Sábado, 21/02/26

Teste de Warsh será provar que eventual lealdade a Trump ficou de lado, diz ex-dirigente do Fed

Teste de Warsh será provar que eventual lealdade a Trump ficou de lado, diz ex-dirigente do Fed
Teste de Warsh será provar que eventual lealdade a Trump – Reprodução

São Paulo, 20 – A ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) de Kansas City Esther George considera Kevin Warsh tecnicamente apto para presidir o BC dos Estados Unidos, mas avalia que seu maior teste será provar ao público e ao Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, em inglês) que agirá segundo o mandato da autarquia, sem deixar que eventuais lealdades políticas ao presidente dos EUA, Donald Trump, interfiram no cargo.

Em entrevista ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), ela disse não enxergar ameaça imediata à independência do banco central por causa de Warsh isoladamente, mas sim ao ambiente político mais amplo, que inclui contestações judiciais envolvendo a diretora Lisa Cook e o atual presidente do Fed, Jerome Powell.

Aposentada de seu cargo no Fed em 2023, George é enfática na defesa por cautela com cortes de juros em meio a inflação ainda acima da meta de 2% e projeções oficiais que continuam adiando o retorno ao patamar desejado.

Para ela, os cortes só devem ser cogitados na segunda metade do ano, quando haverá a nova liderança e condições para avaliar se os ventos favoráveis do primeiro semestre se confirmam.

Qual sua avaliação sobre a escolha de Kevin Warsh para substituir Jerome Powell na presidência do Fed?

Acho que ele é bastante capaz. Seu desafio será convencer o público de que servirá ao mandato e não deixar que sua lealdade, na medida em que a tenha a Trump, interfira nisso. Acredito que Warsh entende por que bancos centrais independentes são importantes, mas não significa que ele não tentará fazer mudanças. Pela natureza do FOMC, ele terá que gastar tempo realmente conquistando a confiança deles, ouvindo suas opiniões – é o que espero antes de decidir sobre qualquer agenda específica.

Quão preocupada você está com a independência do Fed com Warsh como presidente?

Não estou preocupada com a independência por causa de Kevin Warsh, mas pelo contexto geral. Este é um momento em que os desafios ao banco central têm sido significativos. Portanto, acho que devemos nos preocupar com isso. Por outro lado, acredito que as questões envolvendo a diretora Lisa Cook e a investigação criminal contra Powell dependem de como a Suprema Corte decidirá sobre esses casos. No testemunho que ouvimos mais recentemente sobre Cook, juízes expressaram preocupação sobre minar o banco central. Foi um indicador, eu acho, de que eles entenderam o que estava em risco, e estou esperançosa de que decidirão manter salvaguardas em vigor.

A senhora trabalhou diretamente com Powell. O que acha das alegações de Trump de que ele é partidário?

O ambiente de hoje é altamente politizado, e muitas coisas são interpretadas através da lente da política. Mas essa nunca foi a minha experiência no Fed. Sempre estivemos focados diretamente no que serve ao público americano a longo prazo.

A senhora comentou que Warsh pode fazer algumas mudanças no Fed. Que tipo de mudanças ele pode fazer no balanço patrimonial?

Ele já se expressou sobre como o Fed usa seu balanço, por exemplo, e coisas como o afrouxamento quantitativo. Creio que há espaço para isso, o que, novamente, exigirá uma boa comunicação. Uma atualização de algum tipo do acordo entre o Tesouro e o Fed pode criar um entendimento com a autoridade fiscal sobre onde estariam os limites do papel do banco central. Isso poderia ser uma conversa frutífera.

Kevin Hassett disse recentemente que acredita que Warsh terá o poder de influenciar as decisões dos membros do banco central. Mas, na sua experiência, até que ponto um presidente pode realmente exercer essa influência?

Não há dúvida de que o presidente do Fed é uma figura influente dentro do Comitê. Mas, para fazer isso, você é mais eficaz quando é um bom ouvinte e constrói consensos escutando diferentes opiniões. Acho que essa será a abordagem que Warsh terá que adotar. O BC americano não é adequado para ter alguém que entre e diga: “aqui estão suas instruções, e espero que você as siga”. Meu palpite é que Warsh entende isso bem e é por isso que pode levar algum tempo para realizar as reformas que pode ter defendido até agora.

A senhora acha que Hassett não ter sido nomeado para o Fed foi, na verdade, um tipo de alívio?

Quando há alguém que parece incomumente receptivo a uma visão política sobre como definir as taxas de juros e como pensar o papel do banco central, isso faz com que as pessoas levantem questões sobre se o indivíduo pode exercer a independência. Hassett, no final das contas, entende por que a independência do Fed é importante, mas quando questões são levantadas, se cria uma dúvida sobre o candidato. E, em certa medida, isso se estende a Warsh. Não sabemos até ver alguém efetivamente no trabalho, para ser honesta, para ver como se comporta.

A inflação ainda acima da meta de 2% lhe preocupa a ponto de pensar que o Fed deve segurar os juros nos níveis atuais?

Quando você olha hoje para a própria previsão do Fed através do gráfico de pontos ou do resumo das projeções econômicas, verá que eles continuam adiando a data em que acreditam que retornará a 2%. E, nesse sentido, minha inclinação é dizer que o Fed deve ser muito paciente aqui. Eles não devem continuar cortando as taxas enquanto a inflação permanecer persistentemente acima de sua meta. Vemos uma quantidade tremenda de crescimento entrando na economia por meio de investimentos em tecnologia. Portanto, minha própria percepção é que a inflação deve ser a prioridade agora, já que a economia mostra que tem alguma resiliência para permitir isso.

Quando o Fed deve retomar os cortes de juros?

Na segunda metade do ano é provavelmente quando o Comitê considerará isso mais seriamente. Não apenas por causa da mudança de liderança que é esperada, mas também acredito que será uma oportunidade para avaliar se alguns dos ventos favoráveis que esperamos no primeiro semestre do ano se concretizarão.

No comunicado de janeiro do Fed houve uma mudança em relação ao mercado de trabalho, com os membros começando a ver sinais de estabilização. A senhora concorda?

Sim. O último relatório payroll é mais um ponto que apoia essa narrativa. Mas também continuo a ver investimentos significativos em tecnologia que acredito estarem substituindo parte dessa mão de obra. Então, entre a incerteza política e os investimentos em tecnologia, suspeito que as empresas estarão mais em um modo de espera antes de adicionarem pessoas às suas folhas de pagamento.

Alguns dirigentes preveem que a inflação atingirá seu pico por volta do meio deste ano, possivelmente por causa das tarifas A senhora vê isso acontecendo?

Sim, vejo. Empresas podem ter feito estoques com os quais poderiam trabalhar, usando parte de seus próprios lucros para cobrir isso até que pudessem ver onde as tarifas se estabilizam. Mas, os meus contatos sugerem que não podemos manter essa linha para sempre. Agora, os economistas tentarão explicar isso como um impacto único no nível de preços, mas acho que teremos que esperar e ver quão persistente e quão abrangente isso é. Lembrando que em 2022, após a pandemia de covid-19, foi usado o argumento da “inflação transitória”.

Estadão Conteúdo

T LB

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