Sábado, 14/03/26

Dólar supera R$ 5,30 com guerra no radar e fecha no maior nível desde janeiro

Dólar supera R$ 5,30 com guerra no radar e fecha no maior nível desde janeiro
Dólar supera R$ 5,30 com guerra no radar e fecha – Reprodução

São Paulo, 13 – O dólar acelerou bastante os ganhos no mercado doméstico ao longo da tarde, em sintonia com o comportamento global da divisa, em meio a um aumento da aversão ao risco no exterior. Declarações duras do presidente Donald Trump e a escalada da guerra no Oriente Médio, com ataques israelenses ao Irã, ensejaram nova rodada de alta do petróleo e a busca por refúgio na moeda americana na véspera do fim de semana.

Com máxima a R$ 5,3253, o dólar à vista encerrou esta sexta-feira, 13, em alta de 1,41%, a R$ 5,3163 – maior valor de fechamento desde 21 de janeiro (R$ 5,3208). A divisa termina a semana com avanço de 1,38%, o que levou a valorização em março a 3,55%, após queda de 2,16% em fevereiro. No ano, as perdas do dólar em relação ao real, que já foram superiores a 6%, são agora de 3,15%.

Em entrevista à FoxNews Radio, Trump prometeu atacar o Irã “com muita força” na própria semana, o que aumentou o temores de um conflito ainda mais destrutivo e duradouro, com impactos persistentes nos preços de energia. As cotações do petróleo voltaram a subir, embora de forma mais comedida. O contrato do Brent para maio avançou 2,67% e fechou a US$ 103,14 o barril, encerrando a semana com ganhos de 11%. A commodity acumula valorização superior a 40% em março e de cerca de 70% no ano.

O real amargou o pior desempenho entre as divisas emergentes mais líquidas. Operadores afirmam que houve uma quebra da dinâmica favorável à moeda brasileira, que sofria menos do que seus pares até meados da semana, em razão de o Brasil ser exportador líquido de petróleo. Parte desse movimento pode ser atribuída ao fluxo de saída mais forte ou à realização de lucros, já que a moeda brasileira acumulou ganhos expressivos nos dois primeiros meses do ano.

O chefe da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, observa que o real andou praticamente em linha com o dólar australiano. Trata-se das duas moedas com melhor desempenho no ano entre as principais divisas emergente e de países exportadores de commodities.

“Acredito que tenha ocorrido uma saída expressiva no segmento spot. Saíram lotes muito grandes no mercado interbancário. Até por isso o Banco Central fez um leilão casado hoje”, afirma Weigt, acrescentando que o cupom cambial (que reflete o juro em dólar) mais curto estava pressionado antes da atuação do BC.

Pela manhã, em uma operação conhecida o mercado como “casadão”, o Banco Central vendeu US$ 1 bilhão no mercado spot e 20 mil contratos (US$ 1 bilhão) de swaps cambiais reversos, que equivalem a compra de dólar futuro. Operadores afirma que havia sinais de menor liquidez no dólar à vista, com pressão no cupom cambial de curto prazo e na taxa do chamado casado, que reflete a diferença entre dólar futuro e spot.

“Foram aceitas sete propostas no leilão. Isso indica que não foi algo direcionado. A saída grande de dólar hoje resultou de uma compra efetiva de moeda”, afirma Weigt, lembrando que o fluxo cambial foi bastante negativo na primeira semana de março.

Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY superou a linha dos 100,000 pontos no fechamento pela primeira vez desde novembro de 2025 e no maior nível desde maio do ano passado. No fim do dia, subia cerca de 0,70% ao redor dos 100,500 pontos. O Dollar Index termina a semana com ganho superior 1,60% e já avança quase 3% no mês.

As taxas dos Treasuries de 10 e 30 anos apresentaram alta moderada. Com a escalada do petróleo e sinais divergentes da inflação ao consumidor, monitoramento do CME Group mostra que as apostas para a retomada de cortes pelos Federal Reserve, que tem encontro de política monetária na próxima quarta-feira, 18, passaram a ser dividir entre setembro e outubro.

O especialista em investimentos Bruno Shahini, da Nomad, afirma que a alta do DXY reflete tanto busca por segurança quanto um ajuste de expectativas para os juros nos EUA, diante das pressões inflacionárias provocadas pela alta do petróleo.

