IGOR GIELOW
FOLHAPRESS
As forças de Vladimir Putin promoveram um mega-ataque contra o sistema energético da Ucrânia nesta terça-feira (17), horas antes de as delegações de ambos os países retomarem as negociações mediadas pelos Estados Unidos para tentar pôr fim à guerra que completa quatro anos em uma semana.
Ao menos três trabalhadores que tentavam restaurar as redes foram mortos, e dezenas de milhares de moradores do país ficaram sem energia e aquecimento sob o frio congelante do rigoroso inverno do país a capital Kiev amanheceu com -10 graus Celsius.
Foram empregados 396 drones, 367 dos quais os ucranianos dizem ter abatido, e 29 mísseis balísticos, 25 deles derrubados. Mas o estrago do que passou foi grande. No porto de Odessa (sul), a concessionária DTEK disse que os danos “foram incrivelmente sérios e vão demorar dias para serem reparados”.
Ataques do gênero pelos russos são praxe. Há uma visão no Kremlin que o governo de Donald Trump, que tem capitaneado a retomada das negociações desde 2025, só entende a linguagem da força. Com efeito, na véspera o americano havia dito que “a Rússia quer um acordo, e a Ucrânia tem de vir à mesa”.
Os ucranianos também deram seu recado da forma assimétrica com que vêm lutando: ao menos 151 drones foram derrubados pelos russos nesta noite, segundo o Ministério da Defesa em Moscou. Houve princípio de incêndio em duas refinarias.
Ao mesmo tempo, o Kremlin disse nesta segunda que não espera “nenhuma notícia” das conversas desta terça na cidade suíça, que deverão continuar na quarta (18).
Elas deverão focar, segundo os russos, questões territoriais. Hoje Putin controla cerca de 20% da Ucrânia, e quer a cessão completa das áreas que anexou ilegalmente em 2022 na que os ucranianos mantém maior presença, Donetsk, o russo ocupa talvez 85% da região.
O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, se recusa a ceder. Já Putin não aceita que as garantias de segurança contra um novo ataque russo incluam tropas estrangeiras em solo no vizinho, para ficar em dois pontos centrais de discórdia, ainda que não os únicos.
A delegação russa é liderada por Vladimir Medinski, um assessor de Putin que trabalhou nas primeiras negociações entre os rivais, logo após o começo da guerra em 2022. Isso foi visto como um recado do Kremlin acerca de sua disposição nula de fazer grandes concessões.
Também estarão presentes o chefe da inteligência militar, Igor Kostiukov, e Kirill Dmitriev, o negociador para a área econômica que perdeu espaço após costurar um plano que acabou rechaçado por Kiev com o seu par americano Steve Witkoff.
Os ucranianos terão à frente do seu time Rustem Umerov, o ex-ministro da Defesa e chefe o Conselho de Segurança do país, além do chefe de gabinete de Zelenski, o ex-chefe de operações secretes Kirilo Budanov.
Os americanos só devem se unir mais tarde aos grupos. Witkoff e o genro de Trump Jared Kushner, que não tem cargo no governo mas fala em nome dos interesses pessoais do presidente, participam antes de conversas de seu próprio processo de paz com o Irã.
Esta é a primeira vez que negociações sobre a Ucrânia ocorrem em solo da Europa Ocidental, marcando a volta de Genebra como referência em neutralidade.
A fama vem da histórica política de não alinhamento dos suíços, mas ela havia sido tisnada em 2024, quando o país sediou uma conferência sobre a guerra no Leste Europeu só com os apoiadores de Kiev. O encontro não deu em nada, com boicote de países menos próximos do Ocidente.
No primeiro ano da guerra, quase houve um acordo negociado em encontros ocorridos em Belarus e na Turquia, mas não funcionou. Depois, sob Trump, as conversas foram retomadas diretamente entre os rivais em duas rodadas nos Emirados Árabes Unidos.








