VICTORIA DAMASCENO
PEQUIM, JAPÃO (FOLHAPRESS)
O Partido Liberal Democrático (PLD), do qual a primeira-ministra do Japão Sanae Takaichi é líder, está no caminho para conquistar maioria na Câmara Baixa, a mais poderosa do parlamento japonês, na eleição deste domingo (8), segundo boca de urna da emissora NHK. Com a vitória, a sigla, no poder no Japão de maneira quase ininterrupta desde 1955, consolidará o governo de Takaichi, que depende do apoio na Casa para aprovar sua plataforma fiscal expansionista.
O levantamento aponta que a legenda deve chegar 300 cadeiras das 465 em jogo no pleito, valor superior às 233 necessárias para obter a maioria simples. Ao lado do Partido da Inovação do Japão (JIP, na sigla em inglês), a coalização pode chegar a 310 assentos, equivalente a dois terços do total em disputa.
Takaichi optou pela dissolução da Câmara Baixa no início deste ano, colocando-se no centro de seu primeiro grande teste eleitoral desde que se tornou a primeira mulher a assumir o cargo de primeira-ministra do Japão. A política queria testar sua capacidade de governar e chegou a afirmar que, se perdesse a maioria na coalizão, renunciaria.
Mesmo com a vitória, a líder ainda terá que encarar a oposição na Câmara Alta, que não tem o poder de dissolver.
Japoneses de diversas áreas do país tiveram que encarar nevascas recordes para chegar até as urnas, que tiveram abertura às 7h e fechamento às 20h (8h de Brasília).
Com a vitória, Takaichi tem passe livre para suas propostas, que envolvem aumentar os gastos públicos em áreas estratégicas. A líder prometeu que isentaria por dois meses o imposto de 8% sobre produtos alimentares, o que garantiu grande apoio da população nesta eleição.
Colocando em prática a medida, especialistas, porém, temem que o país, que tem uma das maiores dívidas públicas do mundo, não consiga arcar com os custos da decisão e o iene saia desvalorizado.
A governante também terá o caminho aberto para aprovar o aumento dos gastos militares para 2% do PIB (Produto Interno Bruto), o dobro do 1% gasto por décadas por governos de seu próprio partido.
Takaichi faz parte de uma linha de pensamento que herdou de seu padrinho político Shinzo Abe, ex-primeiro-ministro assassinado durante a campanha de 2022. Assim como pregava ele, a líder defende uma reinterpretação do Artigo 9 da Constituição japonesa, um texto pacifista que proíbe o país de realizar ataques diretos.
A preocupação com o fortalecimento militar também reflete as pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem cobrado dos aliados da região maior investimento em defesa por meio da compra de equipamentos militares americanos e para lidar com um cenário que Washington considera instável. Na sexta-feira (6), Trump declarou apoio a Takaichi na eleição, afirmando que ela “merece reconhecimento pelo trabalho que vem fazendo”.
Há o temor de que a consolidação do poder da governante crie uma relação ainda mais instável com a China, que tem pressionado Takaichi a retificar as falas feitas em relação a Taiwan. De forma hipotética, a governante declarou que o Japão teria que agir para ajudar os EUA a romper um possível bloqueio chinês à ilha, uma vez que Pequim a considera parte de seu território e não descarta o uso da força para a reunificação.
A ascenção e consolidação do poder da líder também tem causado preocupação a estrangeiros vivendo no Japão a primeira-ministra aposta em um retórica contra imigrantes. No passado, Takaichi chegou a dizer que os japoneses estavam “à flor da pele” com o crescente número de estrangeiros no país, e agora aposta em uma fiscalização mais rigorosa contra aqueles que tentam entrar.








