Segunda-feira, 16/03/26

Fachin diz que STF “não tem nem pode ter monopólio da sabedoria política”

Fachin diz que STF “não tem nem pode ter monopólio da sabedoria política”
Fachin diz que STF “não tem nem pode ter monopólio – Reprodução

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Caio Aquino e Maria Paula Valtudes

O ministro Luiz Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu, nesta segunda (16), humildade institucional da Judiciário. “(Os tribunais) têm autoridade para dizer o direito, mas não têm nem podem ter o monopólio da sabedoria política”. Ele foi palestrante para estudantes de direito do Centro Universitário de Brasília (Ceub).

No evento, ele, que propõe um código de ética e conduta do Judiciário, afirmou que a “autocontenção (do poder) não é uma fraqueza, mas uma demonstração de força e respeito à separação de poderes”. 

Tarefa árdua

Inclusive porque o ministro descreve a atual situação política como “um tempo de transições, inquietação institucional e reconfiguração das estruturas sociais”.

Em meio às pressões direcionadas ao STF, Fachin citou que durante a ditadura militar, as ameaças à ordem constitucional vinham de fora das instituições. Para ele, atualmente, identificá-las e combatê-las se tornaram uma tarefa mais árdua. 

“As novas ameaças agora são mais sutis e, precisamente por isso são mais difíceis de se identificar e de se combater.” 

O magistrado também observa que apesar de o Supremo ser o “guardião da Constituição” não cabe à instituição substituir a deliberação democrática, e que é importante haver a distinção entre o direito e a política. “Deve-se dar ao direito o que é do direito e a política o que é da política”. 

Para essa mediação, ele explica ser necessária a realização de decisões de forma racional de forma que elas sejam capazes de sobreviver frente às críticas e ameaças, além de uma “humildade institucional”.   

Confiança sustenta a autoridade

Fachin disse, na palestra, que é indissociável nesse primeiro desafio a legitimidade de ministros do STF perante a sociedade, e que a confiança é objeto definitivo para a sustentação de uma autoridade. 

A judicialização da política, que designa o processo de transferência de questões de natureza política para a esfera judicial, é um fenômeno de “proporções notáveis” no país e testa justamente a confiança da população no judiciário. 

O ministro cita decisões do Supremo que tiveram contribuições relevantes em âmbito público como: a demarcação de terras indígenas e o reconhecimento de relações homoafetivas. 

Contudo, se por um lado, conforme ele defendeu, essa expansão do Judiciário garante direitos negados ou protelados pela maioria política, por outro ela também expõem a corte ao protagonismo. 

Esse ação, reflete o magistrado, pode causar desgastes e até mesmo desconfiança aos cidadãos, já que decisões dessa natureza poderiam ser dialogadas por outros setores governamentais. 

“Quando tribunais se tornam protagonistas de escolhas que deveriam ser debatidas e feitas no Parlamento ou no Executivo, produz-se um efeito perverso”.

Sem citar nenhum caso específico, o ministro Fachin acrescentou que, às vezes, “é preciso ter a sabedoria de um passo atrás” para esse desafio constitucional.   

Papel de um magistrado

Ao comentar as competências que um magistrado deve ter, Fachin ressaltou que é parte do dever manter a imparcialidade, abstendo-se de comportamentos que possam refletir “favoritismo, predisposições ou preconceitos”. 

Ele complementa que a convicção pessoal de um juiz deve ser baseada na jurisprudência e não nos seus valores individuais e ainda destaca a importância do magistrado guardar “segredo” quanto a fatos que tenha conhecimento, em razão de sua função.

Transparência

O ministro destacou o STF como exemplo mundial de transparência, citando como exemplo a transmissão ao vivo das sessões por meio da TV Justiça, o que permite acompanhamento público imediato. Entretanto, essa visibilidade é vista por ele como um risco à exposição da instituição jurídica.

“Um voto divergente pode ser lido como antagonismo. Um pedido de vista pode parecer obstrução. A ausência de mediação interpretativa, de jornalistas mais especializados, de notas explicativas, de mecanismos pedagógicos transforma a transparência em ruído”.

Portanto, Fachin reiterou a importância de uma linguagem mais didática do Judiciário para uma maior compreensão pública, evitando desgastes desnecessários.

Redemocratização

Fachin destaca a Constituição de 1988 como uma “conquista extraordinária”, após um longo período de cerceamento das liberdades, de torturas, perseguições e outras ocorrências do período de ditadura militar entre 1964 e 1985 e frisa a responsabilidade da Corte Constitucional de defendê-la e entender como ela pode se moldar para contextos futuros.

“A jurisdição constitucional precisa ter coragem de decidir, mesmo quando a lei é ambígua, mesmo quando a decisão pode parecer impopular, mesmo quando nenhuma das alternativas é a alternativa ideal”, diz Fachin.

O ministro comenta que a Corte também precisa reconhecer seus “limites”, entender que os tribunais não são onipotentes e que também se submetem à Constituição.

T LB

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