São Paulo, 21 – O dólar perdeu força ao longo da tarde desta quinta-feira, 21, com a diminuição da aversão global ao risco, após informações de que Estados Unidos e Irã estariam perto de um acordo de paz, e flertou com o fechamento abaixo da marca de R$ 5,00 pela primeira vez em dois pregões.
Depois de tocar mínima a R$ 4,9833, a moeda norte-americana recuperou parte do fôlego na última hora de negócios, em sintonia com o ambiente externo, e encerrou o dia cotada a R$ 5,0012, em baixa de 0,04%. A divisa apresenta queda de 1,31% na semana, mas ainda sobe 0,98% em maio, após desvalorização de 4,36% em abril. No ano, as perdas são de 8,89%.
Segundo relato da Al Arabiya, plataforma de notícias sediada nos Emirados Árabes Unidos, EUA e Irã teriam alcançado uma versão final de um entendimento preliminar mediado pelo Paquistão. Com anúncio previsto para as próximas horas, o documento traria um cessar-fogo imediato e abrangente, com liberação do tráfego pelo Estreito de Ormuz.
“O alívio externo, principalmente nos juros longos americanos, ajudou a conter a força global do dólar e permitiu ao real sustentar oscilações próximas ao patamar de R$ 5,00”, afirma o especialista em investimentos Bruno Shahini, da Nomad, ressaltando que as informações veiculadas até o momento são “insuficientes” para justificar uma melhora maior do apetite ao risco.
Pela manhã, dados fortes de atividade nos EUA e informações desencontradas sobre as tratativas de paz deprimiram o apetite por divisas emergentes. O mercado de câmbio abriu em tom negativo com a notícia de que o líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, teria barrado a retirada de urânio enriquecido do país, opondo-se a uma das principais exigências americanas para encerrar a guerra. Autoridades iranianas refutaram as informações, enquanto Trump disse que os Estados Unidos vão receber os estoques de urânio enriquecido do Irã.
O vaivém das notícias sobre as tratativas de paz manteve o petróleo em alta de cerca de 3% pela manhã. A troca de sinal veio à tarde, na esteira dos relatos sobre um acordo iminente entre as partes. O contrato do barril do Brent para julho – referência de preços para a Petrobras – fechou em baixa de 2,32%, a US$ 102,58. As cotações reduziram bastante as perdas no pregão eletrônico, diante da ausência de detalhes sobre o eventual acordo.
O gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, ressalta que investidores se assustaram com a alta dos juros globais nos últimos dias e promoveram uma realização de lucros com divisas emergentes. Houve também o solavanco provocado pelo “Flávio Day 2.0”, que turbinou os efeitos do cenário externo adverso sobre a moeda brasileira.
“Se tivermos um acordo de paz, podemos ver o dólar voltar ao patamar de R$ 4,80. A perspectiva de regularização dos fluxos globais de petróleo traz alívio no risco de inflação que estava assustando muito os mercados”, afirma Galhardo, ressaltando que a moeda brasileira tende a se manter atraente com a perspectiva de manutenção de juros elevados nos próximos meses, dada a postura cautelosa do Banco Central na redução da taxa Selic.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em leve alta à tarde, na casa dos 99,100 pontos, após máxima aos 99,515 pontos pela manhã O euro segue na berlinda diante de sinais de perda de força da atividade na região, que é mais exposta ao choque dos preços de energia.
As taxas dos Treasuries de 10 e 30 anos apresentaram leve queda, ao passo que o retorno do papel de 2 anos subiu. Investidores ainda digerem o tom mais duro da ata do Federal Reserve, divulgada na quinta-feira, e aguardam na sexta-feira a posse de Kevin Warsh na presidência do Fed. As apostas em alta de juros pelo BC americano neste ano voltaram ao radar nos últimos dias.
