O mercado de trabalho do Distrito Federal começou 2026 em expansão, mas empresários relatam que preencher as vagas disponíveis tem se tornado um desafio. Dados do Novo Caged mostram que o DF registrou saldo positivo de 2.012 empregos formais em janeiro, indicando aquecimento da atividade econômica. Apesar disso, muitas empresas afirmam enfrentar dificuldades para encontrar profissionais qualificados para ocupar as posições abertas.
A situação se reflete também nas ofertas divulgadas pelas Agências do Trabalhador, que chegaram a disponibilizar cerca de 500 vagas em um único dia no início de março, com salários que podem chegar a aproximadamente R$ 3 mil. Mesmo com oportunidades disponíveis, parte dos empregadores afirma que o número de candidatos preparados não acompanha o ritmo das contratações.
Para o especialista em gestão empresarial e vendas Flávio Sanches, o problema está no desencontro entre as expectativas de empresas e trabalhadores. “Existe hoje uma diferença clara entre vaga disponível e pessoas capacitadas para ocupá-la. De um lado, empresas que ainda querem contratar alguém para exercer várias funções por um salário baixo. Do outro, profissionais sem qualificação ou experiência prática que esperam salários mais altos. Quando essas expectativas se encontram, surge exatamente esse desencontro que estamos vendo no mercado”, explica.
Maior dificuldade
Entre os setores mais afetados pela escassez de profissionais preparados está a área comercial. Empresas de diferentes segmentos relatam dificuldades para contratar vendedores e atendentes com perfil adequado para a função. Segundo Sanches, ainda existe uma visão equivocada sobre o trabalho de vendas. “Muitas pessoas acreditam que vender é apenas falar bem. Como a profissão não é regulamentada, muita gente entra na área sem preparo técnico e sem entender que vendas exigem método, disciplina e estudo. Isso contribui para a alta rotatividade no setor”, afirma.
Ele acrescenta que a forma como algumas empresas estruturam a remuneração também pode impactar na permanência dos profissionais. “Quando não existe um modelo equilibrado entre salário fixo e comissão, o vendedor não se sente motivado e a empresa acaba tendo dificuldade para manter um bom time comercial.”
Na prática, o cenário já é sentido por empresas locais. O empresário Jocivane Brito, da Monumental Contabilidade, afirma ao Jornal de Brasília que tenta preencher uma vaga há mais de três meses. “A vaga está aberta há mais de três meses e ainda não conseguimos encontrar o perfil adequado”, relata. Segundo ele, uma das maiores dificuldades é encontrar candidatos com postura profissional adequada. “O perfil comportamental é um dos maiores desafios. Às vezes encontramos pessoas com experiência, mas que já chegam com vícios do mercado”, declara Brito.
Para o empresário, a falta de experiência aliada à pouca disposição para aprender também pesa na seleção. “Esperamos um profissional resiliente, com autoestima inabalável, porque trabalhar na área comercial exige lidar com desafios constantes”, afirma. Mesmo diante da dificuldade para encontrar profissionais prontos, a empresa opta por investir em capacitação. “Sempre fazemos treinamentos internos e buscamos apoio de consultorias para desenvolver melhor o nosso time”, diz.
Desafio para quem busca vaga
Do outro lado do processo, candidatos também relatam obstáculos para entrar no mercado. O morador do Gama Ruan Arruda Noleto, de 29 anos, está em busca de uma oportunidade há cerca de três meses na área estratégica e comercial. Ele afirma que a exigência de experiência tem sido uma das principais barreiras. “O mercado pede um nível alto de experiência, mas muitas vezes não quer treinar. Fica difícil para quem está tentando entrar na área”, comenta.
Para o candidato, o cenário acaba criando um ciclo difícil de romper. “Como alguém vai ganhar experiência se não recebe uma oportunidade para começar?”, questiona. Enquanto busca uma vaga, Ruan diz esperar encontrar um emprego que ofereça remuneração compatível com o custo de vida e oportunidades de crescimento profissional. “Quero trabalhar em um ambiente onde eu possa evoluir, fazer networking e contribuir com as experiências que já tenho”, declara Arruda ao Jornal de Brasília.
Diante desse cenário, especialistas defendem que as empresas invistam mais na formação interna de profissionais. Para Flávio Sanches, apostar no desenvolvimento de talentos pode ser uma estratégia mais eficaz do que esperar encontrar profissionais prontos no mercado. “Muitas vezes o caminho é desenvolver talentos dentro da própria empresa, com treinamento e oportunidades de crescimento. Quem investe na formação das equipes consegue montar times mais alinhados com a cultura do negócio e mais preparados para gerar resultados”, afirma Sanches.








