Sábado, 17/01/26

China não deve cumprir meta doméstica de redução da intensidade do carbono

China não deve cumprir meta doméstica de redução da intensidade do carbono
China não deve cumprir meta doméstica de redução da intensidade – Reprodução

VICTORIA DAMASCENO
FOLHAPRESS

A China pode não alcançar a meta doméstica de redução da intensidade das emissões de carbono, cujo prazo é 2025. Ao mesmo tempo, acadêmicos afirmam que o país, principal emissor de CO? do mundo, é visto como exemplo no cumprimento de objetivos ligados à expansão de energia renovável.

A meta, que considera a quantidade de CO? emitida por unidade do PIB (Produto Interno Bruto), foi incluída no 14º Plano Quinquenal elaborado por Pequim. Os planos, lançados a cada cinco anos, apresentam as prioridades do Partido Comunista Chinês para o desenvolvimento social, econômico e político do país.

O documento estabelecia uma redução de 18% de 2021 a 2025, tendo 2020 como base. No entanto, um relatório da consultoria S&P Global Energy aponta que, até 2024, o país havia alcançado uma queda de apenas 7,8%, o que exigiria um salto em 2025 para que o objetivo fosse cumprido -um cenário considerado pouco provável por especialistas.

Por outro lado, o país asiático deve atingir com mais facilidade outra meta climática prevista para o período. Pequim estabeleceu uma redução de 13,5% no consumo de energia por unidade do PIB e, até 2024, dados da consultoria indicam que a China já havia alcançado uma diminuição de 10,8%, tornando o esforço adicional necessário em 2025 factível.

“Vale destacar que a intensidade energética da China diminuiu 3,8% apenas em 2024, portanto a meta adicional de cerca de 3% parece estar ao alcance”, afirma o relatório da S&P.

É esperado que os resultados consolidados das metas climáticas incluídas no último plano quinquenal sejam divulgados até o final do primeiro semestre de 2026.

Para Michael Davidson, da Escola de Política e Estratégia Global da Universidade da Califórnia em San Diego, é improvável que a China cumpra integralmente as metas estabelecidas para a redução das emissões de carbono por unidade do PIB. Um dos motivos, segundo o pesquisador, é a mudança na forma como Pequim vem estruturando seus compromissos climáticos.

“A liderança central da China está em processo de transição, deixando de priorizar reduções de intensidade e passando a focar no pico das emissões de carbono e em compromissos de redução absoluta”, afirma.

Até recentemente, as metas chinesas eram formuladas com base na intensidade das emissões, determinando reduções por unidade do PIB -um modelo que permite que as emissões absolutas continuem crescendo, ao mesmo tempo em que evita que os objetivos climáticos imponham limites diretos ao crescimento econômico.

A meta de redução da intensidade do carbono em 18% é um exemplo. Uma análise do Green Finance and Development Center mostra que, mesmo com o cumprimento desse objetivo, as emissões totais de CO? da China ainda poderiam crescer cerca de 10%.

Agora, Pequim se volta a compromissos de redução absoluta das emissões de gases de efeito estufa. Em 2025, o país anunciou uma meta de redução líquida de 7% a 10% até 2035, em relação ao pico das emissões, que o regime chinês prevê atingir antes de 2030.

Davidson afirma que a redução absoluta é relevante porque indica esforços concretos rumo à neutralidade de carbono, conceito que se refere ao equilíbrio entre as emissões de CO? e sua remoção da atmosfera.

“A China está entre os poucos países de renda média, ao lado do Brasil, que estabeleceram uma meta absoluta de redução de emissões para 2035”, diz.

A redução líquida de 7% a 10% deve ser alcançada com relativa facilidade, segundo Kelly Sims Gallagher, reitora e professora de política energética e ambiental da Escola Fletcher, da Universidade Tufts (EUA).
“Acredito que a China vai atingir o pico de emissões muito em breve e, em seguida, é provável que supere sua meta para 2035, já que esse objetivo foi definido de forma conservadora.”

Gallagher afirma que o país superou com folga metas relacionadas à energia renovável, como o marco de 1.200 gigawatts de capacidade instalada em energia eólica e solar, seis anos antes do previsto, e, no início de 2025, a capacidade combinada de eólica e solar ultrapassou pela primeira vez a do carvão no país.

“Ainda assim, a China continua construindo novas usinas a carvão por razões ligadas à segurança econômica”, diz.

T LB

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