São Paulo, 06 – Após volatilidade e trocas de sinal pela manhã, o dólar se firmou em terreno negativo no mercado local ao longo da tarde, acompanhando a desvalorização da moeda americana, sobretudo em relação a divisas mais ligadas à dinâmica do petróleo, como a coroa norueguesa e o dólar canadense.
Com mínima de R$ 5,2393, na reta final da sessão, o dólar à vista fechou em queda de 0,82%, a R$ 5,2438. Apesar do escorregão, termina a primeira semana de março com ganhos de 2,14%, após baixa de 2,16% em fevereiro. As perdas no ano, que chegaram a superar 6%, agora são de 4,47%.
“Apesar da alta expressiva do petróleo, o número mais baixo do payroll fez com que a taxa de juros futuros dos EUA recuasse, o que levou a um enfraquecimento do dólar”, afirma o chefe da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, em referência a eliminação de 92 mil postos de trabalho nos EUA em fevereiro. “Além disso, o Brasil é um dos países beneficiados pela alta do petróleo, o que pode ter ajudado no desempenho do real”.
Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra que as chances de retomada do processo de corte de juros pelo Federal Reserve em julho voltaram a ser majoritárias, acima de 60%. Para a redução total acumulada, as apostas estão divididas, grosso modo, entre 25 pontos-base e 50 pontos.
Além da eliminação de 92 mil postos em fevereiro, o payroll trouxe revisão para baixo dos resultados de janeiro, de aumento de 130 mil vagas a alta de 126 mil vagas, e de dezembro, de criação de 48 mil para eliminação de 17 mil postos de trabalho. A taxa de desemprego subiu de 4,3% para 4,4%, quando se esperava estabilidade.
Economistas da Armor Capital ressaltam que o resultado do payroll em fevereiro foi afetado por uma greve que “retirou cerca de 31 mil pontos de trabalho no mês”. A queda da taxa de desemprego, contudo, corrobora a narrativa de enfraquecimento do mercado de trabalho. “A volatilidade dos ativos permanece elevada em meio às incertezas tanto em relação à guerra quanto à própria dinâmica da economia dos Estados Unidos”, afirmam.
Segundo o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, o Fed enfrenta o dilema apresentado pela combinação de disparada dos preços do petróleo com sinais de perda de força do mercado de trabalho. “A atividade mais fraca sugere cortes de juros, mas choques de energia podem reacender a inflação. Dependendo de qual deles falar mais alto, a trajetória dos juros pode mudar de direção mais rápido do que se imaginava”, afirma Galhardo.
Indicado para a diretoria do Fed por Donald Trump, Stephen Miran afirmou que o choque do petróleo pode enfraquecer a atividade econômica, levando a uma desaceleração da inflação. “O conflito com o Irã me deixa ainda mais inclinado a uma postura dovish”, disse em entrevista à CNBC.
As cotações do petróleo dispararam em meio a dúvidas sobre as condições do tráfego pelo Estreito de Ormuz e temores de escalada do confronto. O contrato do WTI para abril fechou em alta de 12,20%, a US$ 90,90, ao passo que o contrato do Brent para maio subiu 8,52%, a US$ 92,69, acumulando ganhos de cerca de 30% na semana. Pela manhã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que não fará um acordo como Irã e aceitará apenas a rendição incondicional de Teerã.
Bolsa
Com contribuição importante de Petrobras após o balanço de 2025, o Ibovespa lutou ao menos para preservar a linha dos 180 mil pontos nesta semana em que acumulou perda de 4,99%. Porém, a pressão exercida pelo setor de metais e pelas ações de bancos colocou o índice aos 179.364,82 pontos no fechamento, em baixa de 0,61%. Com a tensão no Oriente Médio, o barril do Brent avançou 27% na semana e o do WTI, 35%, o que reforça as preocupações em torno da inflação global e da trajetória dos juros em um cenário geopolítico ainda incerto. Em Londres, o contrato futuro mais líquido do Brent subiu hoje 8,5% e, em NY, o do WTI, 12%, o que colocou ambas as referências acima de US$ 90 por barril.
