Sexta-feira, 06/02/26

Desigualdade será tema central na campanha eleitoral brasileira de 2026, diz Gabriel Zucman

Desigualdade será tema central na campanha eleitoral brasileira de 2026, diz Gabriel Zucman
Desigualdade será tema central na campanha eleitoral brasileira de 2026, – Reprodução

A desigualdade será um tema central na campanha eleitoral brasileira de 2026, para o economista francês Gabriel Zucman. Mundialmente famoso desde que propôs uma taxa de 2% a ser cobrada dos detentores de fortunas superiores a US$ 100 milhões (R$ 525 milhões), Zucman lançou nesta quinta-feira (5) em Paris o Observatório Fiscal Internacional (ITO, na sigla em inglês), que será dirigido por ele.

O ITO é uma ampliação do Observatório Fiscal Europeu (Euto), criado em 2021 para produzir para a União Europeia relatórios independentes sobre temas como concentração de riqueza, evasão fiscal e tributação dos ultrarricos.

Com uma equipe de 35 pesquisadores de vários países, ficará sediado na Paris School of Economics, centro de pesquisa e formação de economistas onde Zucman leciona.

O Brasil tem sido tema de constante interesse dos pesquisadores do observatório. Em abril, será lançado um relatório com novos dados a desigualdade na América Latina.

O brasileiro Theo Ribas Palomo, um dos doutorandos de Zucman, está aprofundando outro estudo recente, feito por ele com apoio e dados da Receita Federal brasileira, mostrando que a desigualdade no país é ainda maior do que se imaginava.

Zucman falou à reportagem sobre o trabalho de seu Observatório.
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PERGUNTA – O que haverá no relatório a ser lançado em abril?
GABRIEL ZUCMAN – Em linhas gerais, trata-se, em primeiro lugar, de fazer um balanço do nível de desigualdade na América Latina e, em particular, daquilo que se sabe sobre a riqueza extrema.
Como está evoluindo a fortuna dos bilionários, dos “centimilionários” [fortunas acima de US$ 100 milhões], dos muito, muito ricos da América Latina? Está em plena explosão. Que impostos eles efetivamente pagam? O que sabemos, do ponto de vista investigativo? E, em seguida, analisar as soluções possíveis para fazê-los contribuir pelo menos tanto quanto as outras categorias sociais.
P – A pesquisa do seu doutorando Theo Ribas Palomo, sobre a desigualdade no Brasil, vai tratar um pouco mais do passado. Até onde é possível ir com os dados de que se dispõe atualmente?
GZ – No estágio atual, ainda não podemos ir além de 2024. Mas essas pesquisas vão continuar. E graças às nossas parcerias com as administrações fiscais de alguns países da América Latina, estaremos em condições de divulgar os números mais atualizados e completos possíveis.
Já fizemos isso, por exemplo, no estudo publicado no verão de 2025 sobre as desigualdades na América Latina, que levou a uma revisão bastante significativa para cima do nível de desigualdade no Brasil, em termos da renda nacional detida pelo 1% mais rico. E ess trabalho está apenas começando.
P – Qual é a importância de mostrar a evolução histórica?
GZ – Em primeiro lugar, é um elemento de informação essencial para o debate público e democrático na América Latina, como em todos os países do mundo. Em segundo lugar, é um primeiro passo para tentar compreender quais são as políticas, sejam elas fiscais ou outras políticas públicas, que são eficazes na luta contra as desigualdades.
Ou seja, se quisermos saber aquilo que funciona, precisamos primeiro compreender a evolução histórica das desigualdades e, em seguida, começar a correlacioná-la com as escolhas de políticas públicas que foram feitas.
P – Este ano, de campanha presidencial no Brasil, o senhor acredita que é importante incluir esse tema no debate político?
GZ – Acho que é essencial no Brasil, como em todos os países. O Brasil, de acordo com os estudos realizados, caracteriza-se por um nível de desigualdade particularmente elevado. Sem dúvida um dos mais elevados, senão o mais elevado entre os grandes países em escala mundial.
Por outro lado, o sistema fiscal brasileiro, mesmo com os avanços alcançados graças à reforma tributária aprovada há alguns meses, continua caracterizado por uma tributação muito baixa das maiores fortunas, enquanto as classes médias e populares são bastante tributadas no Brasil, com impostos sobre o consumo muito pesados.
Essa situação precisa evoluir. Trata-se de um desafio econômico e político crucial para o Brasil e que, na minha opinião, estará no centro das eleições presidenciais de 2026.

T LB

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