Sexta-feira, 17/04/26

Rota dos Milagres, em Alagoas, tem 14 desaparecimentos em 2 anos em meio à expansão de facções

Rota dos Milagres, em Alagoas, tem 14 desaparecimentos em 2 anos em meio à expansão de facções
Rota dos Milagres, em Alagoas, tem 14 desaparecimentos em 2 – Reprodução

Ao menos 14 pessoas desapareceram entre 2024 e 2026 na Rota Ecológica dos Milagres, composta pelas cidades turísticas de São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras e Passo do Camaragibe, no litoral de Alagoas. Os municípios ficam próximos a Maragogi. O governo alagoano diz que investigações tentam encontrar as vítimas e responsabilizar os envolvidos.

Os desaparecimentos forçados estão ligados, segundo a polícia, à atuação de facções, que vem se intensificando na região. Especialistas destacam que a estratégia é adotada por organizações criminosas como meio para efetuar o domínio territorial, uma vez que o homicídio de rivais e integrantes poderia desencadear maior atenção e mobilização policial em torno dos casos.

O problema vai além dos 14 registros dos últimos dois anos. O governo alagoano reconhece haver 19 desaparecidos em um período maior, entre 2022 e 2026, mas não especifica as ocorrências ano a ano.

Além disso, sete corpos já foram achados na região no período, dos quais houve identificação de três vítimas que chegaram a ser dadas como desaparecidas, enquanto outras duas aguardam DNA e duas não foram identificadas nem reclamadas por famílias. Ou seja, o cômputo total da violência na região é ainda maior.

Folha havia abordado o problema no ano passado, quando a conta estava em quatro desaparecidos até aquele momento. Nesta semana, a Secretaria de Segurança Pública do estado divulgou o novo dado e ressaltou que todos os desaparecidos teriam ligação direta ou indireta com o tráfico de drogas e o crime organizado.

A versão da SSP é negada por familiares contatados pela reportagem. A vinculação dos filhos a facções trouxe desespero às mães. Sob condição de anonimato, um grupo de cinco mães falou com a reportagem e três confirmaram que os filhos eram usuários de maconha, enquanto um utilizava crack, e uma negou qualquer uso de substâncias ilícitas.

As cinco reiteraram que os filhos não tinham relação com o crime organizado e sequer tinham respondido anteriormente por crimes na Justiça. Por trabalharem, parte dos jovens teria apresentado certificados criminais de nada consta aos empregadores.

Elas reclamaram, ainda, da falta de apoio das instituições, afirmando que nunca foram procuradas pelo poder público para falar a respeito dos desaparecimentos. Sem amparo jurídico e psicológico, elas dividem a mágoa umas com as outras.

Parte das mães decidiu sair das cidades por conta das ameaças que recebiam quando falavam publicamente sobre os filhos. Os contatos eram feitos por meio de perfis anônimos nas redes sociais.

Para elas, o ciclo não está fechado, já que não tiveram a oportunidade de encontrá-los ou de enterrá-los com dignidade, revivendo o sofrimento diariamente.

Entre os 14 que seguem desaparecidos, 13 são homens. A única mulher, Maria Vitoria Chaves da Silva, 22, desapareceu em 8 de dezembro do ano passado em São Miguel dos Milagres. A maioria é jovem, e só um deles tem mais de 30 anos: Cristiano Henrique Pinto dos Santos, 38.

Oito casos foram registrados no ano passado, entre fevereiro e dezembro. E um deles aconteceu neste ano, em 22 de janeiro, data em que Bruno Viana de Souza, 23, sumiu em São Miguel.

No dia do desaparecimento, Pedro Willian dos Santos Silva, 26, saiu de casa após retornar do trabalho com o pai. Ele disse a parentes que iria cortar o cabelo e foi visto pela última vez na região da praia de Porto da Rua, em São Miguel. Ele tem um filho de 5 anos e sonha em ser cozinheiro, mantendo páginas nas redes sociais onde divulga suas receitas.

