Autor de uma das defesas mais emblemáticas da história da Libertadores e ídolo do Clube Atlético Mineiro, o ex-goleiro Victor, em entrevista ao Metrópoles, contou bastidores do pênalti defendido em 2013 com os pés, falou sobre as conquistas do clube mineiro na década, comentou a respeito do cargo executivo que assumiu no Galo após sua aposentadoria e projetou o clássico deste domingo (8/3) contra o Cruzeiro, na final do Campeonato Mineiro 2026.
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Defesa emblemática
O momento mais emblemático da carreira de Victor foi a defesa de pênalti na partida contra o Tijuana nas quartas de final da Libertadores, em 2013. Sobre o lance, o ex-goleiro falou com emoção sobre as homenagens que ainda recebe nos dias de hoje. Victor trouxe a lembrança que rotineiramente encontra pessoas com o seu nome em homenagem pelo momento e outros com a defesa tatuada na pele:
“É o momento mais marcante da minha carreira, tanto que ficou eternizada na pele, na memória, na história das famílias atleticanas. Vejo isso com muito orgulho, com muita alegria, com muita responsabilidade porque você emprestar o seu nome para o filho de alguém, você também precisa ser uma referência. Sou muito grato aos pais por ter colocado o nome em minha homenagem. Pra mim é gratificante, é sinal de que o trabalho que fiz dentro de campo, os títulos, os momentos com a camisa do Atlético geraram frutos e boas recordações”, destacou, Victor.
No duelo, o Atlético-MG empatava o duelo contra os mexicanos por 1 x 1, resultado que classificava o Galo para a próxima fase. Porém, aos 48 minutos do segundo tempo, o zagueiro Léo Silva cometeu pênalti e deixou o Tijuana com grande chance de avançar, mas Victor defendeu com o pé esquerdo e classificou o time mineiro. Sobre o lance, o ex-goleiro relembrou o momento e trouxe bastidores:
“Logo no começo, a gente sofre o primeiro gol, no final do primeiro tempo o Réver empata na bola parada e o jogo fica controlado. E quando o jogo parecia se caminhar para o final, vem o lance do pênalti. E por mais confiante que você esteja ou seja dentro de campo, numa situação como essa, não tem como você não pensar de forma pessimista, porque é todo um trabalho colocado em cheque e sem tempo de reagir.”, iniciou.
“A gente tentou argumentar com o árbitro, tenta pressiona-lo e uma das principais lembranças que eu tenho é do Alecsandro falando para mim concentrar porque dependiam de mim. Não tinha muita informação dos cobradores deles, e quando eu vejo o Riascos, ele era um dos poucos que sabia. Diante dos estudos que fiz previamente, o canto de confiança dele era o direito, mas na hora que ele vai bater eu percebi que ele ia virar o pé e ai eu tenho a felicidade de levantar o pé e acho o tempo certo da bola e ela explode, daí a reação da torcida me grita que não foi gol.”, completou, o ex-goleiro.
Após alguns minutos do pênalti defendido, o árbitro da partida encerra o duelo no Estádio Independência. Emocionado ao relembrar o lance, Victor detalhou sobre o momento no vestiário após o apito final:
“Eu demorei pra chegar ao vestiário porque a imprensa veio em cima querendo falar do lance, falar do jogo, levei pelo menos 40 minutos pra ir lá depois do jogo. Uma coias que me marcou muito foi a comoção que estava o vestiário quando eu entrei. Todo mundo parou naquele momento, inclusive o presidente estava lá chorando e começaram a aplaudir. Me marcou muito porque não é uma coisa que acontece sempre, todo mundo emocionado me marcou muito”, disse.
“Aquela defesa foi uma virada de chave de um time que sempre disputava títulos mas em momentos decisivos encontrava um momento de má sorte, e foi o que a gente brinca que a manteiga caiu pra cima. Mais tarde consegui ter a noção do que a defesa representou, no outro dia fui dormir só 6h da manhã acompanhando a repercussão. Foi um lance muito improvável, em um lance muito crítico. Com os anos você vai entendendo, mas quem pode ter essa dimensão melhor é o torcedor que acompanha o time desde o berço”, enfatizou.
Caiu no horto, tá morto
Entre 2013 e 2014, o Atlético-MG foi um dos melhores mandantes no mundo quando atuava em Belo Horizonte. Sobre a fase vitoriosa do time, Victor falou sobre a relação com a torcida atleticana e ressaltou que o Estádio Independência criou uma sinergia diferente com os adversários.
“A capacidade do time fez o Atlético-MG naquela ocasião se tornar o melhor mandante do futebol mundial. Era um momento do time junto com a sinergia da torcida, que em momentos ruins colocava a gente pra frente. O ‘eu acredito’ surgiu no jogo contra o Newells Old Boys, o gol do Guilherme levou a decisão para as penalidades e a partir daquilo o lema virou de fato um mantra. Para a Copa do Brasil, em 2014, a gente precisou reverter placares improváveis e isso aconteceu. O torcedor fazia a gente tirar energias de onde a gente nem imaginava”, detalhou, Victor.
