O CEO da B3, Gilson Finkelsztain, afirma que 2026 será o ano da retomada de ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) após uma seca de abertura de capital no país que perdura desde 2021.
A aposta deriva da perspectiva de queda de juros pelo BC (Banco Central) a partir de março, de listagens de empresas brasileiras no exterior e, mais recentemente, da avalanche de recursos estrangeiros que tomou a Bolsa de Valores no último mês.
“Tem um vento bom aí chegando”, afirmou Finkelsztain em almoço com jornalistas nesta quinta-feira (5). “E é um vento que vem muito mais de fora do que de dentro.”
Em aportes, janeiro se igualou a todo o volume de 2025: o saldo líquido foi de R$ 26,47 bilhões, enquanto o ano passado somou R$ 26,87 bilhões. O fluxo deriva de um movimento de diversificação de carteiras em escala global, reflexo, entre outros fatores, dos temores instalados pela condução geopolítica do governo Donald Trump.
“Parece ser o início de um movimento que pode ser muito positivo para mercados emergentes, revertendo uma tendência de quase cinco anos em que os Estados Unidos absorveram todo o dinheiro marginal na indústria, principalmente na área de tecnologia”, afirma o CEO da B3.
O aporte estrangeiro injetou liquidez no mercado brasileiro, essencial para a viabilidade de aberturas de capital. “Ainda veio pouco dinheiro perto do que pode vir. Se o Brasil captura 0,1% dos trilhões de dólares em rotação, são bilhões de reais entrando aqui, e isso é fundamental.”
Ele cita que há mais de 50 empresas com registro de companhia aberta na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), com a governança preparada para vir a mercado. O problema, diz Finkelsztain, nunca foi de oferta, mas de demanda -em ambiente de juros altos, o apetite pela renda variável diminui, com menos recursos circulando na Bolsa. Para as empresas que pensam em IPOs, a conta não fecha.
O ciclo de cortes na taxa Selic pode ser um catalisador para a volta do investidor local para a Bolsa e para a retomada das aberturas de capital na B3. O BC deve iniciar a rodada de afrouxamento monetário na próxima reunião, em março, e a previsão, segundo o último boletim Focus, é que os juros encerrem 2026 em 12,25% -2,75 ponto percentual a menos do que o atual patamar, de 15% ao ano.
Empresas brasileiras têm optado por fazer IPOs nos Estados Unidos. A lista inclui Nubank, Inter e, mais recentemente, Picpay. Juros mais baixos e exposição a um mercado robusto como o norte-americano estão entre os principais fatores para a predileção pela NYSE, a Bolsa de Nova York, em vez de pela B3.
A recente abertura da Picpay na Nasdaq foi mencionada por Finkelsztain. Para ele, “mais importante do que saber se deveria abrir no Brasil ou fora, o IPO parece ser um prenúncio do que vem aí: potencialmente uma onda de aberturas de capital no Brasil”.
Essa também é a visão do CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho. Em entrevista coletiva nesta quinta, após o banco reportar lucro recorde no último ano, ele afirmou ser possível abrir uma janela para IPOs no Brasil.
“Os IPOs no exterior foram bem recebidos e, naturalmente, são um bom teste para o mercado brasileiro.
Com o início do ciclo de cortes, deve ser tudo mais constante. Mas, sem saber que tipo de volatilidade as eleições vão apresentar, saberemos melhor ao longo do ano se teremos essa janela para IPOs. Se tiver oportunidade, vão ser casos muito específicos e pontuais, e talvez abra uma janela pós-el
eição também com um pouco mais de previsibilidade sobre a economia.”
O CEO da B3 vê a retomada dos IPOs começando por empresas de infraestrutura, “e o setor de saneamento parece estar mais avançado, com logística na sequência”. Também estão no radar outros segmentos, como energia, concessões rodoviárias, farmacêutica, cimentos e siderurgia, além de companhias familiares com oportunidade de expansão.
“Está claro que serão empresas mais maduras, com uma perspectiva de investimento mais delineada. Normalmente é assim: o ciclo começa com empresas mais maduras e mais preparadas, o que, combinado com este momento de diversificação global, fraqueza do dólar e juros em queda, pode ser bastante positivo para o Brasil.”
TRILLIA
O almoço da B3 com jornalistas foi também para anunciar uma nova marca: Trillia, uma plataforma de soluções de dados e analytics para empresas. O produto concentra as marcas PDTec, Neoway, Neurotech, DataStock e a Unidade de Infraestrutura para Financiamentos, que agora ficam sob um mesmo guarda-chuva na Bolsa.
A ideia, segundo o executivo, é que seja um produto menos exposto aos ciclos econômicos -como Bolsa de Valores, a B3 está, naturalmente, sujeita às entradas e saídas de capital conforme a dinâmica de atividade.
A Trillia, nesse sentido, será uma fonte de receita recorrente, com o objetivo de assegurar mais estabilidade para o balanço da B3.








