A abertura de dados do transporte público do Distrito Federal revelou o peso financeiro do sistema. As informações divulgadas pela Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob-DF) apontam que o transporte coletivo do DF movimentou mais de R$ 3 bilhões em 2025, com mais de R$ 2,3 bilhões do custo bancados pelo Governo do Distrito Federal. Os dados estão disponíveis no Portal Mobilidade Transparente, lançado pela pasta após aprovação da Lei 7.836/2025, de autoria do deputado distrital Max Maciel (PSOL).
A lei foi sancionada em dezembro de 2025, mas começou a valer em fevereiro deste ano devido ao prazo de 60 dias para ser colocada em vigor. A ementa exige que os dados do transporte público sejam divulgados em um site disponível para toda a população do DF. O painel disponibiliza informações a respeito das empresas operadoras, linhas de ônibus, receitas e despesas, viagens, frotas e perfil dos passageiros.
Ao Jornal de Brasília, o deputado Max Maciel afirmou que é direito do cidadão saber os custos totais do sistema de transporte e como estão sendo aplicados os valores liberados para as concessionárias por meio dos créditos suplementares todos os anos. “A falta de clareza, os processos licitatórios irregulares e os gastos não justificados têm sido figurinhas carimbadas no transporte público do DF. Acreditamos que esse novo portal de transparência é essencial para aumentar o controle social sobre o transporte público, permitindo que a população fiscalize o uso do dinheiro e possa cobrar melhorias nos serviços”, explicou o parlamentar.
Por outro lado, o secretário da Semob, Zeno Gonçalves, relembrou que todas as informações já constavam no site da pasta e também no portal de dados abertos do GDF, mas de maneira dispersa. “Nós já estávamos construindo o portal desde o ano passado. A lei veio reforçar essa necessidade de transparência, tanto que recomendamos a sanção pelo governador. Entendemos que a transparência é a regra e faz parte da obrigação de o governo prestar contas das suas ações”, afirmou o secretário.
De acordo com Zeno, o governo assume uma parte significativa do custo para garantir que o transporte continue acessível para a população. Na ocasião, ele fez uma comparação com o valor cobrado nas passagens do entorno do DF. “No transporte do Entorno, que não conta com subsídio, 100% do sistema é bancado pelas tarifas dos usuários. As passagens são mais caras e o sistema acaba enfrentando mais dificuldades”, expôs ele.
No entorno as passagens custam a partir de R$ 5,18, no caso do Valparaíso, e podem chegar a R$ 12,35, como os ônibus de Luziânia. O último reajuste de 2,546% foi aprovado recentemente pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Dados no painel
Segundo as informações disponibilizadas no sistema, a capital conta com 19 operadoras em funcionamento, entre elas as principais são: Viação Pioneira, Urbi Mobilidade Urbana, Viação Piracicabana, Expresso São José e Auto Viação Marechal, além do Metrô-DF. As demais são permissionários rurais, segundo a Semob. Juntas, todas as operadoras possuem cerca de 986 linhas em funcionamento.
Ao analisar apenas as cinco principais concessionárias de ônibus no DF (uma das possibilidades de filtragem no sistema) é possível verificar que o custo chegou a R$ 2,9 bilhões, com 338 milhões de viagens realizadas. Entre esse valor, mais de R$ 2,2 bilhões são pagos pelo DGF. Logo, os outros R$ 706 milhões são custeados diretamente pelos brasilienses. Entre os principais tipos de acesso ao transporte em 2025, estão: cartão mobilidade (114 milhões), vale transporte (67 milhões), passe livre estudantil (60 milhões), pagantes (29 milhões), vai de graça (26 milhões e idosos (15 milhões).
Um fator que pesa no custo final é o volume de gratuidades. Os benefícios custaram cerca de R$ 977 milhões em 2025. Uma das principais políticas públicas nesse sentido é o passe livre estudantil, com 60 milhões de acessos e custo de R$ 553,7 milhões. Além das políticas como transporte gratuito para idosos, pessoas com deficiência e vítimas de violência doméstica.
Outro informe destacado é o valor da tarifa técnica cobrada por cada uma das cinco empresas. Enquanto o usuário desembolsa cerca de R$ 5,50 na tarifa da Viação Marechal, o valor técnico sai a R$ 11,33. Atualmente as tarifas no DF são de R$ 5,50, R$3,80 e R$ 2,70, preços que permanecem congelados até o final de 2026. E com o uso do cartão mobilidade é possível fazer até três viagens e pagar o valor da tarifa maior. Os demais valores reais com custo de operação são: R$ 10,74 na São José, R$ 9,96 na Urbi, R$ 8,96 na Piracicabana e R$ 8,19 na Pioneira.
As informações detalhadas do Metrô, também disponíveis no site, mostram que o meio de transporte teve mais de 41 milhões de acessos nas 27 estações em operação em 2025. A estação com o maior número de usuários é a Central, localizada na Rodoviária do Plano Piloto, com 5,5 milhões. A com menos acessos é a 110 Sul, com 353 usuários.
Desafios para os rodoviários
Despachante de uma empresa de destaque, Daniel de Souza relata que apesar do montante dos recursos destinados ao transporte, os rodoviários também enfrentam dificuldades no ambiente de trabalho. Segundo ele, a ampliação da frota poderia ajudar a melhorar o atendimento para a população e qualidade de trabalho e vida dos funcionários do setor.
“Hoje o que a gente mais enfrenta são atrasos e transtornos no trânsito. Isso acaba trazendo muito estresse, ansiedade e até problemas de saúde para os motoristas, como dores na coluna.Se tivesse mais ônibus circulando, daria para atender melhor a demanda e evitar que motoristas precisassem fazer dobras de turno. Isso influencia diretamente na rotina do rodoviário”, comentou.
O dilema dos usuários
A cadeirante Caroline Belfort, de 40 anos, é usuária do transporte público no DF e afirma que pessoas com deficiência ainda enfrentam muitas dificuldades em relação ao sistema. “Embora muitos ônibus tenham elevador para cadeirantes, ainda falta conscientização. Às vezes os motoristas não param ou os passageiros ficam impacientes porque o equipamento demora para descer”, relatou.
Ao comentar a respeito dos recursos do GDF destinados ao transporte coletivo, ela avaliou que o investimento poderia resultar em melhorias mais perceptíveis para a população. “É um valor muito alto para um transporte que ainda tem tantos problemas. Esse dinheiro poderia ser melhor aplicado na qualidade do serviço”, disse.