A perda semanal do Ibovespa – no negativo pelo segundo intervalo consecutivo – foi a maior para o índice desde o período entre 7 e 11 de novembro de 2022 (-5,00%). Entre a mínima e a máxima desta sexta-feira, oscilou dos 178.556,49 até os 181.091,01 pontos, tendo saído de abertura aos 180.463,44. O giro financeiro foi a R$ 32,6 bilhões na sessão. No ano, o Ibovespa sobe 11,32%. No fechamento desta sexta-feira, 6, o Ibovespa foi ao menor nível desde 26 de janeiro, então a 178,7 mil.
Na sessão, além da escalada do petróleo e da boa recepção ao balanço do quarto trimestre, a alta firme de Petrobras (ON +4,12%, PN +3,49%) pareceu refletir, também, um movimento de rotação a partir de setores de peso punidos pela aversão global a risco, como o metálico – destaque para Vale ON, em queda de 2,99%, e CSN ON, de 4,26% – e o financeiro, que mostrou recuo de até 2,51% (Santander Unit) no encerramento.
No começo da tarde, as ações de Petrobras ganharam impulso adicional durante a teleconferência sobre os resultados da empresa. Nela, a presidente da companhia, Magda Chambriard, reiterou que a política de preços da estatal considera tanto momentos de queda do barril do petróleo, como no ano passado, como no de alta, cenário atual.
“Vale a mesma coisa até agora”, destacou, no que foi interpretado como um aceno de que os preços domésticos, na refinaria, podem vir a subir caso a escalada das cotações internacionais prossiga sem trégua. Mais cedo, nesta semana, a estatal havia indicado que não repassa a volatilidade externa para os preços internos.
Na ponta ganhadora do Ibovespa, além das duas ações de Petrobras, destaque também para outros nomes do setor de energia, como Brava (+4,61%), Prio (+4,27%) e Vibra (+2,31%). No lado oposto, além de CSN, apareceram Embraer (-8,05%), Vamos (-7,24%) e Raízen (-6,78%).
“Depois de um início de ano muito forte para a Bolsa brasileira, março começou com um certo ajuste de rota. O índice já vinha esticado, e quando o mercado está assim, qualquer notícia negativa vira gatilho para uma realização mais ampla”, resume Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, referindo-se à percepção de risco global desde o ataque deflagrado no último sábado por EUA e Israel ao Irã, com desdobramentos ainda em andamento e reflexos não apenas para o mercado de ações e os preços do petróleo, mas também para o câmbio e os juros futuros
No ano, os ganhos acumulados pelo Ibovespa, de 17,17% até o fechamento de fevereiro na sexta-feira anterior aos ataques, estão agora em 11,32%. Em dólar, o Ibovespa subia 25,26% até a última sexta-feira, em 2026. Agora, considerando também a apreciação de 2,14% do dólar frente ao real na semana, está em 16,52%. Na sessão, a moeda americana caiu 0,82%, a R$ 5,2438. Em Nova York, na sessão, Dow Jones -0,95%, S&P 500 -1,33% e Nasdaq -1,59%.
“O presidente Trump tem projetado repetidamente um prazo de pelo menos quatro a cinco semanas para encerrar o conflito, enquanto o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que não há limite para o direito de autodefesa do país. Atribui-se, agora, apenas uma chance em 3 de que as operações militares dos EUA terminem até o fim de março, abaixo dos mais de 80% de possibilidade logo após o ataque de sábado”, diz Matthew Ryan, head de estratégia de mercado global da Ebury, referindo-se a dados da Polymarket, uma plataforma global de projeções de mercado.
Neste contexto de crescente incerteza geopolítica, o quadro das expectativas para as ações no curtíssimo no Termômetro Broadcast Bolsa, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, desta sexta mostra um mercado dividido. Entre os participantes, 37,50% disseram esperar alta para o Ibovespa na próxima semana e outros 37,50% preveem variação neutra, contra 50,00% e 25,00%, respectivamente, na pesquisa da semana passada. A fatia dos que projetam queda manteve-se em 25,00%.