“os investidores passaram a reduzir as apostas de cortes de juros pelo Federal Reserve, com a expectativa atual apontando para cerca de 18 pontos-base de redução em 2026, bem abaixo dos quase 40 pontos-base precificados há apenas uma semana”, afirma Shahini.

Bolsa

A piora na percepção de risco na segunda parte dos negócios desta sexta-feira, 13, empurrou o Ibovespa para mínima na faixa de 177 mil pontos, nível que prosseguiu até o encerramento da sessão, após ter passado a primeira fase do pregão acima deste patamar. Ao final, caiu 0,91%, aos 177.653,31 pontos, nível visto pela última vez em meados do final de janeiro. Houve declínio considerável das ações de primeira linha, as que mais atraem investidores estrangeiros, num indicativo de saída de fluxo internacional.

Na semana, o Ibovespa cedeu 0,95%, após recuo de 4,99% na passada, reduzindo a alta no acumulado de 2026 para 10,26%. No mês de março cai 5,90%.

A deterioração do cenário reflete o aumento de incertezas sobre o que pode estar por vir no âmbito da guerra no Oriente Médio no fim de semana, diante da ausência de um horizonte claro para um desfecho. As dúvidas se ampliaram após novas ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em elevar ataques ao Irã.

Além da aceleração no ritmo de queda do Índice Bovespa, em meio ao recuo das bolsas de Nova York, o dólar subiu 1,41%, a R$ 5,3163, com os juros futuros também em alta acentuada.

“Considerando o cenário, eu diria que o desempenho dos mercados é redução de risco por conta do fim de semana. Ficar sem mercado por dois dias, sendo que o conflito ainda está muito intenso, causa apreensão”, diz Bruno Takeo, estrategista da Potenza Capital.

Além das preocupações com a escalada da guerra no Oriente Médio e seus possíveis impactos na inflação e na política monetária mundial, que pode deixar juros elevados por tempo prolongado, o reajuste do diesel pela Petrobras, ainda que visto como necessário, eleva mais a preocupação com a inflação. Este quadro ocorre a poucos dias das decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) e do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), na quarta-feira que vem.

Por outro lado, apesar do pacote de medidas anunciado na quinta-feira, 12, pelo governo federal para atenuar o impacto da alta do petróleo sobre os preços dos combustíveis, o que pode pressionar menos a inflação, o risco fiscal é elevado, segundo analistas.

“O governo tirou de um lado, e a Petrobras soltou de outro. A estatal tinha mesmo que elevar o preço do diesel, dada a defasagem com os preços internacionais”, pontua Felipe Sant’ Anna, especialista em mercado financeiro do grupo Axia.

No começo da tarde desta sexta-feira, a Petrobras anunciou um reajuste de 11,6% no preço do diesel, que passará a custar R$ 3,65 por litro a partir deste sábado nas refinarias da estatal, um aumento de R$ 0,38 por litro.

Ao comentar o reajuste, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, reafirmou que a estratégia de preços da estatal funciona no cenário de volatilidade do petróleo. Ela enfatizou que não houve interferência do governo na decisão.

Os indicadores informados nesta sexta – Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de fevereiro no Brasil e índices de atividade e inflação dos EUA – ficaram em segundo plano, de certa forma, dado o aumento das preocupações com a guerra no Oriente Médio.

Trump voltou a ameaçar o Irã, de que a guerra terminará quando ele determinar. “Prometeu mega ataque ao Irã. Serão dois dias em que os mercados ficarão fechados. Então, é hora de desfazer posições. Há um cenário de preocupação com a inflação e muitos têm revisto projeções de cortes de juros”, diz Sant’ Anna, do Axia.

De 85 ações 20, fecharam em alta. A maior valorização da carteira teórica ficou com SLC Agrícola (2,51%), seguida por BB Seguridade (1,98%) e TIM (1,495). Em contrapartida Braskem (-6,97%), CSN (-6,23%) e Hapvida (-6,17%) cederam, ocupando o grupo das maiores perdas.

