Sexta-feira, 06/02/26

Jovem diz em depoimento que ministro acusado de importunação a aconselhou a ‘ser menos sincera’

Denunciante confirma acusação de assédio contra ministro do STJ em depoimento ao CNJ
Denunciante confirma acusação de assédio contra ministro do STJ em – Reprodução

A jovem que acusa o ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Marco Aurélio Buzzi de importunação sexual declarou à Polícia Civil de São Paulo que ele a conduziu para área isolada de uma praia, a tocou sem consentimento e, em seguida, a aconselhou a ser “menos sincera”.

A reportagem teve acesso ao depoimento, prestado pela jovem de 18 anos no último dia 14 de janeiro.
Marco Buzzi, 68 anos, está de licença da corte por questões de saúde e nega as acusações. O ministro foi internado no DF Star, em Brasília, nesta quinta (5), um dia após o CNJ confirmar que ele é alvo de representação por assédio.

Em nota divulgada na quarta-feira (4), o ministro afirmou que “foi surpreendido com o teor das insinuações divulgadas por um site, as quais não correspondem aos fatos”. Ele disse ainda que repudia “toda e qualquer ilação de que tenha cometido ato impróprio”.

Segundo o depoimento do dia 14, o episódio ocorreu em 9 de janeiro, na praia do Estaleiro, em Balneário Camboriú (SC). A jovem estava hospedada com os pais na casa de praia do ministro.

Conforme o relato, a jovem e o ministro foram à praia enquanto os pais da jovem e a esposa do ministro terminavam afazeres na residência.

Após passarem um tempo na areia, Buzzi a teria convidado para entrar no mar e sugeriu que fossem para o lado esquerdo da praia, afirmando que ali o mar estaria mais tranquilo. A jovem estranhou a justificativa, pois achou que o mar não estava revolto onde estavam.

O local escolhido pelo ministro não tinha visibilidade do guarda-sol em que os demais participantes da viagem poderiam estar caso decidissem ir à praia, segundo o depoimento.

Já dentro d’água, em área funda, Buzzi teria perguntado a idade da jovem. Em seguida, teria comentado que estava com frio e apontado para um casal abraçado nas proximidades.

Em seguida, conforme o relato, o ministro a puxou pelo braço, virou-a de costas e pressionou seu corpo contra o dela. Afirmou que a achava “muito bonita”. Quando ela tentou se soltar, ele a puxou novamente, segundo o documento.

A jovem afirmou ter conseguido se afastar após algumas tentativas do ministro de puxá-la.

Logo depois que a soltou, ainda de acordo com o depoimento, Buzzi afirmou: “Você é muito sincera, deveria ser menos sincera com as pessoas. Eu só vejo a relação com a sua mãe, mas você é muito sincera, deveria ser menos. Isso pode te prejudicar”.

Depois, ao saírem do mar, a jovem declarou que chegou ao guarda-sol, disse à mãe que precisava trabalhar, cobriu-se com uma toalha e correu para o condomínio. Lá, contou o ocorrido ao pai, segundo o depoimento.

A família deixou a casa do ministro no mesmo dia.

Segundo o documento, a jovem frequentava o STJ desde a infância e considerava o ministro “um avô e confidente”. A mãe dela atua nos tribunais superiores, e a relação profissional evoluiu para amizade entre as famílias.

A jovem afirmou à polícia que, desde o ocorrido, não consegue dormir e está em acompanhamento com psicóloga e psiquiatra.

O STJ abriu sindicância para apurar o caso. A comissão é formada pelos ministros Raul Araújo, Isabel Gallotti e Antônio Carlos Ferreira. No STF (Supremo Tribunal Federal), a investigação criminal está sob relatoria do ministro Kassio Nunes Marques.

A jovem prestou novo depoimento ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça) nesta quinta-feira e reforçou que o magistrado teria cometido o ato. A denunciante fez, em vídeo, um relato detalhado do episódio.
A oitiva foi conduzida por uma juíza assessora e teve a participação, à distância, do corregedor nacional de Justiça, Mauro Campbell.

T LB

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