Terça-feira, 31/03/26

Servidor público, apaixonado por moto e religioso; saiba quem é o 2º paciente da polilaminina em Goiás

Servidor público, apaixonado por moto e religioso; saiba quem é o 2º paciente da polilaminina em Goiás
Servidor público, apaixonado por moto e religioso; saiba quem é – Reprodução

Servidor público, apaixonado por moto e religioso. Esse é o perfil de Manoel Astrogildo, de 35 anos, morador de Itumbiara e segundo paciente em Goiás a fazer o tratamento com polilaminina, após judicializar o caso. A substância que pode recuperar lesões medulares ainda está em fase de estudos clínicos. Quanto ao paciente, o procedimento ocorreu na última quinta-feira (26), no Hospital Estadual de Itumbiara São Marcos (HEI).

Conforme informações da família, Manoel sofreu uma fratura na coluna cervical, na região da C5, após sofrer um acidente em 10 de novembro de 2025, quando voltava de Goiânia em uma viagem a trabalho – ele transporta pacientes para a prefeitura. A fatalidade causou a perda dos movimentos e da sensibilidade dos ombros para baixo. Devido aos gastos com terapia após a saída do hospital, que deve acontecer nos próximos dias, os familiares do servidor organizaram uma vaquinha para arrecadar R$ 50 mil.

“Desde o acidente, ele está internado, necessitando de cuidados intensivos e um longo período de recuperação. No dia 26/03/2026, Manoel recebeu a Polilaminina, substância ainda em estudo, mas que tem demonstrado grandes efeitos. Agora, nessa etapa, Manoel precisa de terapias intensas. E os gastos são grandes, por isso estamos fazendo uma vaquinha para ajudar com o máximo possível”, descreveram. Por volta das 14h30 desta terça-feira (31), eles tinham arrecadado pouco mais de R$ 2 mil.

Atualmente, segundo a família, o paciente está na fase de reabilitação intensiva. Esta é considerada essencial para potencializar os possíveis efeitos da polilaminina.

Anteriormente, o Mais Goiás conversou com o médico Alan Anderson Fernandes Oliveira, diretor técnico assistencial do Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), em Goiânia, que acompanhou o primeiro procedimento de um paciente goiano com a polilaminina. À época, ele ressaltou que o grande diferencial é o pós-operatório.

Para ele, trata-se de algo que toda a comunidade médica vê com muita esperança. Alan, contudo, enfatiza que é uma substância ainda não aprovada. “Estamos na fase 1, testando para ver se é segura. Na fase 2, veremos se é eficaz. Só então partimos para o uso clínico”, enumera.

Confiantes

Namorada de Manoel, a farmacêutica Camila Ferreira do Nascimento, 29, disse que o acidente de uma pessoa tão ativa quanto o servidor deixou todos abalados. Contudo, o tratamento dá esperança a todos. “Estamos saindo da escuridão, estamos bem confiantes. Desde o primeiro paciente da polilaminina, temos visto grandes evoluções”, afirma.

Inclusive, foi Camila quem “descobriu o caminho das pedras” para ter acesso ao tratamento. “Na época do acidente, o assunto já estava no auge, mas nem eu nem família pensamos, pois queríamos saber se ele ia viver. Porém, em janeiro eu conheci uma moça que é prima do paciente 02 do Rio de Janeiro e ela me ajudou. Com as informações, entramos na Justiça e conseguimos”, revelou.

Questionada se já percebeu alguma melhora nesses poucos dias, ela afirma que sim, na parte respiratória. “Hoje, fazemos a fisioterapia dentro do hospital. Mas quando deixarmos o hospital, vamos precisar buscar particular, por isso estamos fazendo a vaquinha”, revela.

Perfil

Motorista da prefeitura de Itumbiara e apaixonado por motos, Manoel faz parte do motoclube Sonhadores da Estrada. Inclusive, os colegas do grupo o visitam semanalmente desde que sofreu o acidente, em novembro – desde então, ele apenas trocou de hospitais.

Camila também revela que o servidor público é evangélico e frequentava a igreja com a mãe – ela é católica e ia a outro templo. Segundo ela, o namorado é um homem espiritualizado que gostava de “conversar com Deus”.

Antes do acidente, Manoel viajava sempre a trabalho, mas, quando em casa, aproveitava a família passeava. A esperança é por uma volta a normalidade. “Estávamos vivendo um dia de cada vez. Não tenha mudado, mas o procedimento trouxe auxílio e esperança.”