Vale recuou 1,19%, apesar da alta 2,33% do minério em Dalian, enquanto Petrobras caiu entre 0,73% (PN) e 0,54% (ON), a despeito do avanço de 2,97% do petróleo Brent, a US$ 103,43. No caso de grandes bancos, Bradesco PN teve o maior recuo, de 2,06%, e ON teve desvalorização de 1,56%; BB caiu 1,73% e BTG, -1,76%; Itaú Unibanco cedu 0,68% e Santander, -1,18%.

Juros

A cautela com o cenário ainda mais incerto para o conflito no Oriente Médio levou os juros futuros negociados na B3 a exibirem firme elevação no pregão desta sexta-feira, 13. Às vésperas da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima semana, os trechos curtos da curva chegaram a abrir mais de 40 pontos-base ao longo da tarde conforme o petróleo se firmou acima de US$ 100, elevando temores inflacionários.

Para agentes, o movimento dos DIs também refletiu ajustes técnicos. Participantes do mercado relataram zeragem de posições antes do final de semana, devido à possibilidade de acirramento adicional da guerra, que desestimula exposição a risco. A abertura dos retornos dos Treasuries longos e o fortalecimento do dólar, que também subiu na sessão, deram impulso ao avanço dos trechos mais distantes da curva nominal.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 avançou de 13,927% no ajuste de quinta para 14,315%. O DI para janeiro de 2029 subiu a 13,93%, vindo de 13,444% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 aumentou de 13,738% no ajuste anterior para 14,165%.

Em entrevista à Fox News nesta sexta, o presidente Donald Trump afirmou que o conflito só vai terminar quando ele decidir, e que o país tem “munição ilimitada” contra o Irã. Também alertou que os EUA vão atacar o país persa “com força” na próxima semana. No estreito de Ormuz, a Reuters informou que Teerã teria permitido que 2 navios-tanque de gás naveguem para a Índia através da rota. A cotação do barril do petróleo tipo Brent aumentou 2,67%, para US$ 103,14, com preocupações sobre o fluxo no estreito e a continuidade da ofensiva.

“Está tendo uma ‘stoparada’ específica em Brasil sim. Acho que é medo do fim de semana”, afirmou um profissional de uma grande tesouraria à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, sob condição de anonimato, referindo-se a investidores que estavam posicionados para uma queda das taxas, mas decidiram zerar posições, em uma estratégia que fortalece ainda mais a abertura do vértice em questão.

Economista-chefe da Mirae Asset, Marianna Costa também avalia que o aumento dos DIs nesta sexta pode ter ganhado fôlego extra devido a movimentos técnicos. “Temos visto muito volatilidade na semana para quem está posicionado em DI. Há pouco incentivo para ficar exposto a risco, e vamos nos aproximando mais de movimentos de ‘stop”, afirmou.

Segundo Costa, além da natureza já tipicamente turbulenta de conflitos, a guerra atual tem um componente adicional de incerteza devido ao perfil do governo norte-americano, o que causa volatilidade ainda maior no comportamento dos ativos de risco. Além da conduta errática de Trump, a economista destaca que há muitas possibilidades em aberto – inclusive, de um cessar-fogo repentino que traga alívio aos ativos.

Publicada na abertura dos negócios pelo IBGE, a Pesquisa Mensal dos Serviços (PMS) mostrou que o volume prestado pelo setor avançou 0,3% entre dezembro e janeiro, na comparação dessazonalizada. A mediana de analistas ouvidos pelo Broadcast previa alta menor, de 0,1%. A surpresa para cima, de acordo com agentes, não chegou a fazer preço, mas corrobora, assim como o IPCA de fevereiro, que o Banco Central será cauteloso na condução do ciclo de afrouxamento monetário.

O BNP Paribas mudou de 0,50 ponto para 0,25 ponto sua estimativa para o corte do juro básico na próxima semana, em razão da volatilidade recente dos preços do petróleo e das incertezas geopolíticas.

No cômputo semanal, a escalada do conflito e a disparada do petróleo foram os principais vetores de alta para os juros futuros. Em relação ao fechamento da última sexta-feira, o DI para janeiro de 2027 e o de janeiro de 2029 saltaram quase 0,7 ponto porcentual. O vencimento de janeiro de 2031 subiu 0,4 ponto.

Estadão Conteúdo

T LB

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