das empresas tenha contratos de 44 horas, mas não exigem que o funcionário trabalhe aos sábados.

O projeto do fim da escala 6×1 prevê que a jornada, hoje limitada a 44 horas semanais, passe a ser limitada a 40 horas semanais, com dois dias de descanso remunerados, sendo um deles preferencialmente aos domingos. No primeiro ano, o limite será de 42 horas semanais. Pela média, os trabalhadores do setor privado com carteira já estariam dentro desse limite inicial.

Isso não quer dizer que não haverá impacto, ressalva o economista da 4intelligence. Como os dados são uma média, os setores serão afetados de forma distinta, com alguns sofrendo bem mais que outros com a mudança.

No segundo trimestre deste ano, os trabalhadores da agropecuária e de alojamento e alimentação trabalharam efetivamente 43 horas, segundo dados da Pnad levantados por Imaizumi.

No caso do comércio e do transporte, as horas efetivamente trabalhadas foram pouco acima de 42 horas, e os da construção e indústria, pouco acima de 41 horas.

Aqueles que trabalham em serviços de informações e outros serviços, que representam a maior parte dos trabalhadores brasileiros, trabalharam pouco acima de 40 horas, e os ligados à educação, 39 horas. Para a administração pública, as horas trabalhadas efetivamente foram de pouco acima de 34 horas.

“O efeito é bastante heterogêneo. Em alguns setores, teremos mais emprego e mais inflação. Em outros, teremos mais informalidade, e em outros, menos empregos”, afirma Imaizumi. Ele ressalta que os dados da Pnad medem apenas o número de horas, e não quais desses trabalhadores estão na escala 6×1.

Um levantamento do MTE citado por ele mostra que 14,8 milhões de pessoas estavam nesse regime em dezembro de 2025, ou 29,9% dos vínculos formais.

A escala de seis dias é mais frequente em atividades que não podem parar e que dependem de muitos funcionários. No transporte aéreo, 53,2% dos empregados estão nesse regime, e em alojamento, 52%. Em alimentação, são 47,1%, e no comércio, 42,2%. Já em eletricidade e gás, a proporção cai para 11,8%.

Os pequenos negócios recorrem mais à 6×1 em termos relativos: a escala abrange 36,2% dos empregados das empresas de pequeno porte e 34,5% dos das microempresas, ante 32,9% nas médias e grandes. Como essas últimas empregam mais gente, porém, concentram o maior contingente: 7,9 milhões de trabalhadores.

Imaizumi calcula que a produtividade terá que aumentar em 1,4% para que não haja impacto sobre o PIB (Produto Interno Bruto). A conta, porém, supõe que a jornada caia de uma vez. Se a redução for escalonada, a economia ganha tempo para produzir mais por hora trabalhada, o que suavizaria o efeito.

O obstáculo, segundo o economista, é que a produtividade do país anda de lado desde o começo da década passada. Pesam contra o investimento baixo, a formação insuficiente dos trabalhadores e o emaranhado de impostos. Para as empresas, segundo Imaizumi, a mudança pode significar custos maiores e margens mais apertadas, com chance de parte disso chegar aos preços.

Há ainda o risco de crescer a contratação como PJ ou sem carteira. O economista também lista fatores que podem compensar parte desse efeito. Com jornadas mais curtas, os trabalhadores tenderiam a faltar e a se afastar menos por motivo de saúde. Os afastamentos por saúde mental, por exemplo, atingiram 0,53% da população ocupada em 2025, perto do triplo do patamar de 2015 (0,19%).

Menos desgaste também poderia segurar a troca de funcionários, que custa caro às empresas em contratação e treinamento, e abrir espaço para mais mulheres no mercado de trabalho.

O economista lembra que a jornada já foi reduzida antes, quando a Constituição de 1988 cortou o teto de 48 para 44 horas semanais.

Pesquisas sobre o período apontam que as horas trabalhadas de fato caíram, sem alta relevante do desemprego, embora os salários reais tenham absorvido parte do ajuste. Mas a comparação tem limites, ressalta Imaizumi: na época, boa parte dos trabalhadores já tinha jornada abaixo do teto, e sobrava gente procurando emprego, situação bem diferente da atual.

T LB

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress