São Paulo, 10 – Após fechar no dia anterior pela primeira vez na casa de 186 mil pontos, o Ibovespa – embalado abaixo em boa parte da sessão pelas ações de commodities, em especial as do setor metálico – parecia endereçado a uma pausa nesta terça-feira, 10, tendo renovado máximas de fechamento, até esta segunda, 9, nada menos de 10 vezes desde 14 de janeiro em intervalo correspondente a 20 sessões, incluindo a de hoje. Mas com a virada ao positivo ensaiada por Vale e Petrobras na hora final da sessão, o índice ficou perto de obter o 11º recorde de fechamento do ano.
Nas três sessões anteriores, o índice havia subido após a correção do último dia 4 (-2,14%) quando registrou a sua maior perda desde 16 de dezembro. Hoje, contudo, mostrou hesitação ao tentar estender a série positiva pela quarta sessão, encerrando um pouco abaixo da estabilidade, em retração de 0,17%, aos 185 929,33 pontos, com giro a R$ 28,2 bilhões, semelhante ao de ontem.
Na semana, o índice da B3 avança 1,63% e, no mês, registra ganho de 2,52%. No ano, sobe 15,39%. Entre a mínima e a máxima do dia, oscilou dos 185.083,14 até os 186.959,29 pontos, tendo saído de abertura aos 186.241,15 pontos. Na ponta ganhadora do Ibovespa na sessão, Braskem (+8,27%), MRV (+4,18%) e Rumo (+2,78%). No lado oposto, Eneva (-9,66%), Raízen (-8,33%) e CSN (-4,67%).
“Mercado hoje à espera de dados do payroll de amanhã (quarta-feira, 11), que serão acompanhados com lupa pelos investidores. Dia de pouca variação porcentual com players sem tomar direção e em compasso de espera em relação aos dados que saem amanhã”, resume Alison Correia, analista e co-fundador da Dom Investimentos.
Até o início da tarde, o índice sustentava a linha dos 186 mil pontos, buscando novo fechamento em nível recorde, em leve alta na sessão. Mas perdeu força no meio da etapa vespertina, com relativo enfraquecimento do setor financeiro, que carregava o Ibovespa desde mais cedo ante o desempenho então negativo, em bloco, do setor de commodities.
Ao fim, Itaú PN, principal papel do segmento, que chegou a oscilar para o negativo, mostrava alta muito moderada a 0,23%. Santander Unit registrava avanço de 1,53% no fechamento da sessão. Mais cedo, papéis do setor subiam até 2%, em Banco do Brasil ON, que podou o avanço e finalizou em baixa de 0,08%. Bradesco PN subiu 0,05% no fechamento, com a ON também em alta, de 0,39%.
Além de CSN, destaque negativo no setor metálico para CSN Mineração, em baixa de 4,01% no encerramento. Vale ON, que chegou a esboçar reação, fechou em baixa de 0,30%, enquanto Petrobras subiu 0,50% na ON e 0,08% na PN.
“Correções fazem parte e desde o fim de janeiro tem havido uma consolidação na faixa de 180 a 185 mil pontos. Ontem, superou isso 185 mil, mas sem convicção. Há heterogeneidade nos Estados Unidos, com o Dow Jones em máxima histórica, mas ainda existe alguma desconfiança sobre o setor de tecnologia nessa digestão de resultados corporativos, em geral positivos. Ainda há muita preocupação com Capex e os investimentos grandes no setor de IA, e os sinais emitidos pelas empresas em cada guidance”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research. No fechamento desta terça-feira, Dow Jones +0,10%, S&P 500 -0,33% e Nasdaq -0,59%.
Na agenda doméstica, ele destaca que a inflação oficial, no IPCA de janeiro, veio comportada, praticamente em linha com o esperado, embora a abertura de alguns dados suscite atenção, ainda que não comprometa a perspectiva de início de ciclo de cortes da Selic em março, provavelmente com um primeiro ajuste de 25 pontos-base, o correspondente a 0,25 ponto porcentual.
Para Lucas Ghilardi, sócio da The Hill Capital, a inflação parou de cair na velocidade desejada e o processo de desinflação se tornou mais lento e difícil. Ainda assim, há uma evolução “benigna” do IPCA, com composição qualitativa que reforça a confiança no controle da moeda, enfatiza o especialista. “Com o balanço de riscos se tornando mais simétrico, torna-se natural a expectativa por uma recalibragem dos juros no curto prazo, visando o equilíbrio entre controle de preços e fomento da atividade”, acrescenta.
Dólar
O dólar apresentou leve alta nesta terça-feira, 10, mas fechou abaixo do nível de R$ 5,20 pelo segundo pregão consecutivo. Mais uma vez, os negócios no mercado de câmbio local foram ditados pelo ambiente externo, marcado por valorização da moeda americana na comparação com a maioria das divisas emergentes.
Analistas afirmam que o clima de cautela diante da expectativa por dados de inflação e emprego nos EUA nos próximos dias abriu espaço para ajustes finos por parte de investidores. Houve uma pausa no processo global de diversificação de carteiras e de redução de ativos denominados em dólar – movimento que teria sido turbinado ontem pela informação de que a China teria recomendado a bancos do país que reduzam exposição às Treasuries
Depois de fechar ontem no menor nível desde 28 de maio de 2024, o dólar à vista encerrou o pregão de hoje em alta de 0,17%, a R$ 5,1969, com mínima de R$ 5,1845 e máxima de R$ 5,2128. A divisa acumula baixa de 0,97% em relação ao real nos sete primeiros pregões de fevereiro, após recuo de 4,40% em janeiro – a maior desvalorização mensal desde junho de 2025, quando caiu 4,99%. No ano, o dólar recua 5,32%.
“O dólar subiu hoje em relação a algumas divisas emergentes. Estamos vendo um movimento de correção no real após a taxa de câmbio ter tocado R$ 5,17 ontem no intraday e fechado no menor nível em quase dois anos”, afirma o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, que ainda vê continuidade do movimento de apreciação do real com diferencial de juros elevado mesmo com os esperados cortes da taxa Selic.
Pela manhã, o IBGE informou que o IPCA avançou 0,33% em dezembro, praticamente em linha com a mediana das estimativas de Projeções Broadcast (0,32%). A inflação acumulada em 12 meses passou de 4,26% até dezembro para 4,4%, também um pouco acima das projeções (4,43%).
A avaliação da maioria de economistas ouvidos pela Broadcast é a de que a leitura do IPCA em janeiro veio qualitativamente pior, mas não alterou as apostas majoritárias de início de um ciclo de cortes de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central em março com redução da taxa Selic em 0,50 ponto porcentual, para 14,50% ao ano.
“O IPCA pesou um pouco no humor do mercado no começo do dia, mas a inflação em 12 meses deve voltar a ficar abaixo de 4% e convergir para 3,3% no meio do ano”, afirma Galhardo, da Análise Econômica. “O processo de desinflação deve seguir, o que vai garantir uma taxa de juros real eleva por bastante tempo e atrair capital para o Brasil.”
O índice DXY – que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – oscilou entre ligeiras altas e baixas ao longo do dia e operava ao redor da estabilidade no fim da tarde, na casa dos 96,800 pontos. Euro e libra tiveram pequenas perdas em relação à moeda americana. Já o iene apresentou ganhos de quase 1%, ainda sob o impacto da vitória do partido da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, nas eleições legislativas japonesas.
Pela manhã, o Departamento de Comércio dos EUA informou que as vendas no varejo no país ficaram estáveis na passagem de novembro para dezembro, enquanto analistas previam alta de 0,4%. Já o índice de custo de Emprego avançou 0,7% no quarto trimestre na margem, ligeiramente abaixo das estimativas, de 0,8%.
Investidores aguardam o payroll de janeiro, amanhã, 11, e o índice de inflação ao consumidor (CPI, na sigla em inglês), na sexta-feira, 13, para calibrar as apostas sobre os próximos passos do Fed, em meio à perspectiva crescente de corte de 25 pontos-base nos juros em março. Duas dirigentes regionais do Fed – Beth Hammack (Cleveland) e Lorie Logan (Dallas) – adotaram tom cauteloso em falas hoje, alertando que é preciso trazer a inflação à meta antes de novos cortes de juros.
Juros
A sessão prometia ser mais uma de achatamento da curva de juros até o meio da tarde desta terça, 10, com oscilações contidas dos trechos mais curtos e ajuste para baixo nas taxas de longo prazo
A dinâmica benigna, que tinha como pano de fundo o ambiente externo mais favorável e um IPCA com composição desfavorável, mas sem novidades em relação às últimas leituras, foi revertida rumo à etapa final dos negócios.
Por volta das 16h10, enquanto o sócio e economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida, dava um tom considerado pessimista para o cenário macroeconômico durante o evento “CEO Conference”, as taxas a partir de janeiro de 2028 renovaram máximas intradia, ainda que com altas que não passaram de 5 pontos-base ante os ajustes.
Agentes também apontaram à Broadcast que a piora dos DIs pode ter refletido aumento de posições defensivas às vésperas da divulgação de nova edição da pesquisa Genial/Quaest, a ser publicada amanhã.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,35% no ajuste anterior para 13,38%. O DI para janeiro de 2029 aumentou de 12,694% no ajuste de ontem para 12,745%. O DI para janeiro de 2031 avançou a 13,145%, vindo de 13,106% no ajuste antecedente.
Com o dólar ainda subindo pouco ante o real, Treasuries em queda, e o IPCA de janeiro praticamente em linha com as estimativas (alta de 0,33%) divulgado na abertura do pregão, participantes do mercado ouvidos pela Broadcast tiveram dificuldade, em um primeiro momento, em apontar um gatilho claro para a modesta esticada dos vértices mais distantes nas horas finais da sessão.
Mas o movimento coincidiu com declarações de Mansueto, cujas opiniões têm peso relevante para o mercado. Economistas ponderam que sua avaliação não trouxe mudanças em relação ao cenário recente do banco, mas na falta de outros possíveis vetores mais visíveis, avaliam que este deve ter sido o gatilho para a aceleração dos DIs.
Para o ex-secretário do Tesouro, será muito difícil que o País consiga crescer nos próximos quatro anos a ritmo observado no último quadriênio, o que ressalta a urgência da necessidade de correção das contas públicas. Em suas previsões, o déficit nominal do governo caminha para patamar de 8,5% do PIB, indicando que a situação fiscal brasileira não está resolvida. Os juros reais de financiamento de longo prazo alcançaram 7,5% ao ano, observou o sócio do BTG, custo “salgado” e não sustentável.
Em seguida, o estrategista-chefe da instituição, Tiago Berriel, afirmou que é mais fácil para o Banco Central subir juros em um ano eleitoral do que iniciar um ciclo de afrouxamento monetário, dado que as eleições adicionam maior volatilidade aos ativos, principalmente ao câmbio. Para Berriel, o ciclo de cortes deve totalizar 300 pontos-base e, olhando mais à frente, atingir 450 pontos-base, mas há incerteza sobre como a autoridade monetária vai reagir frente a risco de maior volatilidade.
Economista-chefe da Mirae Asset, Marianna Costa acompanhou as falas que, em sua percepção, corroboram um quadro fiscal bastante desafiador após 2027. “Nesse sentido, o fiscal pode limitar uma queda abaixo de 10% da Selic em um prazo mais longo”, disse.
Segundo Marianna, a curva embute uma redução dos juros em 2026, mas olhando à frente, há dúvidas sobre a segunda parte do ciclo de queda, de 2027 para frente. “Talvez a taxa neutra de juros aquela que não acelera nem desacelera a inflação seja de fato mais elevada”, cogitou a economista, acrescentando que o indicador oficial de inflação de janeiro, conhecido hoje, trouxe composição ligeiramente pior, mas insuficiente para mudar a dinâmica dos juros.
A precificação da curva praticamente não teve alteração ante ontem, observa Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG. Em seus cálculos, a maioria das apostas – entre 80% e 85% – são de corte de 50 pontos-base da Selic na reunião de março do Copom. A taxa terminal apontada para 2026 está em 12,15%.
Para Serrano, o dado de inflação do último mês foi neutro para a dinâmica dos DIs hoje, uma vez que a resistência na parte de serviços inerciais, subjacentes e intensivos em mão de obra não é exatamente uma novidade. “Isso era sabido desde o IPCA-15. O IPCA nem piora nem melhora o cenário para os juros”, diz o economista, para quem os dados de atividade que sairão ao longo desta semana serão mais importantes. “Na margem devem vir fracos, mas estamos sem ‘trigger’ para movimentos maiores na curva”, afirmou.
Estadão Conteúdo








