Segunda-feira, 02/03/26

Prisões de PMs em SP alcançam maior patamar desde 2021; homicídio e corrupção são as principais causas

Prisões de PMs em SP alcançam maior patamar desde 2021; homicídio e corrupção são as principais causas
Prisões de PMs em SP alcançam maior patamar desde 2021; – Reprodução

A quantidade de policiais militares presos no estado de São Paulo em 2025, que ficou marcado pelo aumento da letalidade policial e denúncias de infiltração do crime organizado na corporação, foi a maior num período de quatro anos.

Foram 223 agentes presos ao longo do ano, segundo dados obtidos pela Folha via Lei de Acesso à Informação.

Todos foram levados para o Presídio Militar Romão Gomes no Tremembé, na zona norte da capital paulista. A unidade prisional teve aumento de 35% nas entradas de detentos em relação ao ano retrasado, quando 165 policiais foram presos.

No fim de dezembro havia 239 presos na unidade, segundo a PM. O presídio tem capacidade para mais de 300 detentos.

Homicídio foi o crime pelo qual a maior parte dos PMs foram detidos: 46 das 223 prisões. Isso ocorreu enquanto as mortes por intervenção policial alcançaram o maior patamar. No entanto, esse índice explica apenas parcialmente o aumento nas prisões.

O presídio recebe PMs implicados em todo tipo de crime, não apenas aqueles cometidos durante o trabalho policial. Por isso, também estão incluídos nas estatísticas casos de violência doméstica ou homicídios que não foram cometidos em serviço, nem enquanto os policiais faziam “bico” como seguranças.

É o caso de um sargento da PM que, em maio, invadiu uma clínica dermatológica em Santos, no litoral paulista, matou a tiros a própria esposa de 42, e feriu a filha, de 10. Ele entrou no local com o consentimento de policiais, após dizer que não estava armado.

A PM estava ali para atender uma briga do casal. O sargento já havia invadido a clínica e começado uma discussão, o que fez com que a mulher e a menina se trancassem numa sala e o médico chamasse a polícia. O sargento deixou o local e voltou com uma pistola, quando teve a entrada liberada pelos agentes.

O aumento na letalidade no ano passado ocorreu mesmo sem uma megaoperação nos moldes da Escudo e da Verão, em 2023 e 2024, que juntas deixaram um saldo oficial de 84 mortos na Baixada Santista. Nos dois casos, tropas especializadas da PM foram enviadas ao litoral em resposta a mortes de soldados da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, conhecida pelas ocorrências com mortos).

Mesmo assim, o ano foi marcado por casos de grande repercussão em que policiais atiraram contra pessoas desarmadas e que não ofereciam risco.

Câmeras corporais gravaram as mortes de um morador de rua em junho, de um suspeito que estava com as mãos na cabeça em Paraisópolis, em julho, e de um assaltante rendido numa casa em Moema, em dezembro. Os policiais envolvidos nos três casos foram presos.

A letalidade policial em 2025 foi a maior desde a expansão do programa Olho Vivo, que implementou as câmeras corporais na PM. A taxa geral de homicídios no estado foi a menor da série histórica iniciada em 2001, com 5,46 casos por 100 mil habitantes. Em números absolutos, foram 2.527 vítimas de assassinatos ao longo do ano.

“Acredito que não apenas a fiscalização aumentou, como também temos mais situações graves ocorrendo”, diz o coronel da reserva Marcelino Fernandes, que trabalhou a maior parte da carreira na Corregedoria da PM e a comandou de 2017 a 2020. “Quando você tem mais embate, mais confrontos, a tendência de você ter situações graves é muito maior. E [a probabilidade do] erro policial, também.”

Prisões por acusações de organização criminosa e corrupção também tiveram aumento em 2025. Enquanto as prisões por corrupção (ativa e passiva, somadas) chegaram ao recorde em dez anos, aquelas por organização criminosa alcançaram o maior patamar desde 2021, seguindo a tendência do total de detenções.

Janeiro foi o mês com o maior número de prisões em 2025. Foi quando foram presos 15 policiais que trabalhavam na escolta do delator Antônio Vinícius Gritzbach, morto a tiros de fuzil no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, assim como outros três PMs acusados de assassiná-lo.

Dos policiais que integravam a escolta, 11 foram condenados por integrar organização criminosa. O Tribunal de Justiça Militar considerou que eles promoveram o PCC (Primeiro Comando da Capital), ao proteger um homem que sabidamente havia admitido ter lavado dinheiro para membros da facção criminosa.

As defesas dos policiais estão recorrendo da sentença. Já os três acusados de assassinar o delator têm julgamento marcado para junho.

Além disso, quatro policiais que trabalhavam dentro do próprio presídio Romão Gomes foram presos, em junho do ano passado, por suspeita de corrupção —inclusive por supostamente terem deixado entrar celulares na unidade.

Questionado sobre as denúncias de infiltração do crime organizado nas corporações policiais noticiadas ao longo do ano passado, o coronel Marcelino considera que o cenário hoje não é diferente do que ele viu quando era corregedor-geral da PM paulista.

Ele lembrou do caso em que 54 PMs de um mesmo batalhão na zona sul de São Paulo foram presos, em 2018, por conluio com um esquema de tráfico de drogas do PCC. Quatro integrantes da facção foram presos na mesma operação, que à época foi a maior da Corregedoria até então.

No mesmo ano, 32 PMs já haviam sido presos por envolvimento com o tráfico de drogas em Campinas (SP). “Não é diferente [hoje]”, diz Marcelino, lembrando que em sua gestão oficiais do alto escalão da PM chegaram a ser presos. “O combate se dá por dois ingredientes: a medição do comportamento ilícito e a fiscalização.”

Questionada, a Secretaria de Segurança Pública da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que o número de prisões “decorre do trabalho permanente da corregedoria da corporação, que conta com rigorosos mecanismos internos de fiscalização, controle e investigação”.

“A Polícia Militar não compactua com desvios de nenhuma natureza e adota todas as medidas necessárias para apurar e punir todos os profissionais que descumprem as normas ou protocolos da corporação”, disse a secretaria, em nota.

A Secretaria Nacional de Políticas Penais informou que não tem informações sobre a quantidade de policiais presos no país.

T LB

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