O dólar disparou 1,33% nesta quinta-feira (5) e encerrou a sessão cotado a R$ 5,287, com investidores voltando a buscar a segurança em meio à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.
A moeda norte-americana se valorizou globalmente, tanto em relação aos pares do real, como rand sul-africano e peso chileno, quanto ante o euro, o iene e outras divisas de peso semelhante. O índice DXY, que compara o dólar a uma cesta de seis moedas fortes, subiu 0,3%.
A aversão ao risco também contaminou praças acionárias, com bolsas ao redor do mundo enfrentando pregões de fortes perdas. No Brasil, o Ibovespa tombou 2,64%, a 180.463 pontos, com quase todas as empresas da carteira teórica no negativo.
A exceção foram companhias ligadas ao mercado de petróleo, que subiu 4% nesta sessão, cotado a US$ 84 por barril, em meio a preocupações com a oferta da commodity no médio prazo.
Principal catalisadora para as movimentações globais, a disparada do petróleo representa um risco de repique inflacionário. “O receio da transmissão de um ‘choque geopolítico’ para um ‘macroeconômico’, com maiores implicações na inflação e crescimento mundial, vem sendo incorporado nas expectativas de mercado, refletindo diretamente no comportamento dos ativos de risco”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
O Irã responde por 3% da produção global da commodity, mas detém ainda mais influência sobre o mercado de energia por causa de sua posição estratégica às margens do estreito de Hormuz, via por onde passam 20% de todo petróleo e gás do mundo.
Trump afirmou que poderia enviar a Marinha para escoltar petroleiros pelo estreito. A retórica, porém, foi contestada pela Guarda Revolucionária do Irã, que disse que o país controla a passagem pelo canal.
“Atualmente, o estreito de Hormuz está sob controle total da Marinha da República Islâmica”, disse na quarta.
O conflito, que tem ganhado cada vez mais contornos de guerra regional, respinga em outros grandes participantes do mercado de energia. Duas refinarias de petróleo na China e na Índia chegaram a fechar suas unidades de petróleo bruto após a interrupção no abastecimento, já que ambos os países dependem de importações do Oriente Médio.
O Qatar ainda suspendeu a produção de gás natural liquefeito, levando ao fechamento preventivo de instalações de petróleo e gás em todo o Oriente Médio. A produção do país representa cerca de 20% da oferta global.
As movimentações do mercado de energia valorizaram empresas ligadas ao setor na Bolsa. Braskem, Prio, Petroreconcavo e Brava fecharam com ganhos de 15%, 3%, 2% e 0,6%, respectivamente. Petrobras avançou 0,34%, somando mais de 3% de valorização no acumulado de março.
O tombo do Ibovespa não foi isolado. Na Europa, o Euro Stoxx 50, o alemão DAX e o francês CAC caíram 1,5% cada. Em Wall Street, o Dow Jones perdeu 1,6%; o S&P 500 e o Nasdaq Composite, 0,5% e 0,2%, respectivamente.
Na Ásia, por outro lado, os índices acionários se recuperaram dos tombos dos dias anteriores, com a Bolsa de Seul registrando ganhos de 9%. O japonês Nikkei subiu quase 2%.
“Apesar desse ambiente mais sensível, grandes instituições financeiras, como o Goldman Sachs, avaliam que o cenário atual pode gerar correções pontuais nas bolsas, mas não necessariamente um ciclo prolongado de queda, já que os fundamentos econômicos globais seguem relativamente sólidos”, diz Paulo Silva, co-fundador da consultoria Advisory 360.
A valorização do dólar, nesse sentido, reflete um movimento de procura por liquidez e segurança, mesmo que os Estados Unidos estejam diretamente envolvidos no confronto.
Apesar disso, o índice DXY registra queda de mais de 5% no acumulado dos últimos 12 meses. A tendência de desvalorização não mudou, segundo analistas, mas a expectativa é que as perdas da moeda aconteçam de forma não linear.
“O dólar sempre tende a ser um porto seguro em momentos de estresse porque é a moeda de liquidez global e de reserva dominante. Se o conflito ficar mais contido, pode ser uma alta de curto prazo. Se for mais persistente, o dólar fica mais firme por mais tempo”, diz Adriana Ricci, fundadora, gestora e head de operações da SHS Investimentos.
“Não importa se a moeda está bonita ou feia. Quando o mundo qu er liquidez, o dólar costuma ser o primeiro destino.”








