O salário inicial pago aos professores das redes estaduais de ensino do país subiu nos últimos anos. Mas a valorização da remuneração ao longo da carreira ainda é um desafio enfrentado pelos docentes, segundo um estudo do Movimento Profissão Docente.
A análise, obtida com exclusividade pela Folha, mostra que todas as 27 unidades da federação cumpriram o piso do magistério no ano passado. Além disso, 25 delas tinham salários iniciais maiores do que o estabelecido pelo piso.
O estudo, no entanto, identificou que, na maioria dos estados, as progressões salariais ao longo da carreira não são significativas ou demoram muitos anos para acontecer, desestimulando os professores a continuar em sala de aula.
Os dados do estudo foram obtidos com as próprias Secretarias de Educação e na legislação de cada estado. As redes estaduais de ensino do país são responsáveis por quase um terço de todos os 2,4 milhões de professores que atuam na educação básica brasileira.
Os professores das redes estaduais receberam em 2025 um salário inicial médio de R$ 6.212,36 para a jornada de 40 horas semanais, um crescimento de 6,22% em relação a 2024 e 28% maior do que o estabelecido para o piso do magistério. Apenas o Rio de Janeiro, governado por Claudio Castro (PL), pagou exatamente o valor do piso, de R$ 4.867,77. Minas Gerais, sob o comando de Romeu Zema (Novo), pagou R$ 0,20 a mais do que o mínimo de remuneração inicial aos professores.
Mato Grosso do Sul, sob gestão de Eduardo Riedel (PP), tem a maior remuneração inicial, de R$ 13.007,12. Em seguida está o Maranhão, comandado por Carlos Brandão (PSB), com salário de R$ 8.452,03.
“A remuneração inicial do professor da escola estadual melhorou nos últimos anos. Houve ganhos reais e não apenas correção pela inflação, o que é muito positivo, mas ainda não é suficiente. Para atrair os jovens talentosos para a profissão, é importante que haja previsão de aumentos e salários maiores ao longo da carreira”, diz Haroldo Rocha, coordenador do Movimento Profissão Docente.
O estudo identificou que a amplitude remuneratória média das redes estaduais foi de 49% em 2025. Ou seja, o aumento máximo que um professor consegue ganhar ao longo da carreira é menos da metade do vencimento inicial da profissão.
Segundo os pesquisadores, estatísticas educacionais da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) apontam que países com sistemas educacionais reconhecidos pela qualidade, como Canadá, Luxemburgo, Áustria e Japão, apresentam amplitudes salariais entre 72,7% e 110,2% para docentes de etapa equivalente ao ensino médio brasileiro.
Mais da metade dos estados brasileiros (14) tem amplitude salarial abaixo de um terço. Piauí e Santa Catarina preveem que, ao fim de toda carreira, o professor consiga alcançar uma remuneração final com menos de 3% de aumento em relação ao vencimento inicial —os estados são governados por Rafael Fonteles (PT) e Jorginho Mello (PL), respectivamente.
Apenas cinco estados brasileiros têm amplitudes salariais dentro do patamar dos países com bons resultados educacionais: Mato Grosso do Sul, Ceará, Tocantins, Amapá e São Paulo. Rocha, no entanto, destaca que é importante que essa remuneração final seja possível de ser alcançada. No estado governado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), por exemplo, conforme mostrou a Folha, nenhum professor conseguiu atingir o topo salarial prometido no último plano de carreira docente.
“Tem alguns estados que apresentam uma amplitude de carreira de 150%. O problema é que muitas vezes o professor nunca chega ao topo, então fica aquela sensação de frustração ou de ser algo inalcançável. Por isso, os estados precisam pensar em como criar carreiras onde haja progressão e que isso incentive os professores a se dedicarem mais e a continuar em sala de aula.”
Para os pesquisadores, o ideal seria que houvesse uma progressão considerável em um intervalo de 15 anos de trabalho. “Não adianta só aumentar o salário inicial e achatar a remuneração da categoria inteira. Isso desestimula o professor a se dedicar, a fazer formações. Mas a progressão também não pode ocorrer só ao fim da carreira”, diz Rocha.
Segundo os dados, em Mato Grosso do Sul, que oferece a maior remuneração final, os professores após 15 anos de trabalho só conseguem alcançar 54% de aumento em relação ao salário inicial. Para alcançar o vencimento mais alto oferecido pelo estado, é preciso trabalhar, em média, 34 anos.
Já na média do Ceará, governado por Elmano de Freitas (PT), os professores conseguem alcançar 89% de aumento após 15 anos de trabalho. “Não adianta apenas ter remuneração inicial e final altas. É preciso ter patamares para o professor alcançar ao longo da carreira. Essa é uma forma de atrair pessoas para o magistério e também de incentivar quem já está a continuar.”
O estudo também destaca a importância de ter critérios eficientes para a progressão na carreira. Segundo o levantamento, o critério mais utilizado pelos estados é a titulação acadêmica (mestrado e doutorado, por exemplo). “Menos de 5% dos professores da educação básica têm um título desses. Essas titulações também trazem pouco efeito significativo em sala de aula. Há outras questões mais efetivas para formar um bom professor.”
Rocha defende que as redes criem sistemas de avaliação de desempenho do trabalho docente. Hoje, esse critério é usado por 22 redes. “Na maioria das vezes, eles adotam instrumentos muito burocráticos. Seria preciso avaliar a prática docente, como ele atua em sala de aula”, diz.