Em relatório, o BTG Pactual ressalta que o real ainda se mantém como principal destaque positivo entre moedas emergentes em 2026, apesar de ter perdido parte do fôlego recentemente. O banco ressalta que a moeda brasileira se mostra mais sensível que seus pares ao vaivém do sentimento global de risco. “O ponto-chave de atenção é que, com ganhos anuais ainda significativos, choques negativos tendem a desencadear uma realização de lucros mais rápida do que em moedas que ficaram para trás”, afirma o BTG.
Bolsa
O Ibovespa inverteu o sinal e chegou a retomar os 178 mil pontos no período da tarde desta quinta-feira, 21, movido pela notícia de um veículo árabe de que EUA e Irã teriam alcançado entendimento sobre esboço inicial de acordo, mediado pelo Paquistão. Mas, ainda no meio da etapa vespertina, o índice mostrou fôlego curto que o conduziu apenas a um leve ganho de 0,17%, aos 177.649,86 pontos. Da mínima à máxima do dia, foi dos 175.805,16 até os 178.546,59, tendo saído de abertura aos 177 351,70 pontos. Foi o segundo ganho encadeado pelo Ibovespa, uma sequência simples mas que não era vista desde as sessões de 5 e 6 de maio, há 15 dias.
No fechamento desta quinta-feira, destaque para a recuperação, embora ao fim moderada, dos grandes nomes do setor financeiro, com Itaú (PN +1,13%) à frente. Principal ação do Ibovespa, Vale ON também virou e encerrou em alta de 0,77%, com Petrobras também no positivo, na ON (+1,25%) e na PN (+0,78%).
Na ponta ganhadora do Ibovespa, CSN (+3,43%), Brava (+2,03%) e Natura (+2,00%). No lado oposto, Hapvida (-7,01%), Minerva (-5,40%) e MRV (-3,26%). Moderado, o giro financeiro foi de R$ 23,8 bilhões na sessão. Na semana, o Ibovespa avança 0,21%, com perdas no mês ainda a 5,16%. No ano, o índice da B3 acumula ganho de 10,26%.
Com o desdobramento em torno de possível acordo no Oriente Médio, o petróleo mudou de direção e passou a cair em torno de 2%, no Brent e no WTI, o que limitou o potencial de Petrobras na sessão, embora ainda em alta no fechamento. Os juros futuros e o dólar acompanharam o alívio externo, contribuindo para o desempenho positivo do Ibovespa na etapa vespertina. Ao fim, o dólar mostrava baixa de 0,04%, a R$ 5,0012. Em Nova York, Dow Jones +0,55%, S&P 500 +0,17%, Nasdaq +0,09%.
“O preço do barril de petróleo chegou a superar os US$ 109 na manhã de hoje, mas caiu mais de 2% à tarde depois que uma emissora árabe de televisão noticiou que Estados Unidos e Irã teriam chegado a uma versão preliminar de acordo de paz, com as negociações sendo mediadas pelo Paquistão”, aponta Luise Coutinho, head de produtos e alocação da HCI Advisors.
Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, destaca que a volatilidade do petróleo, em meio às idas e vindas quanto a uma eventual resolução do conflito entre Estados Unidos e Irã, tem sido o fiel da balança para a definição dos dias de apetite ou aversão a risco. Os investidores continuam a monitorar de perto os desdobramentos geopolíticos no Oriente Médio e, mesmo diante de sinais de alívio, ainda há poucas garantias quanto à evolução “concreta” das negociações, o que reforça a “percepção de insegurança”.
“Cresce a percepção de que o petróleo pode permanecer em níveis elevados por mais tempo, o que influencia diretamente os custos de energia, transporte e produção em diversos países, pressionando a inflação global”, conclui o especialista, referindo-se ao efeito direto dessa combinação de fatores para a condução da política monetária por BCs referenciais, como o Federal Reserve, o banco central dos EUA.
Juros
Após a notícia sobre avanços que culminaram em uma versão final preliminar de um acordo entre Estados Unidos e Irã ter provocado uma repentina virada para cima nos ativos globais e domésticos na segunda etapa do pregão, o movimento perdeu ímpeto rumo ao final da sessão, mas os juros futuros fecharam em baixa.
