Segunda-feira, 23/02/26

Fabricantes chinesas se preparam para leilão de baterias no Brasil

Fabricantes chinesas se preparam para leilão de baterias no Brasil
Fabricantes chinesas se preparam para leilão de baterias no Brasil – Reprodução

Fabricantes chinesas de painéis solares e de outros equipamentos do setor elétrico têm aumentado a presença no Brasil para disputar o mercado de baterias no país.

O Brasil se prepara para instalar sistemas de armazenamento em grande escala nos próximos anos, tanto por meio de leilões organizados pelo governo federal quanto pela demanda de empresas que querem fugir dos altos preços de energia no início das noites.

É um setor que deve gerar dezenas de bilhões de investimentos. A Absae, associação que representa a indústria de armazenamento de energia no país, espera cerca de R$ 45 bilhões em aportes até 2030 e R$ 77 bilhões até 2034.

O impulso é o leilão de baterias programado para este ano pelo Ministério de Minas e Energia e que deve movimentar, sozinho, R$ 13,9 bilhões, segundo a associação. As diretrizes e a data exata do certame ainda não estão definidas, mas no ano passado o ministro Alexandre Silveira deu sinais de que a concorrência aconteceria em abril, com uma demanda de 2 GW (gigawatts) entregues a partir de agosto de 2028 e disponíveis por 4 horas diárias.

Ainda são incertos alguns detalhes, mas a disputa por quem será o fornecedor dessas baterias já começou.

Do lado dos chineses, concorrem empresas como as gigantes Sungrow, BYD, CATL e Huawei, além de Jinko, JA Solar, TBEA, Risen e Pylontech. Pelos brasileiros, estão WEG, Moura e UCB Power. Também estão na disputa as americanas GE Vernova e Tesla e a espanhola Ingeteam.

Os chineses já têm suas estratégias definidas. A Folha conversou com cinco representantes das fabricantes da China com operações no Brasil e ouviu de todos eles a mesma intenção: participar do leilão apenas como fornecedor dos sistemas de armazenamento, chamados de BESS pelo mercado, sem entrar em consórcios com os participantes.

Até a primeira semana de fevereiro, a Sungrow, por exemplo, já tinha conversado com 37 empresas interessadas em competir no leilão, número semelhante aos 30 da Huawei. A TBEA, por sua vez, entrou em contato com 80. Jinko e Risen, outras empresas com quem a Folha conversou, também mantêm contatos com eventuais participantes.

“Nós não participaremos de consórcio e acredito que nenhum fabricante vai, principalmente os chineses. A intenção é fazer parcerias com os players que vão participar do leilão e aí, eles ganhando, entrar com a nossa solução”, afirma Rodrigo Marchezini, diretor da Risen no Brasil.

A empresa vende painéis solares no Brasil desde 2012 e neste mês verá seus sistemas de armazenamento, de 20 MWh ao todo, serem entregues pela 1ª vez no Brasil. No mundo, a Risen tem 6 GWh instalados.

Já a SunGrow, líder mundial desse mercado, tem 40 GWh instalados e mais 50 GWh contratados no mundo, segundo a S&P Global. Do total instalado, 10 GWh estão na América Latina, sendo quase tudo no Chile, que tem o mercado de baterias mais avançado da região. A empresa está desde 2018 no Brasil vendendo inversores, mas ainda não tem contratos de baterias firmados no país.

“Hoje, o nosso trabalho no Brasil é dar suporte a clientes que podem entrar no leilão; o foco é total nele”, diz Mauro Basquera, diretor técnico da SunGrow na América Latina. “Quando soubemos do leilão, transferimos funcionários para que ficassem focados nesse setor e enviamos alguns para ficar meses no Chile aprendendo o dia a dia desse mercado.”

A Jinko, a maior fabricante de painéis solares do mundo, também criou uma equipe dedicada ao mercado de baterias. “A gente usava o time comercial dos painéis para ofertar, mas no início do ano passado montamos uma equipe dedicada só para baterias”, afirma Kaue Oliveira, diretor técnico da empresa no Brasil.

A gigante Huawei é outra que tem se preparado para o certame, diz Roberto Valer, CTO da Huawei Digital Power no Brasil. A empresa já tem 400 MWh comercializados no país, sendo 100 MWh já instalados, principalmente em estabelecimentos comerciais. Em setembro, a empresa firmou uma parceria com a prefeitura de São Paulo para instalar em garagens baterias capazes de abastecer 120 ônibus elétricos. A Huawei é a décima maior fornecedora de BESS do mundo, segundo a S&P Global.

A presença massiva dos chineses pode deslocar a indústria nacional do leilão. Segundo a BloombergNEF, os BESS chineses custam US$ 73 por KWh (kilowatt-hora), contra uma média de US$ 177 dos europeus e US$ 219 dos americanos. A consultoria não mede o preço dos equipamentos brasileiros, mas, segundo pessoas que acompanham o mercado, eles são mais caros que os chineses, mesmo considerando custos de importação e impostos.

No início de fevereiro, o governo federal aumentou o imposto de importação de uma série de bens tecnológicos, incluindo esses sistemas de armazenamento. Antes taxados em 16%, agora eles ficaram sob uma alíquota de 20%. Como a maior parte dos componentes dos BESS brasileiros, no entanto, são importados, a taxação também deve afetar o preço do produto nacional.

“A China é um polo global de manufatura para tecnologias de transição energética, com a maior capacidade de produção e os menores custos para sistemas de armazenamento de energia em baterias, o que confere às empresas chinesas uma clara vantagem competitiva em termos de preços e capacidade de entrega”, diz Rafael Rabioglio, chefe da BloombergNEF na América Latina.

Por outro lado, ele destaca que aquelas empresas que já operam no Brasil devem ter maior facilidade, uma vez que, além de fornecer os equipamentos, é importante ter uma equipe no país para operá-los. Nesse caso, as brasileiras podem ter vantagem sobre novatas chinesas, mas não necessariamente com as que já operam há anos, como Huawei e BYD.

Na disputa, pesa também a capacidade financeira das empresas chinesas. A TBEA, maior fabricante de transformadores de alta tensão da China, faturou 96 bilhões de yuans (R$ 72 bilhões) em 2024, quase o dobro do registrado pela WEG, uma das empresas que mais faturam no Brasil e que anunciou neste mês um financiamento do BNDES para construir uma fábrica de baterias.

A TBEA avalia escolher grandes clientes para oferecê-los financiamento para a disputa do leilão. “Nesse modelo, a gente entra com equipamentos e o cliente paga só depois que a planta estiver funcionando”, diz Bruno Guerra, gerente-geral da TBEA no Brasil. Segundo ele, essa estratégia exigiria da empresa cerca de US$ 50 milhões (R$ 260 milhões) para fornecer 500 MWh, 6% da entrega do leilão.

T LB

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