Inovação em Fibra Reciclável de Base Biológica
A empresa Noosa, fundada em Bruxelas no final de 2019 pela empreendedora belga Luna Aslan (Forbes Under 30 Europa 2024), desenvolveu uma fibra reciclável têxtil 100% de base biológica. O material possui capacidade de reciclagem contínua por meio de sua tecnologia patenteada Noocycle. Com a imposição de responsabilidade estendida aos produtores têxteis na Europa a partir de setembro de 2025, a inovação da Noosa se posiciona diante de um mercado em transformação regulatória.
A Noosa desenvolveu e patenteou uma fibra reciclável produzida a partir de PLA (ácido polilático), um bioplástico derivado de açúcares naturais, como o amido de milho ou de trigo.
Características e Aplicações da Fibra Reciclável
A fibra reciclável apresenta as seguintes características:
- É bacteriostática, impedindo o desenvolvimento bacteriano.
- Oferece respirabilidade equivalente à do poliéster.
- Não gera microplásticos permanentes, pois se degrada ao longo do tempo.
- Apresenta um pH hipoalergênico próximo ao da pele.
Um representante da empresa indicou que, ao contrário de uma camiseta esportiva clássica de poliéster que pode desenvolver odor após algumas sessões devido à proliferação bacteriana, o tecido da Noosa permanece neutro por um período prolongado.
A fibra reciclável se desdobra em diversas formas, incluindo carretéis de fio (tipo algodão), filamento (tipo sintético) e tecido. A empresa também propõe produtos acabados. O material pode ser utilizado sozinho ou em mistura, dependendo das aplicações e do toque desejados.
A filosofia do produto privilegia a durabilidade. A empresa enfatiza que a extensão da vida útil de uma peça de vestuário é um fator primordial para a eficácia da reciclagem.
Processo de Reciclagem da Fibra Reciclável Noocycle
O processo patenteado Noocycle difere da reciclagem clássica de têxteis (algodão, poliéster), que atinge uma taxa de cerca de 30%. O método da Noosa garante uma reciclabilidade quase ilimitada do produto, resultando em uma qualidade de fibra virgem. Isso é possível mesmo na presença de aditivos ou corantes, por meio da separação química dos contaminantes.
A tecnologia permite isolar o material da Noosa em tecidos mistos, viabilizando sua reciclagem em fibra virgem. Esta solução resolve o desafio do setor, onde têxteis misturados e tratados (com tinturas, por exemplo) são difíceis de reciclar sem downcycling, muitas vezes resultando em produtos de menor qualidade.
Regulamentação Europeia para Têxteis e Impacto no Mercado
Em 9 de setembro de 2025, o Parlamento Europeu adotou definitivamente uma diretiva que estabelece um sistema de Responsabilidade Estendida do Produtor (REP) obrigatório para os têxteis. Esta medida obriga marcas e produtores a assumir financeiramente os custos de coleta, triagem e reciclagem de seus produtos.
Cada europeu gera em média 12 quilos de resíduos de vestuário e calçados por ano, totalizando 12,6 milhões de toneladas de resíduos têxteis anuais na União Europeia. Destes, menos de 1% é reciclado em novos produtos.
Todos os produtores que comercializam têxteis na União Europeia deverão contribuir para os custos de coleta, triagem e reciclagem por meio de organizações de responsabilidade do produtor (PRO). As estimativas iniciais apontam uma contribuição de cerca de 30 cêntimos de euro por camiseta, com exemplos preliminares sugerindo € 0,24 (R$ 1,29, segundo a cotação atual) por quilograma de têxteis em certos sistemas-piloto franceses.
Aspectos da Nova Regulamentação:
- Adoção: 9 de setembro de 2025 (Parlamento Europeu).
- Data de Aplicação: Durante 2028 (30 meses após a entrada em vigor).
- Contribuição Estimada: ~30 cêntimos de euro por camiseta; € 0,24 (R$ 1,29) por quilograma (exemplos-piloto franceses).
- Área de Impacto: Vestuário, calçados, roupa de cama, cortinas, cobertores.
- Complementos Regulamentares: Coleta separada obrigatória (1º de janeiro de 2025), Digital Product Passport (2027).