Veja quem são os 14 desaparecidos de 2024 a 2026

Em São Miguel dos Milagres:

  1. Ronilson Santos da Silva, 23, desapareceu em 29 de maio de 2024;
  2. Carlos Gabriel Rodrigues dos Santos, 19, desapareceu em 24 de julho de 2024;
  3. Guilherme Santos de Almeida Lima, 21, desapareceu em 2 de fevereiro de 2025;
  4. Pedro William dos Santos Silva, 26, desapareceu em 8 de março de 2025;
  5. Eduardo dos Santos, 20, desapareceu em 13 de maio de 2025;
  6. Alefi José Lima Santos, 22, desapareceu em 9 de outubro de 2025;
  7. Maria Vitoria Chaves da Silva, 22, desapareceu em 8 de dezembro de 2025;
  8. Bruno Viana de Souza, 23, desapareceu em 22 de janeiro de 2026.

Em Porto de Pedras:

  1. Cristiano Henrique Pinto dos Santos, 38, desapareceu em 14 de setembro de 2024;
  2. Diego Lucas Ferreira da Silva, 29, desapareceu em 16 de novembro de 2024;
  3. Laudevanio Silva dos Santos, 27, desapareceu em 26 de novembro de 2024;
  4. Marcondes Alves da Silva, 22, desapareceu em 11 de julho de 2025;
  5. Diego Lourenço da Silva (Pé de Pato), 29, desapareceu em 18 de outubro de 2025;
  6. Jó Mario da Silva, 21, desapareceu em 18 de outubro de 2025.

CV e PCC se expandem na região

A região tem quatro grupos criminosos ligados a duas facções, segundo a SSP. A Tropa do Kebinho e o Trem Bala do CV, associados ao Comando Vermelho, predominante na área, e o PCC e a Tropa dos Crias, que teria elos com a facção de origem paulista e é baseada em São José da Coroa Grande (PE), na divisa de Alagoas com Pernambuco.

Entre as motivações para os desaparecimentos, afirma a SSP, estariam dívidas, rivalidade entre facções, possíveis delações e traição aos códigos internos dessas organizações.

Para o professor de sociologia da UFC (Universidade Federal do Ceará) e pesquisador das dinâmicas de violência entre facções, Luiz Fábio Paiva, os desaparecimentos surgem como uma estratégia vinculada ao domínio territorial, em que se quer eliminar alguém, mas que se tenta evitar a repercussão que um homicídio poderia gerar.

“É preciso que o poder público faça um investimento muito pesado em sua área de investigação, inteligência, para não possibilitar que isso aconteça de maneira recorrente e consequentemente se torne um evento crítico que vai de certa maneira perdurar e ser uma estratégia recorrente, causando uma enorme dor e sofrimento a toda a sociedade”, explicou.

Os corpos que foram encontrados apresentavam marcas de violência e estavam em locais de difícil acesso, em regiões de mata, por meio de dicas que as famílias receberam e repassaram à polícia. Alguns estavam enterrados, enquanto pelo menos um foi encontrado ao ar livre. Há uma dificuldade para se fazer buscas por conta do terreno, além de ser uma parte das cidades que é pouco habitada.

O caso mais recente foi o de Nicolas Jhonathan Santos Cunha, 17, que tinha sumido no dia 27 de março a caminho de uma escola em São Miguel. O corpo dele foi encontrado em uma estrada vicinal na Fazenda Salema, zona rural do município, no dia 4 deste mês. Outro corpo que aguarda identificação também foi encontrado na mesma fazenda.

Polícia diz realizar combate e investigação

O secretário-executivo de Políticas de Segurança Pública, coronel Patrick Madeiro, afirmou à reportagem que o poder público atua para dar resposta aos desaparecimentos. “É de interesse da segurança pública encontrar essas pessoas. Por mais que seja doloroso para a família, são pessoas que têm um vínculo com a criminalidade, ou através de traficantes ou usuários de drogas”, disse.

“Nós montamos uma equipe de inteligência para aquela região e temos outras medidas que ainda não foram divulgadas, mas que já existe um inquérito de crime organizado voltado ao enfrentamento a essa modalidade criminosa de facções criminosas, do Comando Vermelho e do PCC”, acrescentou.

O coordenador do setor de desaparecidos em Alagoas, Ronilson Medeiros, afirmou que é necessária uma rede de apoio aos familiares, com apoio assistencial, psicológico e jurídico. “Nós conduzimos uma investigação sem julgamentos, cujo objetivo é encontrar pessoas.”

O Ministério Público do estado informou ter requisitado os boletins de ocorrência relativos aos desaparecimentos, assim como “informações a respeito dos respectivos inquéritos policiais instaurados, com o objetivo de garantir a devida apuração dos fatos”.

T LB

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