Ao longo desse tempo, Fatmata Sessay, 56, está dormindo no saguão do aeroporto e se alimentando em um espaço de acolhimento municipal. Nesta quinta-feira (18), ela recebeu uma passagem do Ministério Público do Pará para embarcar na próxima segunda-feira (22) para o Panamá. Ao receber a notícia, Sessay não conteve as lágrimas.
“Ninguém me ajudou aqui. Só você que comprou a minha passagem. Muito obrigada. Se Deus quiser, vou encontrar meu filho e recomeçar a vida”, desabafou ela para o promotor Nadilson Portilho, que acompanha o caso.
“Providenciamos a compra da passagem para ela para o dia 22 de junho, até lá vamos acompanhá-la para a intermediação do visto e da carteira de vacinação internacional para que ela possa seguir viagem”, disse o promotor.
Já na noite de sexta-feira (19), a Justiça Federal no Pará acatou um pedido do MPF (Ministério Público Federal) e determinou que o governo estadual e o Itamaraty prestem assistência consular para que Sessay receba os documentos de que precisa em até 48 horas.
A trajetória de Sessay até o saguão do aeroporto de Belém é confusa, em parte em razão da dificuldade de comunicação da imigrante. O idioma oficial de Serra Leoa é o kriô, e ela se comunica com dificuldades em português e outras línguas.
Ela relata ter saído de São Paulo, onde vivia há 18 anos, com destino ao Panamá, no final do ano passado para localizar o filho, de 15 anos.
Viajando sozinha, ela conta que sofreu um assalto no Peru e que vem conseguindo se deslocar com a ajuda de voluntários. De lá foi para Suriname, de onde embarcou para Belém.
“Fui roubada e as pessoas me ajudaram. Cheguei ao Suriname e compraram uma passagem para Belém dizendo que seria mais fácil conseguir a passagem para o Panamá daqui”, disse Sessay.
Em Belém desde dezembro do ano passado, ela sofreu um novo assalto, quando teve o passaporte roubado e perdeu uma passagem doada para o Panamá, com embarque no dia 16 de abril.
“Consegui comprar a passagem Belém-Bogotá-Panamá e mostrei meu celular para o homem para fazer o carimbo e ele pegou o passaporte da minha mão e não me devolveu”, revela.
As circunstâncias desse assalto não são claras. A Folha solicitou esclarecimentos à Polícia Federal, mas ainda não recebeu retorno. Segundo o Ministério Público Estadual, que também está auxiliando a imigrante, a PF estaria investigando o crime.
“O que se sabe é que ela foi roubada e que, por isso, não conseguiu embarcar. Mas o caso está sendo investigado”, disse o promotor Nadilson Portilho.
Apesar das dificuldades, ela conseguiu fazer um novo passaporte em Belém. Sem dinheiro para seguir viagem, ficou morando no aeroporto.
“Eu durmo aqui no chão mesmo. Durante o dia eu vou no Centro Pop [Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua] para comer e tomar banho. A prefeitura também me cadastrou na Bolsa Família”, conta.
A Prefeitura de Belém confirmou que Fatmata Sessay está sendo acompanhada pelas equipes de assistência social desde dezembro de 2025 e que recebe alimentação diária no espaço de acolhimento. Ela também passou a receber o Bolsa Família.
Ainda segundo o órgão, a imigrante se recusou a ir para o serviço de acolhimento que atende pessoas em situação de rua durante a noite. O órgão afirma que segue as diretrizes da política nacional da assistência, que não permite o acolhimento compulsório.
“Não quis ir para nenhum lugar porque quando saio tem gente e carros em cima de mim. Aqui [no aeroporto] me sinto segura”, disse ela.
A juíza Maria Carolina Valente do Carmo, da 1ª Vara Federal Cível da Justiça Federal, acatou nesta sexta feira (19) o pedido do Ministério Público Federal e determinou que o Governo do Pará e o Ministério das Relações Exteriores assegurem assistência consular à migrante em dois dias, realizando os trâmites necessários junto à representação diplomática de Serra Leoa (sediada em Washington), para a regularização de documentação de viagem, com a obtenção dos vistos para ingresso na Colômbia e no Panamá.
A Procuradoria afirma que houve abandono por parte das autoridades de todas as esferas e diz que ela está vivendo em situação de vulnerabilidade social.
A Secretaria de Estado de Justiça (Seju) afirma que prestou atendimento à cidadã de Serra Leoa em maio.
Uma equipe fez o encaminhamento à Fundação Papa João 23, para assegurar o acesso aos serviços de acolhimento e à assistência.
Sobre a assistência consular, o Itamaraty recomendou contato com autoridades migratórias do aeroporto de Belém.
Desde que o caso ganhou repercussão, muitas pessoas estiveram no aeroporto oferecendo alojamento e alimentação para a migrante.
“Vi o caso na imprensa e vim oferecer a minha casa para ela. Se quiser ficar lá até conseguir viajar, posso dar alojamento e alimentação. A gente faz o papel que o poder público deveria fazer”, afirmou a dona de casa Carla Livramento.








