Os Correios vão enxugar o número de cargos de 32 para 18 em sua nova estrutura de pessoal. A mudança foi proposta ao MGI (Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos) e está prevista no plano de reestruturação da empresa.
As alterações vão valer daqui para frente, ou seja, se aplicam aos futuros funcionários. Para os atuais empregados, a migração de carreiras será opcional, pois a legislação trabalhista garante a eles o direito de permanecer na atual posição.
A ideia da companhia é criar atrativos para incentivar a mudança, mas qualquer pagamento adicional precisa ser bem calibrado para não onerar a companhia em um momento em que a prioridade é a recuperação financeira. Vantagens muito amplas poderiam encarecer futuras contratações, indo contra um dos objetivos da reestruturação, que é poupar recursos no médio e longo prazo.
Outro foco da medida é dar mais flexibilidade na gestão interna de pessoal, mexendo nas atribuições dos cargos. Hoje, um agente que atua no atendimento não pode ser desviado para atividades de tratamento ou distribuição de encomendas, um desenho considerado engessado. A ideia é que a nova estrutura seja mais flexível e permita a mobilização de mão de obra conforme as necessidades operacionais.
O novo plano de cargos e salários também vai extinguir cargos como dentista, médico e enfermeiro. São atividades consideradas passíveis de terceirização, inclusive porque hoje os Correios não têm mais ambulatórios em suas dependências.
Os detalhes ainda estão sendo analisados pela Sest (Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais), do MGI, mas a reestruturação precisa ser aprovada até o início de abril. Depois disso, o governo fica impedido de fazer alterações em cargos e salários por causa da legislação eleitoral.
Enquanto isso, a empresa já está adotando outras duas medidas previstas no plano de reestruturação: o PDV (Programa de Demissão Voluntária) e a adoção da escala de 12 horas de trabalho por 36 horas de descanso em alguns setores.
A escala 12×36 é uma medida independente do novo plano de cargos e salários e já está valendo. A empresa a considera importante para conseguir ampliar o serviço de entrega nos finais de semana, operação atualmente restrita a poucas localidades e que hoje acaba sendo um diferencial competitivo de concorrentes privados.
Hoje, a jornada de trabalho dos funcionários dos Correios fica entre 40 e 44 horas semanais, conforme previsto na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
No PDV, os Correios já registraram a adesão de 2.117 empregados até a última terça-feira (24), segundo números informados à reportagem pela companhia. Isso representa 21% da meta de 10 mil desligamentos estipulados para 2026. Outras 5.000 demissões voluntárias foram projetadas para 2027.
O prazo para a adesão ao PDV se encerraria nesta terça-feira (31), e a direção da companhia chegou a informar aos empregados que não haveria prorrogação. No entanto, a empresa acabou estendendo a data até 7 de abril.
O programa prevê um incentivo financeiro aos funcionários que aderirem, mas, ainda assim, a nova gestão acredita que um gargalo importante é a perda do plano de saúde -apenas empregados já aposentados poderiam manter a assistência, desde que bancassem o custo integral (ou seja, pagar a mensalidade em dobro).
Para tentar contornar esse problema, a Postal Saúde, entidade responsável pelo plano de saúde dos Correios, lançou dois novos planos, mais baratos e abertos para ex-funcionários, bem como para familiares de trabalhadores da ativa, aposentados ou desligados. São modalidades com cobertura mais enxuta, mas também com menor custo, tanto para o beneficiário quanto para a empresa.
Hoje, os Correios são mantenedores do plano CorreiosSaúde 2, mais antigo, o que obriga a empresa a cobrir todo o déficit da operação -o que não existe nos novos planos.
Além disso, as mensalidades cobradas dos participantes no plano anterior são mais caras, criando uma barreira de entrada ou permanência. No ano passado, o plano fechou com 189,4 mil participantes, entre titulares e dependentes, uma queda de 6,6% em relação a 2024, quando havia 202,7 mil beneficiários.
Desde o lançamento dos novos planos, a diretoria tem intensificado as comunicações aos empregados e investido em palestras e canais de perguntas para tirar dúvidas dos empregados. A aposta é que a medida pode impulsionar as adesões ao PDV nessa reta final.
Caso ainda haja frustração na meta estipulada no plano de recuperação da empresa, não se descartam demissões de funcionários no futuro. Sob o ponto de vista jurídico, a companhia entende que sua situação financeira seria um motivador claro para a adoção dessa medida, como exige jurisprudência do STF (Supremo Tribunal Federal).
O plano de reestruturação dos Correios foi elaborado após a nova gestão da companhia, comandada por Emmanoel Rondon, mapear um buraco de R$ 20 bilhões no caixa da empresa, como revelou a Folha de S. Paulo à época.
No ano passado, a companhia contratou um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú e Santander) para cobrir parte de suas necessidades financeiras, tendo o plano de reestruturação como contrapartida.








