Terça-feira, 10/03/26

Putin busca ganhos com guerra no Irã, mas teme Trump na Ucrânia

Putin busca ganhos com guerra no Irã, mas teme Trump na Ucrânia
Putin busca ganhos com guerra no Irã, mas teme Trump – Reprodução

O presidente Vladimir Putin busca ampliar ganhos imediatos com a turbulência decorrente da guerra iniciada por Donald Trump contra o Irã, mas tem forte desconfiança sobre o que o americano reserva para sua relação com a Rússia na esteira do novo conflito.

A avaliação foi colhida pela Folha com quatro pessoas próximas do Kremlin. Na segunda-feira (9), Putin e Trump passaram uma hora ao telefone, conversa da qual transpareceram boas notícias para o russo.

Os Estados Unidos vão, segundo Trump, aliviar algumas sanções sobre o petróleo russo para garantir o fluxo do produto no mercado mundial enquanto a guerra no Oriente Médio faz o preço da commodity flutuar violentamente.

O americano citou o risco de desabastecimento devido ao eventual fechamento do estreito de Hormuz, por onde passa um quinto da produção mundial de óleo e gás natural liquefeito. Na prática, porém, o trânsito já está interrompido devido às ações militares e à ameaça de Teerã de atacar navios.

Na semana passada, os EUA já haviam relaxado por 30 dias as punições à compra do petróleo russo pela Índia, fato celebrado por Putin.

Na segunda, antes de falar com Trump, o russo disse que estava “pronto para negociar com a Europa” —o continente importava mais de 20% do óleo que consumia de Moscou antes da guerra; hoje são 6%. “Até aqui, só há um vencedor nessa guerra, a Rússia”, disse o chefe do Conselho Europeu, António Costa, nesta terça (10).

“Ela ganha novos recursos para financiar a guerra com o preço alto da energia. Ela lucra com o desvio de recursos militares que poderiam apoiar a Ucrânia. E se beneficia da atenção reduzida aos ucranianos”, resumiu o português.

Putin vê na nova guerra uma oportunidade de escapar de forma permanente das sanções devido a seu próprio conflito, a invasão da Ucrânia que completou quatro anos há duas semanas. Na conversa com Trump, segundo os observadores, foram levantadas ideias para uma solução no Oriente Médio que também embutissem vantagens a Moscou no travado processo de paz com Kiev.

As rodadas de negociações sobre a guerra europeia, que estavam estagnadas, pararam após a nova guerra. “Os americanos agora têm mais com que se preocupar”, disse Putin na semana passada. Com efeito, o ritmo dos bombardeios contra a Ucrânia caiu, com o presidente Volodimir Zelenski denunciando a preparação de uma nova ofensiva russa.

Ela está sendo planejada de fato, segundo uma das pessoas que conversou com a reportagem, o que é visto no entorno de Putin como uma espécie de seguro contra o temor estratégico que o ataque ao Irã trouxe ao Kremlin.

A ideia é buscar mais vantagens territoriais para quando a situação no Oriente Médio se acalmar, ainda que relativamente, e o foco de Trump voltar para a Ucrânia. Os russos temem que o americano vá endurecer os termos para tentar forçar uma solução para a crise.

Todos os ouvidos em Moscou repetem a avaliação geopolítica óbvia: Putin viu Trump capturar um aliado seu, o ditador venezuelano Nicolás Maduro, e matar outro, o líder supremo Ali Khamenei, em menos de dois meses. Há zero coordenação no âmbito dos Brics, tão valorizado em Moscou e do qual o Irã faz parte.

A percepção no Kremlin é de alarme, em especial porque a Rússia está impotente: só pode oferecer palavras de solidariedade e se colocar como intermediária para uma negociação por ora hipotética.

Queixas antes a dita ‘prepotência imperialista’ ressurgiram nos programas de comentaristas linha dura na TV estatal russa, embora voltadas ao público interno. Na descrição dos observadores do Kremlin, o governo Putin está atônito com a desenvoltura de Trump e tem medo de ser o próximo.

Não no sentido de ser derrubado, mas estrategicamente. A obsessão russa com a ideia de cerco, na base do ataque à Ucrânia devido à expansão a leste da aliança militar Otan, ganha ares de paranoia na elite do país quando dois líderes da esfera russo-chinesa são tirados do mapa à força.

Isso, segundo os ouvidos, deverá levar a um endurecimento na retórica nuclear de Putin, que há duas semanas dizia “ser impossível derrotar a Rússia estrategicamente” pelo fato de ela comandar o maior arsenal atômico do mundo —faltou lembrar que, num embate desses, todos perdem.

A preocupação se fixa nos próximos passos na Ucrânia. Enquanto tenta casar as duas crises em seu favor, Putin já se prepara para escalar sua própria guerra.

T LB

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