Sábado, 07/03/26

‘Cinquentinha’: áudio revela negociação de propina para delegado de SP

'Cinquentinha': áudio revela negociação de propina para delegado de SP
‘Cinquentinha’: áudio revela negociação de propina para delegado de SP – Reprodução

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Diálogo interceptado mostra advogado sugerindo dividir pagamento de propina para encerrar inquérito em São Paulo

‘Cinquentinha’: áudio revela negociação de propina para delegado de SP (Foto: Agência Brasil)

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(O Globo) Além de negociatas realizadas no hangar da Polícia Civil de São Paulo, invasões a delegacias e destruição de provas, o grupo criminoso alvo do Ministério Público de São Paulo nesta semana, que tem quatro policiais entre os investigados, tinha acesso a departamentos estratégicos da corporação e negociava propinas lavadas por meio de uma rede própria de comércios de fachada. Áudios obtidos pela GloboNews revelam as tratativas, que envolviam advogados e doleiros. A operação prendeu nove pessoas; duas estão foragidas.

Em um dos áudios , o advogado Guilherme Nasser conversa com o doleiro Cléber Azevedo dos Santos. Ambos negociam o pagamento de ao menos R$ 100 mil em propina para interromper um inquérito policial aberto em outubro de 2022.

— Eu acho que uns “cinquentinha” de um lado, “cinquentinha” de outro, a gente consegue matar isso daí, entendeu? Eu acredito. Comigo eles não “acharcam”, porque esse delegado aí eu conheço muito bem, tá? Ele deve muito para mim. Então eu consigo tirar isso aí numa boa. Agora você está falando que não teve? Porque eu vi o RIF [Relatório de Inteligência Financeira] lá. Já tem o RIF na mão — afirmou Nasser.

Gaeco de São Paulo (Foto: Divulgação)

O delegado citado na conversa é João Eduardo da Silva, à época responsável pelo 16º Distrito Policial (Vila Clementino), em São Paulo. Posteriormente, ele passou a atuar no 35º Distrito Policial (Jabaquara) e foi preso na operação realizada na quinta-feira (5).

Segundo as investigações, o diálogo ilustra o funcionamento do esquema investigado pelo Ministério Público. Integrantes do grupo utilizavam relatórios de inteligência financeira (RIFs) para escolher seus alvos. O documento, produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), pode ser solicitado por qualquer delegado no curso de uma investigação.

De acordo com o MP, ao obterem os dados, os policiais propositalmente não juntavam o RIF aos autos do inquérito oficial, criando uma investigação “paralela”, sem controle do Ministério Público ou do Poder Judiciário.

Na sequência, os policiais ameaçavam formalizar as informações do RIF no processo — ameaça que era usada para exigir pagamentos. Doleiros que tomavam conhecimento das investigações ofereciam propina para que os procedimentos fossem interrompidos.

Para lavar o dinheiro, o grupo contava com uma rede de comércios de fechada. A ideia era dificultar o rastreio da propina passando os valores por padarias e restaurantes. Os valores eram recebidos através de cartões do benefício de vale-refeição.

A operação prendeu nove pessoas, entre elas doleiros conhecidos, como Meire Bonfim da Silva Poza, que ficou nacionalmente conhecida por contribuir com as investigações da Operação Lava-Jato, em 2014. Além dos doleiros e advogados, a operação também mirou quatro policiais civis — dois investigadores, um delegado e um escrivão.

Ouça o áudio:

Entre os presos estão João Eduardo da Silva (delegado do 35º DP); Roldnei Eduardo dos Reis Baptista (investigador do DPPC que atua na 1ª Delegacia de Combate à Corrupção); Rogério Coichev Teixeira (investigador do Serviço Aerotático); e Ciro Borges Magalhães Ferraz (escrivão no 35º DP).

Também foram presos Cléber Azevedo dos Santos, Robson Martins de Souza, Antônio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antonio Fontana (advogado). Um dos integrantes do grupo criminoso, Paulo Roberto Dias, conhecido como Barão e o doleiro Leonardo Meirelles estão foragidos.

A operação volta a mirar o Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC), que, segundo a denúncia, teria se transformado em “balcões de negócios” para garantir a impunidade de uma organização criminosa. A divisão era chefiada por Fábio Caipira à época dos fatos. Ele foi afastado, em dezembro de 2024, por ter sido citado na delação de Vinícius Gritzbach, assassinado no aeroporto de Guarulhos, que narrava extorsões supostamente praticadas por policiais civis para interferir em inquéritos que investigavam o empresário. Em janeiro, Caipira foi nomeado diretor do Dope (Departamento de Operações Policiais Estratégicas) da Polícia Civil.

T LB

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