Na contramão do mercado de trabalho aquecido dos últimos anos, e em meio a um processo de modernização e enxugamento de custos pelas empresas, o Brasil eliminou 322 mil vagas de gerência e diretoria de 2020 para cá.
Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que em 2025 o saldo das contratações para esses cargos de liderança ficou negativo em 112,3 mil postos.
O movimento mostra um descolamento do mercado de trabalho como um todo: nos últimos seis anos, foram geradas 9 milhões de vagas com carteira assinada no Brasil, 1,2 milhão delas em 2025.
Os cortes de vagas de gerência e diretoria vêm se intensificando desde 2023, quando foram eliminadas 89,6 mil dessas ocupações; em 2024, foram cortadas 98,3 mil.
O encolhimento no número de líderes pode ser explicado por algumas razões, e uma das principais é o caminho sem volta da horizontalização dentro das empresas, que reduz a quantidade de níveis hierárquicos nas grandes corporações.
Esse processo já vinha acontecendo na década passada, mas ganhou fôlego em meio ao forte impulso recente da digitalização, que facilita a fiscalização e gestão, permitindo que menos gerentes supervisionem mais pessoas.
“Nos anos 1980 e 1990, havia estruturas extremamente verticalizadas e compartimentadas. Isso foi mudando”, diz Leonardo Berto, gerente regional da consultoria de recrutamento Robert Half. “Hoje há menos áreas generalistas, e mais especialistas, mais líderes de projetos. Os processos passaram a ser mais modernos e integrados”, diz.
A pandemia acabou estimulando esse processo com a melhoria nas infraestruturas tecnológicas das companhias, com grandes avanços no desenvolvimento de softwares de gestão.
“Muitas empresas reduziram seus corpos diretivos afunilando níveis, reduzindo em um, dois e até três escalões para cortar custos”, diz Lucas Oggiam, diretor executivo da Michael Page. “Antes, uma pessoa se dedicava somente a uma atividade, e hoje não é estranho que se dedique a duas. Acumula-se mais responsabilidade em menos indivíduos.”
Mas esse é apenas um dos aspectos que explicam os cortes das posições de liderança. Outro motivo é o efeito da taxa de juros elevada por um longo tempo sobre as empresas brasileiras. Desde fevereiro de 2022, a taxa básica de juros (Selic), hoje em 15% ao ano, está em dois dígitos.
“Em um cenário de juros altos e restrição de investimentos, você prioriza as funções essenciais, colocando em primeiro lugar a manutenção das operações”, diz Berto. “Já em um cenário positivo, em que vai investir, a empresa provavelmente está gerando novos empregos, e isso exige liderança estratégica.”
Para os especialistas, a decisão de cortar cargos de gerência e diretoria acaba sendo muito influenciada pelo cenário macroeconômico.
“Nos últimos anos, o mundo ficou de ponta cabeça por causa da Covid, e o mercado se ajustou, focando na rentabilidade e na gestão de caixa. Isso, com os juros altos, tem sido um desafio para parte das empresas”, diz Oggiam.
Outro ponto é que muitas multinacionais sofreram com uma sucessão de crises que se acumularam nos últimos anos. Além da pandemia, houve a invasão da Ucrânia pela Rússia, os conflitos no Oriente Médio e, mais recentemente, a imposição de tarifas a produtos importados pelo presidente americano, Donald Trump.
Quando empresas americanas ou europeias decidem eliminar determinados cargos, essas medidas costumam ser replicadas por suas filiais no Brasil.
“Após a pandemia, as cadeias de suprimentos começaram a se desestabilizar, e isso levou ao achatamento das estruturas”, diz o especialista da Michael Page. “Houve uma cadeia de fatores que fizeram com que as empresas tivessem que optar pela sobrevivência, cortar a mão para não cortar o braço.”
Apesar dos cortes de cargos de liderança, a avaliação é que esses gerentes e diretores não ficaram sem emprego. Para Berto, há uma redistribuição de vagas, com as pessoas encontrando outros caminhos de carreira.
“A mão de obra passou a ser absorvida de outras formas, como em funções de consultor ou analista, que envolvem algum nível de liderança”, diz. “Além disso, muita gente não segue mais um caminho linear e tradicional de carreira.”