O alívio, que fez todas as taxas deixarem a firme alta observada até então e atingirem mínimas entre 14h30 e 15h00, arrefeceu conforme as cotações do petróleo também desaceleraram a queda, em mais um dia no qual o ambiente externo ditou a oscilação da curva.
Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 14,057% no ajuste de quarta a 14,04%. O DI para janeiro de 2029 fechou negociado a 13,845%, vindo de 13,912% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 anotou queda de 14,076% no ajuste anterior a 14,02%.
Profissionais do mercado ouvidos pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) avaliam que, após a primeira reação de euforia ao acordo mediado pelo Paquistão, os investidores ponderaram que o histórico recente de frustrações nas tratativas entre os dois países ainda deixa incertezas no cenário. Segundo relato da agência Al Arabiya por volta das 14h25, o consenso deve ser anunciado “nas próximas horas”, e prevê um cessar-fogo imediato e abrangente em todas as frentes.
As partes também teriam se comprometido mutuamente a evitar ataques contra infraestruturas, ao mesmo tempo em que a liberdade de navegação no Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz seria garantida por meio de um mecanismo conjunto de monitoramento. As sanções devem ser gradualmente suspensas em troca do cumprimento, pelo Irã, dos termos do acordo. Nem Teerã nem Washington confirmaram o entendimento até o momento.
“Como já houve inúmeras idas e vindas com relação à realização de um acordo, há algum grau de ceticismo. O mercado de juros futuros segue bastante correlacionado ao preço do petróleo”, aponta Sergio Goldenstein, sócio-fundador da consultoria Eytse Estratégia.
O contrato futuro do petróleo tipo Brent para julho, que subia cerca de 2% no pregão regular até a notícia sobre o acordo, passou a recuar 1,5%, o que causou a inversão do sinal positivo para negativo nos DIs, afirma Goldenstein. “Mas vale notar que a queda do Brent é bem modesta”, ponderou.
Apesar de ter fechado em declínio de 2,32% com os relatos de progressos diplomáticos entre o governo Trump e o país persa, o barril do Brent seguiu cotado acima de US$ 100, a US$ 102,58, nível que ainda não dissipa totalmente os temores inflacionários, num momento em que os estoques estão minguando.
Para Andrea Damico, sócia e economista-chefe da BuysideBrazil, a chance de que as cotações do Brent voltem a um nível de US$ 70 é de apenas 5%, frente a probabilidades de cerca de 30% cada para preços de US$ 85, US$ 100 e acima de US$ 120.
Caso a notícia sobre o acordo seja confirmada, há espaço para recuos adicionais da commodity energética e, consequentemente, devolução adicional dos prêmios de risco embutidos nos DIs, avalia André Muller, economista-chefe da gestora de recursos AZ Quest.
“Se o petróleo cair, a descompressão vai acontecer na precificação da política monetária aqui. Ainda há poucos cortes precificados para um eventual cenário de fim de guerra”, apontou “É difícil avaliar a probabilidade disso acontecer ou não, mas hoje é o que afetou todos os ativos de risco correlacionados com o petróleo”, observou Muller.
As apostas para a trajetória da Selic apontadas pela curva futura, porém, pouco mudaram em relação a quarta, numa mostra de que o mercado ainda espera mais avanços nas negociações e descompressão mais consistente nos preços do óleo. A chance de um corte de 0,25 ponto do juro básico na reunião de junho do Comitê de Política Monetária (Copom), que quarta estava em 88%, avançou a 92% nesta quinta-feira, 21. Já a taxa terminal projetada para o fim de 2026 oscilou a 13,95%, de 14% na quarta
“O cenário de queda de 0,25 ponto na próxima reunião deve se consolidar, e vamos voltar à discussão sobre a extensão do ciclo, dado o nível da Selic”, diz Muller.
Estadão Conteúdo








