A Festa das Águas de 2026 reuniu mais de 6 mil pessoas na Praça dos Orixás em uma edição marcada pela fé, pela celebração das religiões de matriz africana e por um anúncio considerado histórico pelos povos de terreiro do Distrito Federal. Durante o evento, o Instituto Rosa dos Ventos e o Coletivo das Yás do DF e Entorno comunicaram o início do processo de revitalização da praça, que inclui a instalação de novas estátuas dos orixás até setembro desse ano. O espaço é alvo recorrente de vandalismo, intolerância religiosa e abandono do poder público ao longo de décadas.
Segundo a presidente do Instituto Rosa dos Ventos, Stéffanie Oliveira, a substituição das imagens atuais é resultado de um trabalho construído ao longo de anos. As novas estátuas serão feitas em alumínio, material escolhido para substituir a fibra de vidro das esculturas anteriores, considerada inflamável. De acordo com Oliveira, o processo de criação não ficou restrito a um único artista plástico, mas foi orientado por um briefing coletivo, elaborado ao longo de sete anos, com a participação de pais e mães de santo. O anúncio foi feito durante um seminário realizado como parte da programação da festa.
A presidente do instituto também destacou que a recuperação da Praça dos Orixás vai além da devolução das imagens. Entre os problemas apontados estão a erosão provocada pelas águas do Lago Paranoá e a falta de banheiros públicos na região. A reinstalação das estátuas representa apenas a primeira etapa de um projeto mais amplo de recuperação do território. Para Mãe Baiana, coordenadora-geral do Coletivo das Yás, o espaço tem um valor simbólico fundamental no enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa, além de representar a união dos povos de terreiro do Distrito Federal.
O seminário contou ainda com a presença da deputada federal Erika Kokay, que ressaltou o caráter simbólico do resgate das esculturas e relembrou episódios de depredação ocorridos no passado. Representantes da Fundação Palmares também participaram das discussões, nas quais foram apresentados e debatidos possíveis modelos para as novas imagens. A proposta é que as esculturas tragam traços mais humanos, com dimensões heroicas, ressaltando a força dos orixás para os adeptos das religiões de matriz africana em Brasília e no país.
Além do anúncio da revitalização, a sétima edição da Festa das Águas reafirmou seu caráter cultural e religioso. Lideranças de diferentes vertentes das religiões afro-brasileiras conduziram um xirê em reverência aos orixás representados na praça, enquanto oferendas a Iemanjá e Oxum foram lançadas no Lago Paranoá, colorindo as águas com flores. No palco, artistas como Luedji Luna, Ellen Oléria, 7 na Roda, Filhos de Dona Maria, Encontro de Baque Virado, Beco da Rainha e Grupo Afirmação comandaram a programação musical.
A estrutura do evento também contou com espaços voltados para crianças, áreas de acolhimento para mulheres em situação de violência e um ponto de coleta de vidros, com o objetivo de evitar a poluição do lago. Ao todo, cerca de 50 artesãos, 300 artistas e mais de 500 trabalhadores das culturas tradicionais de terreiro foram diretamente impactados pela realização da festa, que consolidou a Praça dos Orixás como um território de resistência, cultura e celebração da diversidade religiosa.