Produtores de artigos de difícil reciclagem ou provenientes de modelos de superprodução (como fast fashion e ultra-fast fashion) deverão pagar contribuições mais elevadas, em alinhamento com os critérios do futuro Regulamento Europeu sobre a Ecoconcepção de Produtos Sustentáveis (ESPR).
A diretiva entrará em vigor 20 dias após sua publicação no Jornal Oficial da UE. Os Estados-membros dispõem de 20 meses para transpor essas regras. As obrigações REP aplicar-se-ão aos produtores nos 30 meses seguintes à entrada em vigor, ou seja, durante 2028. Microempresas beneficiarão de um prazo adicional de 12 meses. Esta regulamentação integra um arsenal mais amplo, incluindo a coleta separada obrigatória dos têxteis desde 1º de janeiro de 2025 e o Digital Product Passport previsto para 2027. Para informações adicionais sobre a estratégia de têxteis da União Europeia, consulte a Comissão Europeia.
Estratégia Comercial e Industrialização
Mercados Prioritários para a Fibra Reciclável
O segmento de vestuário de trabalho (workwear) foi identificado como um setor prioritário. A logística de recuperação já existente neste segmento, onde as empresas centralizam a renovação de uniformes, facilita a coleta e reciclagem. A tecnologia da Noosa oferece uma solução para uniformes de trabalho frequente feitos de misturas de materiais (como poliéster-algodão, ou polyco), que são tradicionalmente inviáveis de reciclar.
A Noosa direciona-se a três mercados: pronto-a-vestir (apparel), sportswear e workwear, com uma dimensão internacional dada a atuação das marcas clientes. A sociedade colabora com empresas de renome mundial em desenvolvimentos de produtos que culminarão no lançamento de itens como meias, pele sintética, uniformes de trabalho e polos esportivos feitos com a fibra reciclável da Noosa.
A estratégia comercial não visa parcerias com varejistas de baixo custo, devido à incompatibilidade de preços. A integração industrial é acessível, pois os processos de fabricação existentes podem ser adaptados para a fibra reciclável, com ajustes em parâmetros como temperatura. As primeiras aplicações comerciais incluem meias da marca Nolt e camisetas para os 20 quilômetros de Bruxelas e para a Expo Universal de Osaka.
Trajetória Financeira e Industrialização
A Noosa realizou uma primeira rodada de financiamento em 2020, arrecadando € 500 mil (R$ 2,60 milhões), com a entrada da finance&invest.brussels e investidores privados. Em 2023, a Compagnie du Bois Sauvage investiu em um aumento de capital de € 1 milhão (R$ 5,36 milhões). A empresa obteve a certificação B Corp e foi vencedora do Innoviris Starter Award, além de outras ajudas regionais à inovação e à exportação.
Além de uma capacidade de produção anual de 6 mil toneladas por meio de sua rede de parceiros internacional, a sociedade instalou uma linha de extrusão-piloto em Anderlecht, na região metropolitana de Bruxelas, em 2024, para pesquisa. O principal parceiro da Noosa, uma sociedade belga fornecedora da matéria-prima, está construindo uma fábrica de PLA à base de trigo em Port-Jérôme, França. A Noosa planeja expandir sua unidade de reciclagem nas proximidades para uma reciclagem otimizada. A empresa detém um portfólio de cinco patentes que protegem suas inovações.
Perspectivas e o Desafio da Fibra Reciclável no Mercado
O desafio inicial de custo e volume de produção é reconhecido, onde a produção em menor escala resulta em custos mais elevados. A legislação é vista como um catalisador para o mercado, impulsionando as marcas a adotarem soluções como a fibra reciclável. Embora a moda tradicional possa não apresentar uma mudança rápida, o vestuário de trabalho é considerado um influenciador chave. A França, por exemplo, já exige uma porcentagem de materiais reciclados ou de base biológica em concursos públicos, o que beneficia a Noosa.
A expectativa é que o volume gerado por setores como o vestuário de trabalho contribua para a redução dos custos da fibra reciclável, possibilitando uma expansão mais ampla para os mercados de sportswear e pronto-a-vestir. Esta estratégia combina a lógica industrial de escala com a imposição de restrições regulatórias.
Por Correio de Santa Maria, com informações da Comissão Europeia.








