IGOR GIELOW
FOLHAPRESS
Em negociações descritas pelos dois lados como difíceis e tensas, Rússia e Ucrânia concordaram em discordar acerca dos pontos usuais que levam a um impasse acerca de um cessar-fogo no conflito que completará quatro anos na próxima terça-feira (24).
Após passarem seis horas debatendo na terça (17), as delegações reunidas com mediadores dos Estados Unidos em Genebra encerraram a terceira rodada de negociações diretas nesta quarta (18) gastando um terço do tempo.
Os líderes das equipes evitaram falar em colapso, tanto que anunciaram que haverá mais conversas. “Houve progresso, mas nenhum detalhe pode ser revelado”, disse o ucraniano Rustem Umerov, que chefia o Conselho de Segurança e Defesa de seu país.
Já o russo Vladimir Medinski, que em 2022 chegou a fechar um pré-acordo com os ucranianos que foi rejeitado na última hora por Kiev, afirmou que as conversas foram “difíceis, mas profissionais”. Devido aos termos draconianos que ele costurou em Belarus e Istambul no primeiro ano da guerra, sua presença sinalizou a disposição do Kremlin.
Ela já havia sido exposta pelo chanceler Serguei Lavrov no começo da semana, quando ele disse que nada mudou nas demandas russas feitas pelo presidente Vladimir Putin em junho de 2024 e reiteradas em papel um ano depois.
Entre elas há os pontos centrais de discórdia, como cessão territorial. Putin quer todas as áreas que anexou ilegalmente em 2022 mas ainda não controla, principalmente a porção de 15% a 20% da província de Donetsk ainda nas mãos de Volodimir Zelenski.
Kiev não topa, e os EUA sugeriram criar uma zona desmilitarizada que os ucranianos disseram aceitar. Os russos ensaiaram concordar, mas ainda resistem.
Há também a questão das garantias de que não haverá nova invasão por parte de Moscou, que Zelenski quer na forma de uma força de paz europeia em seu país, algo inegociável para Putin. A Rússia quer também o fim do apoio ocidental com armas aos rivais.
“O risco para Kiev é ficar presa em negociações intermináveis de cessar-fogo enquanto Moscou continua suas ações militares, destruindo a infraestrutura ucraniana”, disse a analista russa Tatiana Stanovaia, do Centro Carnegie (Berlim).
Para ela, Putin sinaliza a Donald Trump periodicamente que está aberto ao diálogo, mas não abre mão de seus pontos. Como já disseram pessoas ligadas ao Kremlin à reportagem, o presidente russo está convicto que tem gordura para sustentar a guerra até atingir seus objetivos declarados.
O próprio Zelenski, comentando nesta quarta as conversas da véspera, voltou a esta linha. “Podemos afirmar que a Rússia quer estica negociações que já poderiam ter chegado ao estágio final”, disse ele, tentando tirar a pressão que Trump pôs sobre a Ucrânia. Na segunda (16), o americano havia dito que eram os ucranianos que precisavam “ir à mesa rapidamente”.
O chefe da Casa Branca quer um acordo entre os rivais até o meio do ano, para chegar às eleições legislativas de meio de mandato, quando arrisca perder o controle que tem da Câmara, com algum trunfo à mão.
O problema desse arranjo é a possibilidade de alguma trégua parcial ou frágil ser estabelecida, sendo vendida como uma ilusória grande vitória da diplomacia negocial de Trump. Nenhum dos lados parece disposto hoje a ceder em termos centrais.
“Nossas posições diferem porque as negociações são difíceis”, disse Zelenski após a rodada ter terminado.
Enquanto isso, os ataques russos ao sistema de energia do vizinho, foco da campanha de Moscou neste inverno do Hemisfério Norte, prosseguiram, ainda que com menos intensidade do que na véspera. Ao menos quatro regiões do país ficaram no escuro enquanto os negociadores debatiam na Suíça.








