Plataformas com dados eleitorais, rankings de engajamento e conteúdos prontos para compartilhamento são utilizadas por apoiadores dos dois candidatos para mobilizar eleitores e pressionar aliados.
Resumo: A disputa presidencial de 2026 ganhou novas frentes de mobilização na internet após o primeiro turno. Iniciativas ligadas a apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro utilizam dados públicos, monitoramento de publicações e materiais digitais para orientar ações de campanha, ampliar o alcance das mensagens e estimular a participação de eleitores.
Ferramentas digitais entram na estratégia das campanhas
A mobilização de apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a contar com plataformas digitais voltadas à análise de dados eleitorais, à distribuição de materiais e ao acompanhamento da atividade de aliados nas redes sociais.
As iniciativas ganharam visibilidade depois do primeiro turno, realizado em 4 de outubro de 2026. Segundo reportagem publicada pelo Correio Braziliense, as ferramentas têm finalidades distintas: algumas procuram identificar oportunidades de convencimento de eleitores, enquanto outras monitoram o engajamento de políticos e oferecem conteúdos para compartilhamento.
Parte desses projetos utiliza conceitos associados à inteligência de fontes abertas, conhecida pela sigla OSINT. A abordagem consiste em reunir e analisar informações disponíveis publicamente. O uso de dados acessíveis, entretanto, não elimina a necessidade de avaliar a finalidade e a forma de seu tratamento.
Plataformas orientam a mobilização de eleitores
Entre as iniciativas divulgadas por apoiadores de Lula está a plataforma Onde Dá Para Conversar. De acordo com as informações apresentadas pelo próprio site e reproduzidas pelo Correio Braziliense, a ferramenta utiliza dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para mapear seções eleitorais com maior presença de votos brancos, nulos e de eleitores ausentes.
A plataforma identifica 26.864 locais considerados oportunidades para ações de mobilização. A proposta é orientar apoiadores a conversar com pessoas que não compareceram às urnas ou que escolheram outros candidatos no primeiro turno.
Outra iniciativa, chamada Dá Pra Virar, apresenta orientações de mobilização adaptadas a diferentes cidades. As estratégias variam conforme o cenário eleitoral local e procuram direcionar os esforços dos apoiadores para públicos considerados relevantes na disputa.
Também circulam repositórios de materiais de campanha. O Acervo Lula, citado na reportagem original, reúne conteúdos como vídeos, publicações preparadas para compartilhamento e informações sobre manifestações favoráveis ao presidente.
Há ainda ferramentas voltadas ao acompanhamento do debate público. O Radar da Virada, por exemplo, organiza notícias e assuntos considerados relevantes para a campanha, incluindo temas que podem influenciar eleitores indecisos.
Monitoramento de aliados e rankings de engajamento
No campo de Flávio Bolsonaro, uma das iniciativas citadas é o Flaviômetro, divulgado pelo deputado federal e senador eleito Gustavo Gayer (PL-GO).
Segundo a reportagem do Correio Braziliense, o site acompanha publicações de políticos eleitos aliados de Flávio e organiza um ranking de engajamento nas redes sociais. A ferramenta considera a frequência das manifestações de apoio ao candidato e atualiza os dados continuamente.
No levantamento consultado pelo jornal em uma quinta-feira, Michelle Bolsonaro (PL-DF) aparecia entre os nomes classificados como menos engajados, enquanto Pablo Almeida (PL-MG), Gustavo Gayer e Deltan Dallagnol (Novo-PR) figuravam entre os mais ativos. Como o sistema é atualizado com frequência, essas posições não devem ser interpretadas como um retrato permanente da atividade dos políticos.
A plataforma também passou a reunir informações sobre os chamados Bloquinhos 22, série de manifestações anunciadas pelo deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG).
Conforme o relato publicado pelo jornal, apoiadores utilizaram os rankings para cobrar maior participação de aliados na campanha. Eduardo e Carlos Bolsonaro também divulgaram a ferramenta e criticaram a falta de engajamento de parte dos correligionários.
O monitoramento divulgado pelo próprio site indicou aumento das publicações favoráveis a Flávio: de 874 postagens em 8 de outubro para mais de 3 mil em 14 de outubro. Os números são atribuídos ao sistema de acompanhamento da plataforma e, isoladamente, não demonstram que o monitoramento tenha sido a única causa da elevação.
Combate à desinformação também mobiliza apoiadores
Outra iniciativa citada na reportagem é o portal Flávio Com a Verdade, criado para responder a conteúdos considerados falsos sobre o candidato e disponibilizar publicações para seus apoiadores.
Entre os assuntos abordados está uma alegação que circulou nas redes sociais antes do primeiro turno sobre uma suposta posição de Flávio Bolsonaro a respeito do título de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
A existência de páginas dedicadas a contestar informações mostra que o enfrentamento da desinformação também passou a integrar a estratégia digital de apoiadores. A avaliação de cada conteúdo, porém, depende da análise das afirmações específicas e das evidências disponíveis.
Dados públicos exigem responsabilidade no uso
A utilização de informações eleitorais disponíveis publicamente deve ser distinguida do uso irrestrito de dados pessoais. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece que o tratamento de dados de acesso público deve considerar a finalidade, a boa-fé e o interesse público que justificaram sua disponibilização.
No contexto eleitoral, também existem regras específicas para a propaganda na internet. A Resolução nº 23.610/2019 do TSE, com suas alterações, disciplina aspectos da propaganda eleitoral e do tratamento de dados pessoais nesse ambiente.
Por isso, a análise de iniciativas digitais exige observar não apenas a origem dos dados, mas também a finalidade do tratamento, as práticas de divulgação e o cumprimento das normas aplicáveis. A existência de uma plataforma de monitoramento ou de mobilização, por si só, não comprova irregularidade.
A disputa política também acontece nas redes
O conjunto de iniciativas descritas na reportagem evidencia a importância crescente das ferramentas digitais na mobilização de apoiadores, na distribuição de mensagens e no acompanhamento da atuação de aliados durante a disputa presidencial.
As plataformas adotam estratégias diferentes: algumas procuram identificar oportunidades de convencimento de eleitores; outras organizam conteúdos, monitoram publicações ou estimulam maior participação de integrantes dos grupos políticos.
Os dados apresentados pelos próprios sistemas ajudam a dimensionar a atividade registrada, mas precisam ser interpretados conforme seus critérios de coleta e atualização. A mensuração de publicações, isoladamente, não comprova mudança na intenção de voto nem permite atribuir resultados eleitorais a uma única ferramenta.
Redação – Correio de Santa Maria








