Quinta-feira, 29/01/26

Viúva da operação letal no Rio enfrenta luto e fome para sustentar filhos

Viúva da operação letal no Rio enfrenta luto e fome para sustentar filhos
Viúva da operação letal no Rio enfrenta luto e fome – Reprodução

Fernanda da Silva Martins, de 35 anos, ganhou visibilidade mundial por uma fotografia que capturou seu desespero ao fechar os olhos do cadáver do marido, Leonardo Fernandes da Rocha, durante a Operação Contenção. A ação policial, deflagrada em 28 e 29 de outubro de 2025 pelo governo do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho, resultou em 122 mortes, incluindo cinco policiais, tornando-se a operação mais letal da história do estado.

A imagem, registrada pelo repórter fotográfico Tomaz Silva da Agência Brasil, foi republicada em veículos nacionais e internacionais, retratando o luto em meio a uma fila de corpos na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. Familiares e ativistas de direitos humanos denunciam indícios de execuções na Serra da Misericórdia, enquanto autoridades policiais afirmam que as vítimas eram criminosos que reagiram aos agentes. O governador Cláudio Castro classificou a operação como um sucesso.

Três meses após o ocorrido, Fernanda reencontra a Agência Brasil no Complexo do Alemão, onde vive com três dos quatro filhos: de 15, 11 e 8 anos. A filha mais velha, de 18 anos, reside com a avó, e o filho de 15 anos, com o pai. Ela reflete que a foto representou seu maior momento de luto e que, apesar de críticas, a repercussão fez com que sua dor fosse reconhecida. ‘Não importa se acharam que eu era mãe dele. Eu perdi o amor da minha vida, pai dos meus filhos’, disse.

Fernanda relata que o marido, membro da facção criminosa, apresentou sinais no corpo além de tiros: facadas no braço, pescoço quebrado e um tiro nas costas, caracterizado por ela como ‘tiro de misericórdia’. Apesar disso, não buscou apoio legal. Atualmente, enfrenta depressão e síndrome do pânico, tendo sido internada após uma tentativa de suicídio. ‘Eu saí do tamanho 44 para o 36. Passo dias sem comer, choro, desmaio’, contou. Seus filhos mais novos, Anna Clara e Ivan, são sua motivação principal.

A família depende do Bolsa Família, mas a comida acaba rapidamente, especialmente nas férias escolares sem merenda. ‘Meu marido pagava tudo. Agora, vivemos mais de miojo’, explica Fernanda, que tem apenas sete anos de estudo e nunca trabalhou com carteira assinada, embora tenha experiências informais como diarista e vendedora. Ivan, de 8 anos, toma banho em barril para aliviar o calor e sonha com a praia, mas a passagem é inacessível.

O relacionamento com Leonardo durou 14 anos. Inicialmente, Fernanda trabalhava em uma padaria, mas a família passou a depender da renda dele, que provedor de internet, comida e contas. Um dos períodos mais difíceis foi o diagnóstico de câncer de Ivan aos 3 anos. O casal tentou planos de saída do crime para custear o tratamento, mas não encontrou alternativas viáveis. Após ações judiciais, o caso foi encaminhado ao Instituto Nacional de Câncer (Inca), onde uma cirurgia salvou a vida do menino. ‘Ele me apoiava, pagava os remédios e chegou ao hospital em dez minutos no dia da operação’, recorda.

Fernanda recebe apoio dos pais, Jocimar, vendedor de 55 anos, e Sônia, diarista de 59 anos, na casa simples da família no Complexo da Penha. O pai superou o passado de dependência química há quase 20 anos, e eles ajudam com comida quando necessário. ‘Se não fosse pela minha família, eu não estaria mais aqui’, afirma.

Para o futuro, Fernanda sonha em deixar o Alemão para oferecer uma vida melhor aos filhos e abrir um salão de beleza, onde faria manicure e pedicure. Ela possui curso de cílios e sobrancelhas, mas, por ora, foca em sobreviver dia a dia durante as férias.

T LB

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