Ficar uma semana longe das redes sociais pode trazer ganhos reais para a saúde mental de jovens adultos, é o que aponta uma pesquisa divulgada na Jama Network Open. O estudo foi realizado com 373 participantes entre 18 e 24 anos e registrou que reduzir o uso de redes sociais por apenas uma semana diminui os sintomas de depressão em 24,8%, de ansiedade em 16,1% e insônia em 14,5%. Mas apesar das melhorias emocionais, a pesquisa não identificou mudanças significativas na sensação de solidão dos participantes.
O objetivo do levantamento é examinar o uso entre as redes sociais, o engajamento problemático e o resultado disso na saúde mental de jovens adultos. Os participantes foram avaliados durante duas semanas: uma com uso intenso das redes e a outra com desintoxicação. As redes no experimento foram Facebook, Instagram, Snapchat, TikTok e X. Entre os voluntários a maioria do sexo feminino (74,3%) e estudantes de graduação (76,9%). As melhorias emocionais foram mais pronunciadas nos participantes com sintomas de com maior gravidade.
De acordo com os dados apresentados, os jovens nesta faixa etária são os usuários mais frequentes das redes sociais e o grupo com o maior risco para desenvolver depressão e ansiedade, além de outros problemas ligados à saúde mental. A fase, associada ao início da vida adulta, é marcada por vulnerabilidade e transição.
Impacto das redes e sinais de alerta
A psicóloga Mariana Baroni é especialista no assunto e comentou ao Jornal de Brasília os principais impactos das redes sociais na vida dos jovens. Para ela, esses meios criam um ambiente propício a comparação e a constante e hiperestimulação mental. Além de o uso intenso estar associado ao aumento dos sintomas de ansiedade, depressão e baixa autoestima.
“Acredito que o principal impacto das redes sociais na saúde mental dos jovens é a forma como eles constroem sua identidade, autoestima e senso de valor pessoal. E isso, pode fragilizar processos psicológicos fundamentais, como a autorregulação emocional, percepção realista de si, tolerância à frustração e a capacidade de presença e concentração”, explicou.
A respeito dos resultados apresentados no estudo, a especialista esclarece que quando a pessoa é menos exposta a estímulos cognitivos, mais tempo ela tem para processar, auto regular as emoções e uma maneira de estar mais presente no dia a dia. Ainda segundo ela, um detox digital pode impactar diretamente no sono, visto que há menos exposição à luz azul e menos ativação mental à noite.
Mariana explica que a luz azul das telas inibem a produção de melatonina, o hormônio responsável pelo sono. “Além disso, a ativação emocional e cognitiva antes de dormir faz com que a nossa mente fique em alerta por mais tempo, atrapalhando o nosso ciclo de sono. Dito isto, uma dica para ajudar no sono é não pegar no celular pelo ou menos uma hora antes de dormir”, relatou.
A psicóloga também alerta a respeito do detox digital e afirma que ele sozinho não é suficiente para melhorar o sono. É necessário algumas mudanças de hábitos, como criar uma ritual de desaceleração, diminuir luzes, estabelecer limites para uso de telas no período noturno e reorganizar a relação com o tédio e o silêncio.
No que diz respeito a sensação de solidão mencionada pelos participantes da pesquisa, Mariana sugeriu que o problemas pode não estar atrelado somente ao excesso de telas, mas a fragilidade dos vínculos reais. “Pesquisas recentes mostraram, por exemplo, que um fator decisivo para o divórcio é a distância afetiva causada pelo vício nas telas. Portanto, ao mesmo tempo que as redes sociais podem auxiliar na sensação de solidão e nos conectar com as pessoas, se mal utilizada ela pode nos afastar”, apontou.
Por fim, a especialista orienta a ficar atento a alguns sinais que podem indicar problemas sérios relacionados à saúde mental e que exigem a ajuda de um profissional, como: ansiedade ou irritação ao ficar offline; dificuldade de concentração; queda na autoestima após o uso das redes sociais; prejuízos no sono; isolamento social; sensação de vazio ou inadequação; perda de interesse por atividades offline; uso compulsivo mesmo diante de prejuízos; e dependência de validação para se sentir bem, como curtidas ou comentários.
Longe das redes
Calebe Silva, de 22 anos, é estudante de Ciências Políticas na Universidade de Brasília (UnB) e está sem usar o Instagram há três meses. De acordo com o estudante, é a segunda vez que ele faz essa desintoxicação. A primeira ocorreu durante o período da pandemia, onde passou dois anos sem as redes sociais. Ele voltou ao uso frequente das ferramentas após entrar na faculdade, mas relatou que não estava fazendo o uso controlado e optou por deixar de vez esse meio.
O rapaz passava mais de quatro horas por dias nas redes, hoje faz uso apenas do WhatsApp e conta que teve uma melhora significativa em relação a tempo de qualidade, autoestima e sono. “Nos primeiros dias você sente que está perdendo o mundo, se sente desconectado e isolado das pessoas. A sensação é de estar o tempo todo desinformado. Mas com o tempo você se acostuma. Até porque existem outros meios de se informar”, explicou.
Em relação aos benefícios de se afastar das plataformas sociais, o jovem relatou ao Jornal de Brasília que percebeu inúmeras melhorias: “ao parar de usar as redes, eu ganhei mais tempo e menos ansiedade. Parei de me comparar com as pessoas e com esse padrão de beleza imposto pela internet. Foram vários benefícios, mas o tempo, com certeza, foi o maior deles. As redes sociais ocupam muito o nosso tempo, e a gente fica com a sensação de que não tem tempo. Mas a gente tem tempo; o que a gente não sabe é administrar”, comentou.
Além da saúde emocional, Calebe contou que também houve melhorias na qualidade do sono e no tempo que passa com a família. “Os jovens deveriam tentar essa experiência, vale a pena. Em algumas ocasiões passo dias sem usar o telefone, então eu consegui sentir uma conexão mais real com os meus pais e a minha família. Eu acho muito importante, principalmente para focar nos estudos”, recomendou.