Juros
Os juros futuros negociados na B3 registraram mais uma sessão de firme alta nesta sexta-feira, 6, em movimento destoante dos demais ativos domésticos de risco. Segundo agentes, a abertura forte mesmo com a acentuação da queda do dólar na segunda etapa do pregão pode refletir ajustes técnicos, com investidores zerando posições aplicadas frente ao estresse observado nos últimos dias.
Na ponta curta, o acirramento do conflito no Oriente Médio e consequente disparada nos preços do petróleo, cujo barril tipo Brent para maio atingiu US$ 92,63, tem levado profissionais do mercado a rever estimativas para a inflação e reavaliar a perspectiva de curto prazo para a política monetária. Antes tido como quase certo, um corte de 0,5 ponto porcentual da Selic em março agora é chance minoritária na precificação da curva a termo. E já há quem considere a possibilidade de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central mantenha o juro inalterado na próxima reunião.
Os trechos intermediários e longos, por sua vez, chegaram a abrir cerca de 30 pontos-base no início da sessão com a aversão ao risco, devido à intensificação da guerra. E, mesmo reduzindo o ritmo ao longo da tarde, voltaram a avançar mais de 20 pontos nas horas finais do pregão, em um movimento que, para participantes do mercado, refletiu ajustes de posição.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 13,505% no ajuste de quinta para 13,67%. O DI para janeiro de 2029 marcou 13,3%, vindo de 13,079% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,469% no ajuste anterior a 13,715%.
No cômputo semanal, a curva acentuou a inclinação e teve expressivo deslocamento para cima, com a guerra e seus efeitos sobre a oferta mundial de petróleo elevando os prêmios de risco. Em relação ao fechamento da última sexta-feira, o contrato de DI para janeiro de 2027 subiu 39 pontos-base, enquanto a taxa para janeiro de 2029 saltou 65 pontos-base e a de janeiro de 2031 disparou 68 pontos-base.
Apesar dos avanços militares reportados pelos EUA, Israel e aliados, a normalização do fluxo de petróleo, que é agora o ponto central para o desempenho dos ativos, ainda não ocorreu, observa Marcelo Fonseca, economista do Grupo CVPAR. Ele menciona que o escoamento no Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do óleo produzido no mundo, não foi retomado, enquanto ataques iranianos a refinarias de outros países na região também comprometem a oferta da commodity.
Tendo como pano de fundo as tensões geopolíticas, Fonseca avalia que a deterioração mais expressiva dos DIs na sessão desta sexta se comparada à Bolsa e ao dólar também pode ter como indutor uma redução generalizada de posições. “O DI tem volatilidade muito grande quando eventos assim acontecem. A liquidez desaparece e o mercado fica unidirecional. Dificilmente vai surgir muita gente querendo tomar a ponta contrária neste momento”, disse.
Um economista de uma grande tesouraria afirmou à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, que, mesmo ajustando as movimentações de acordo com a volatilidade de cada ativo, os juros futuros mostraram dinâmica pior nesta sexta. “Parece mais técnico, com pessoal ‘stopando’ mais o DI”, comentou, referindo-se a investidores que estavam posicionados para uma queda das taxas, mas decidiram zerar posições quando os juros começaram a subir para não ter mais prejuízos, em uma estratégia que fortalece ainda mais a abertura dos vértices.
Para ele, assim como para Fonseca, um corte de 0,5 ponto porcentual da Selic em março parece mais difícil após o aumento das incertezas no ambiente externo. “Se continuar assim, é um corte de 25 pontos, ou zero”, avaliou o economista da tesouraria
Segundo cálculos do economista-chefe do banco BMG, Flávio Serrano, a curva precificava nesta tarde cerca de 65% de probabilidade de corte de 0,25 ponto do juro básico este mês, ante 50% na quinta. A taxa apontada para o final de 2026 subiu a 12,95%. “Sigo prevendo corte de 50 pontos-base em março. Mas pode ser 25 pontos a depender dos próximos dias”, pondera Serrano.
Estadão Conteúdo








