19/12/2020 às 14h18min - Atualizada em 19/12/2020 às 14h18min

Corruptos dominaram politicamente o TJ-BA com apoio de colegas coniventes, diz Eliana Calmon

Agência Brasil

Em entrevista, ex-ministra do STJ e ex-corregedora do CNJ afirmou que ofensiva contra membros da corte já era esperada.

A ministra aposentada do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Eliana Calmon afirmou nesta quarta-feira (16) que a ofensiva da Operação Faroeste contra membros do TJ-BA (Tribunal de Justiça da Bahia) era algo previsto diante da atuação de magistrados “corruptos” que encontram apoio político de colegas coniventes com suas práticas ilegais.

Para Calmon, o corporativismo da categoria impediu uma “correção de rumo” que poderia ter sido feita sem extrapolar o âmbito administrativo. Ela faz a avaliação ao comentar o caso das desembargadoras Lígia Maria Ramos Cunha Lima e Ilona Márcia Reis, presas temporariamente na segunda-feira (14) a pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República). As duas são investigadas por envolvimento em um suposto esquema de vendas de decisões judiciais a favor da grilagem de terras no oeste baiano.

“Em um ‘zum-zum-zum’ que corre pela cidade, está acontecendo aquilo que nós já prevíamos: que há realmente um problema muito sério e que [a investigação] precisava ir a fundo para dessa forma ver se a gente consegue algum sucesso na forma de proceder do Poder Judiciário baiano. Eu conheço um pouco a história toda pelo fato de ser magistrada, pelo fato de ser baiana e ter estado na Corregedoria Nacional de Justiça, onde eu tentei melhorar a situação. Eu entendi que não dava para eu corrigir o tribunal como um todo, mas dava para melhorar um pouco fazendo certas correções de rumo”, declarou em entrevista à rádio Metrópole.

“Lamentavelmente, isso terminou não acontecendo pelas dificuldades naturais que existem de se fazer apuração no Poder Judiciário. Então, nós estamos hoje fazendo a correção da forma mais violenta possível, que é com a polícia, com afastamento, com prisão de magistrados, quando isso poderia ter sido evitado, se isso fosse feito administrativamente”, afirmou a ex-ministra.

Ex-corregedora do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), ela diz que enfrentou resistência dos próprios pares ao tentar combater toda sorte de abusos no tribunal. “Como corregedora, eu vivi as entranhas do poder do Judiciário. Isso não acontece por um acaso, nem acontece de repente são coisas que estão se acumulando. Todos são coniventes? Não”, continuou Calmon.

“O que acontece é que nós não acreditamos na possibilidade de fazer a correção de rumo. E, por não acreditar que possa haver correção, aqueles magistrados mais moderados não se metem, para não se comprometer. E um grupo faz o seguinte: se apossa justamente desses magistrados que estão desviados para, com eles, formar uma maioria política e dominar politicamente o tribunal. É isso que acontece”, disse.

“Por que que isso acontece? Acontece exatamente por essa cultura do Judiciário de esconder, de apaziguar, de não ir a fundo. O Poder Judiciário resiste muito a essas apurações. E é exatamente a partir daí que as coisas começam a acontecer. Se não se deixa transparecer o que está por trás das cortinas, naturalmente que vai ficando mais difícil.”

A ex-ministra afirma que toda a magistratura hoje está “sofrendo”, uma vez que foi escancarada uma série de desmandos no TJ baiano.

 


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