Sexta-feira, 12/06/26

Pesquisa inédita sobre feminicídio no DF

Pesquisa inédita sobre feminicídio no DF
Pesquisa inédita investiga o que leva homens a matarem mulheres no DF – Reprodução

Uma pesquisa inédita sobre feminicídio no Distrito Federal, intitulada “Panorama da Violência contra a Mulher no DF”, foi apresentada nesta sexta-feira (12) pelo Governo do Distrito Federal (GDF). O levantamento, considerado o primeiro desse porte feito por um ente federativo no país, ouviu mais de 5 mil pessoas e 39 autores de feminicídio presos no Complexo da Papuda, com o objetivo de mapear fatores associados à violência contra a mulher e subsidiar políticas públicas de prevenção, acolhimento e proteção. A governadora Celina Leão anunciou a assinatura de um decreto para institucionalizar o estudo, que passará a ser feito a cada dois anos.

Feminicídio: Objetivos e Abrangência da Pesquisa

A governadora Celina Leão destacou que a maioria das pesquisas sobre violência contra mulheres não é realizada por órgãos públicos, mas a institucionalização de estudos públicos oferece um direcionamento para enfrentar o desafio. Ela ressaltou a inovação da pesquisa, sendo a primeira realizada por um ente federativo com essa profundidade, e uma das maiores do Brasil pelo número de entrevistados.

A chefe do Executivo pontuou a abrangência do levantamento. “Entender a violência contra as mulheres é um pedaço da saída para combater, mas tomar providências sobre isso é mais importante ainda do que entender tudo que está acontecendo com as nossas mulheres. Eu vou soltar um decreto hoje para institucionalizar essa pesquisa, para que ela seja feita de dois em dois anos, para que a gente tenha um perfil e parâmetros verdadeiros de como isso acontece aqui no Distrito Federal”, acrescentou.

O estudo, produzido pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF), em parceria com a Secretaria da Mulher (SMDF) e a Secretaria de Administração Penitenciária (Seape), visa subsidiar o aperfeiçoamento de políticas públicas de prevenção, acolhimento e proteção às mulheres.

Metodologia e Descobertas sobre Feminicídio

Segundo Manoel Clementino, presidente do IPEDF, a pesquisa teve dois objetivos principais: medir as diferentes formas de violência contra a mulher no Distrito Federal, incluindo o contexto em que ocorrem e a percepção da sociedade sobre o problema, e compreender as motivações de homens presos por feminicídio de parceiras íntimas. Ele enfatizou que este recorte foi crucial para entender as motivações dos autores, e que a autorização judicial para acessar os presos e a articulação entre órgãos governamentais tornaram o estudo inédito, especialmente a incursão em um ambiente delicado como o sistema prisional, com o cuidado da Secretaria de Administração Penitenciária com os pesquisadores.

As entrevistas com os homens presos por feminicídio indicam que o crime não possui uma causa única, mas sim trajetórias marcadas por padrões de masculinidade associados à autoridade, controle e dificuldade em gerenciar conflitos. Foram identificados, também, comportamentos de escalada da violência, como controle de celular, ameaças, agressões físicas e uso de armas.

Alexandre Patury, secretário de Segurança Pública do DF, afirmou que os dados da pesquisa refletem a realidade diária das forças de segurança. Ele mencionou o programa DF 360, que monitora ocorrências em tempo real, evidenciando a frequência dos casos de violência doméstica. “Às vezes, durante a noite ou no fim de semana, a cada 10 ou 15 minutos surge um alerta de violência doméstica com a geolocalização de mulheres que ligam para o 190. Quando vemos números como os da pesquisa, percebemos que não estão fora da curva, são a realidade. E, pior ainda, são subnotificados, porque muitas mulheres não acionam a polícia por medo”, destacou.

Para Patury, o levantamento contribui para combater a negação da dimensão do problema. Ele salientou que a pesquisa é “inédita e corajosa” por buscar entender as motivações desses crimes, e que para quebrar o ciclo, é necessário compreender e perguntar. O secretário também apontou a questão patrimonial como um fator relevante nos casos de violência, explicando que “Não se trata apenas de quem é o provedor. Muitas vezes, a mulher sustenta a casa e o homem se apropria desse patrimônio, assumindo uma posição de poder. Essa relação está ligada a um contexto histórico de machismo estrutural”. Ele concluiu que o enfrentamento da violência vai além da atuação policial, envolvendo educação, cultura, esporte e oportunidades.

Panorama da Violência contra a Mulher no DF

A pesquisa foi realizada em duas etapas: a aplicação de questionários a 5.093 pessoas em 80 pontos de grande circulação em todas as regiões administrativas do DF, e entrevistas aprofundadas com 39 dos 50 homens presos por feminicídio no Complexo da Papuda. Entre os resultados, 77,6% das mulheres relataram ter vivido alguma situação de violência ao longo da vida; 44,8% reconhecem ter sido vítimas e, destas, 15,4% ainda mantêm relação com o agressor. A dependência financeira é apontada como o principal fator associado à violência por parceiros íntimos.

O estudo também revelou dificuldade no reconhecimento de formas de violência: 49,4% dos entrevistados não consideram que negar acesso ao próprio dinheiro seja sempre violência. Apenas 33,8% das mulheres e 19,7% dos homens identificaram corretamente todas as situações apresentadas. Persistem percepções distorcidas sobre o papel da mulher, com concordância a frases como “toda mulher é um pouco histérica” (35,4%), “mulher é o sexo frágil” (34,9%) e “tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama” (33,3%), mais naturalizadas entre os homens.

Diferenças regionais foram identificadas: em áreas de maior renda, a percepção do aumento da violência é menor, mas o reconhecimento das situações de violência é mais preciso; em regiões de menor renda, ocorre o inverso. Relatórios completos estão disponíveis no site do IPEDF.

Ações do GDF no Combate à Violência

A governadora apresentou um panorama das ações do GDF em defesa das mulheres desde 2019, com a criação da Secretaria da Mulher. Em 2021, a Casa da Mulher Brasileira foi inaugurada em Ceilândia. Em 2023, a Força-Tarefa contra o Feminicídio foi instituída, e em 2024, o programa Acolher Eles e Elas foi criado, juntamente com o Comitê de Proteção à Mulher. No ano passado, o Aluguel Social e o Passe Livre foram instituídos, e quatro centros de referência da mulher brasileira foram inaugurados. Para este ano, está prevista a abertura da Casa da Mulher Brasileira no Plano Piloto.

A Secretaria da Mulher ampliou significativamente a rede de proteção às mulheres no DF, implantando 17 novos equipamentos públicos, elevando a estrutura de atendimento e acolhimento para 31 unidades. Em 2025, a secretaria realizou mais de 70 mil atendimentos diretos e alcançou mais de 100 mil mulheres por meio de programas e ações, com investimentos superiores a R$ 86 milhões.

A pasta intensificou a mobilização social com campanhas estratégicas e institucionais de conscientização e proteção, incluindo “A Sua Denúncia Salva”, “Agosto Lilás”, “Mães Mais que Especiais”, “Mulher, Não se Cale”, “Educar para Proteger”, “Feminicídio Zero”, “Reconstruindo Sorrisos”, “21 Dias de Ativismo” e “Salas Douradas”, além de ações itinerantes de orientação. Essas campanhas ampliaram o acesso à informação, fortaleceram a rede de apoio e impactaram milhares de pessoas, reforçando o compromisso do GDF com a prevenção da violência e a defesa dos direitos das mulheres.

T LB

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