Nota da SES-GO

“A Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) informa que foram registrados dois casos de uso de polilaminina no estado. As aplicações ocorreram fora dos protocolos assistenciais da rede pública, no contexto de uso compassivo autorizado pela Anvisa, com condução por equipe externa vinculada aos responsáveis pela pesquisa e fornecimento do medicamento pelo fabricante.

A SES-GO ressalta que o produto ainda se encontra em fase 1 de pesquisa clínica, etapa destinada à avaliação da segurança para uso em humanos, não havendo comprovação de eficácia nem indicação para uso em larga escala.

A Secretaria destaca que a utilização de terapias nessa fase envolve riscos, uma vez que ainda estão em análise aspectos fundamentais relacionados à segurança e aos possíveis efeitos no organismo.

Camila e Manoel (Foto cedida ao Mais Goiás)

Primeiro caso

O delegado Leonardo Sanches, 44 anos, titular da Delegacia da Polícia Civil de Silvânia, ficou 57 dias internado após um acidente na GO-330, entre o município e Leopoldo de Bulhões. Tetraplégico, ele teve alta em 25 de setembro e, em meados de janeiro, recebeu a polilaminina. Ele foi o primeiro goiano a receber o tratamento.

A cirurgia aconteceu no Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), em Goiânia. Leonardo segue em tratamento multidisciplinar, especialmente com as terapias que já realizava antes do procedimento.

Vale citar que a substância tem gerado resultados animadores como possível auxílio na regeneração em casos de lesão medular aguda. Atualmente, existe um estudo coordenado pela cientista Tatiana Sampaio, no Rio de Janeiro, e o tema ganhou as redes sociais nos últimos dias. Além do assunto promissor para o ramo da saúde, surgem relatos nas redes sociais com diferentes vídeos que mostram a recuperação de pacientes após o uso da polilaminina.

As análises não estão concluídas e o paciente goiano não faz parte do estudo clínico, como mencionado. Ele, contudo, teve acesso ao tratamento por uma autorização concedida a pacientes com doenças graves, sem outras opções, e assim pôde receber uma terapia experimental. Inicialmente, a família decidiu não revelar a identidade do paciente, mas o nome do delegado foi divulgado posteriormente.

O que é a polilaminina

A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo humano, principalmente durante o desenvolvimento embrionário, quando tem papel importante na organização dos tecidos e no crescimento celular.

A substância vem sendo estudada há quase 30 anos e é considerada promissora, mas ainda está longe de se tornar um medicamento aprovado. Os resultados divulgados até agora são preliminares e envolveram apenas oito pacientes.

Como a substância atua no organismo

Quando ocorre uma lesão na medula espinhal, os axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais — se rompem. O próprio organismo forma uma cicatriz no local, o que dificulta a reconexão dessas células.

A proposta da polilaminina é atuar como uma espécie de “ponte microscópica”. Aplicada diretamente na área lesionada durante a cirurgia, ela cria uma estrutura de suporte que pode facilitar o crescimento dos neurônios através da região do trauma e ajudar a restabelecer parte da comunicação entre cérebro e corpo.

Resultados em laboratório, em animais e em pequenos grupos de pacientes indicam que esse mecanismo pode favorecer algum grau de recuperação motora em lesões medulares agudas — aquelas que ocorrem logo após o trauma.

Eficácia

É preciso destacar que o estudo ainda não passou por todas as etapas necessárias para comprovar segurança e eficácia. Ensaios clínicos mais amplos e controlados ainda precisam ser realizados. Além disso, há evidências de que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum grau de movimento mesmo sem o uso da substância, dependendo do tipo de lesão e da resposta individual.

O estudo preliminar mostrou diferentes níveis de recuperação entre os oito participantes — nem todos tiveram melhora completa. Por causa do número reduzido de pacientes e da diversidade das lesões, não é possível afirmar que a recuperação observada foi causada pela polilaminina.

Também não há evidência científica de que a substância funcione em lesões medulares crônicas, quando a paralisia já está estabelecida há mais tempo.

Pesquisa ainda está em fase inicial

A pesquisa é liderada pela cientista Tatiana Sampaio, que há décadas se dedica ao estudo da regeneração neural. Apesar dos resultados animadores, a própria equipe reforça a necessidade de cautela.

Para que a polilaminina se torne um medicamento, ainda será preciso cumprir todo o caminho regulatório, com estudos clínicos maiores, controlados e replicáveis.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, em janeiro de 2026, a continuidade dos testes clínicos em humanos. Atualmente, o foco dos pesquisadores está em lesões medulares agudas, especialmente na região torácica.

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T LB

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