O elenco do Atlético-MG, campeão da Libertadores em 2013, é considerado um dos melhores grupos da história do clube. A composição contava com peças como Ronaldinho Gaúcho, Leonardo Silva, Diego Tardelli, Josué, Jô, Bernard, entre outros destaques. Sobre a equipe, Victor contou bastidores da rotina e sobre a qualidade do time:
“Foi um privilégio poder jogar com esses grandes jogadores, era um prazer ver o que o Ronaldinho era capaz de fazer, era um ídolo de todo mundo, super acessível. E outros nomes como Jô e Bernard no início da carreira que também já faziam a diferença. O nosso meio-campo também era muito bom, tinha Pierre, Donizete, Josué fez uma final de altíssimo nível, Marcos Rocha que vinha crescendo em cada jogo”,
“Era um elenco muito competitivo, muito unido, a gente gostava de jogar juntos, o ambiente era muito bom. As dificuldades que apareciam, a gente unia forças ali e não aceitávamos nenhum resultado que não fosse a vitória”, completou.
Aposentadoria
Victor decide se aposentar no início de 2021, quando as arquibancadas ainda sofriam o impacto pela Covid-19. Pouco tempo depois, o ex-goleiro assume o posto de gerente de futebol no Atlético-MG e posteriormente, executivo de futebol da equipe. Ele deixou o cargo em dezembro do ano passado. Sobre esse período, Victor destacou os altos e baixos dessa passagem:
“Um ponto um pouco sensível. A gente lida muito com imediatismo que acaba atrapalhando o nosso trabalho. O que eu posso falar é que existe um planejamento muito mais profissional, muito mais estruturado, muito mais organizado. Claro que o torcedor quer ver o seu time campeão, também é um objetivo institucional. Mas o objetivo é sempre tornar o clube, pelo menos deveria ser, fazer o clube se tornar um projeto sustentável a médio e longo prazo”
“Tive o privilégio de participar de finais importantes como gestor e executivo do clube, final de Libertadores, Sul-Americana e Copa do Brasil, mas infelizmente não conquistamos e isso diante de uma análise externa acaba tendo uma conotação negativa, mas ao mesmo tempo, vejo como algo positivo o fato de atingir metas financeiras, arrecadação, vendas e equilíbrio financeiro. Acho que o sucesso não pode ser vinculado apenas a resultados esportivos.”
“No futebol são detalhes que decidem, uma bola que não entra, um pênalti que você erra determinam resultados de partidas.”
“Hoje o Atlético-MG vem com um projeto muito maior, de se tornar referência e ter conquistas. Fico feliz por participar desse processo e ter deixado o meu legado nessa história recente do clube”
Victor é formado em Educação Física. O caminho que muitos jogadores traçam após a aposentadoria é seguir na área como treinadores, comentaristas, executivos de futebol, etc. Sobre o futuro, o ex-goleiro revelou ter recebido convites para seguir atuando e que não descarta um retorno ao futebol:
“Depois da saída do Atlético-MG eu optei por ter um período sabático. Agora eu estou retraçando rotas aqui, a indústria do futebol é muito ampla. É um momento de estudar todo esse leque que é o futebol, não tenho nada decidido, mas estou estudando para que possa atuar em outras áreas. Gosto da área comercial, o jornalismo também faz sentido pra mim. Fora do futebol, estou mais presente nos negócios.”
“Recebi algumas propostas, alguns convites, até para trabalhar fora do Brasil. Mas como falei, minha prioridade era minha família. Não fecho portas para ninguém, não descarto nenhuma proposta e agora estou analisando e estudando outras propostas”
O titular da posição passou a ser Éverson. Com o Atlético-MG, o goleiro já ultrapassou a marca de 300 jogos e é um dos principais destaques do país. O camisa 22 tem se consolidado nas disputas de pênalti no Galo, sendo um bom defensor mas também um excelente cobrador. Sobre o jogador, Victor rasgou elogios ao paredão e projetou uma vaga na Seleção Brasileira:
“Pra mim hoje o Éverson nessa construção de mais 300 jogos que ele tem pelo Galo é um goleiro muito completo, tem uma capacidade incrível com os pés, pra mim é o goleiro que melhor tem essa qualidade junto com o Rossi. É um goleiro muito bom dentro da área, tem muita personalidade e é o goleiro que cresce em momentos críticos. E por conviver e conhecer o Éverson, sei que ele tem tamanho e mérito para defender a Seleção Brasileira”
Atlético-MG x Cruzeiro
Pelo Atlético-MG, Victor tem 37 jogos contra o Cruzeiro. Diante do maior rival, o ex-goleiro venceu 15 vezes, empatou 12 clássicos e foi superado em apenas 10 oportunidades. Entre os duelos, um dos grandes destaques foi o título inédito da Copa do Brasil em 2014 contra o clube celeste. Ao fim da entrevista, Victor destacou a partida deste domingo (8/3), pela final do Campeonato Mineiro e projetou título do Galo:
“Sempre digo que clássico é um campeonato a parte. É sempre um jogo disputado, equilibrado, enxergo as duas equipes em momentos parecidos, é um jogo muito mental, muito disputado, decidido em detalhes e torço pra que esses detalhes estejam a favor do Atlético-MG porque minha torcida é para o Galo.”
“É difícil arriscar palpite, mas como falei, que vença aquele que for merecedor, que seja um clássico limpo e bem disputado mas que o mérito fique com o lado preto e branco para vencer o heptacampeonato”








