JOÃO GABRIEL DE LIMA
FOLHAPRESS
O homicídio de Algés, nome pelo qual ficou conhecido o episódio em que um adolescente brasileiro confessou ter matado a mãe por asfixia num bairro da região metropolitana de Lisboa, em Portugal, ocupou os telejornais no final de semana num país conhecido pela baixa criminalidade.
Foram revelados detalhes do assassinato que esfacelou a família -a mãe morreu, pai (investigado por outro caso) e filho estão detidos, e a irmã do adolescente, de 4 anos, está sob custódia da polícia portuguesa.
O crime ocorreu na noite de quarta-feira (12) na residência da família em Algés, mas só veio a público no dia seguinte, quando o adolescente de 15 anos procurou por telefone a PSP (Polícia de Segurança Pública) de Portugal. No telefonema, o adolescente disse ter matado a mãe, uma brasileira de 33 anos após dar um golpe conhecido por mata-leão.
Após admitir o crime, cometido na frente da irmã, o adolescente foi internado num centro educativo, onde num primeiro momento aguardará a investigação e o julgamento -por ser menor de 16 anos, ele não pode ir para uma prisão comum, conforme a lei portuguesa.
No domingo (16), uma reportagem da CNN portuguesa revelou que o adolescente já atentara contra a vida da mãe anteriormente. Em uma dessas tentativas, foi impedido por uma amiga da família. Na outra, a mãe acabou salva pelo choro da filha.
A imagem da mãe inerte e da filha desesperada, exibida pela CNN, foi gravada pelo próprio adolescente e faz parte do conjunto da investigação policial. Outra imagem impactante mostra a mãe agredindo a filha pequena com um pontapé. Por várias vezes, o adolescente procurou a polícia e outras instituições denunciando violência da mãe contra a irmã e contra ele próprio.
A mãe e os filhos lidavam com a ausência do pai, também brasileiro, que foi detido preventivamente em 14 de outubro de 2025, “na sequência de nova ocorrência de violência doméstica”, segundo informou à Folha de S.Paulo a assessoria de imprensa da PSP.
Na ocasião, segundo a reportagem da CNN, a brasileira quase morreu, e só foi salva porque recebeu atendimento médico imediatamente.
À Folha de S.Paulo a PSP respondeu por escrito que “interveio em diferentes ocorrências relacionadas com este agregado familiar e, sempre que foram identificados atos suscetíveis de representar perigos para os menores, elaborou o respectivo expediente e comunicou a situação às entidades competentes”.
Foram quatro ocorrências policiais entre 25 de abril de 2025 e 23 de junho de 2026.
Nesse período, segundo a PSP, o adolescente encaminhou vídeos e áudios a familiares no Brasil relatando violência doméstica. Em Portugal, a família se encontrava sob acompanhamento do Núcleo de Infância e Juventude de Oeiras -município da grande Lisboa onde se situa o bairro de Algés-, que tomou conhecimento do material.
“Na sequência das preocupações manifestadas por um familiar residente no Brasil, aquele serviço [o Núcleo de Infância e Juventude de Oeiras] se reuniu com a mãe e com o jovem, inicialmente em separado e, depois, em conjunto. () O conjunto das gravações foi abordado nessas entrevistas, tendo sido identificada uma situação familiar de crescente tensão, sobretudo na relação entre a mãe e o jovem”, relatou a polícia.
“Foram assumidos compromissos quanto ao acompanhamento clínico, à toma de medicação, à frequência escolar e desportiva e à alteração da forma de relacionamento entre ambos”, acrescentou.
Ainda de acordo com a PSP, o núcleo identificou dificuldades econômicas, habitacionais e familiares, “bem como a ausência de uma rede de apoio em Portugal”. “Considerou, por isso, necessário avaliar urgentemente alternativas ao contexto materno, incluindo a possibilidade de a família paterna, residente no Brasil, constituir um projeto de vida alternativo.”
A família se mudou do Brasil para Portugal há dois anos. Em entrevista à CNN portuguesa, a irmã da vítima disse que a brasileira sofria violência por parte do marido desde que moravam no Brasil, e a situação pode ter se agravado em Portugal, longe dos parentes.
O conflito piorou ainda mais quando o marido da irmã perdeu o emprego, e a vítima, tendo que arcar sozinha com as despesas da casa, ameaçou se separar.
VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES MIGRANTES É RECORRENTE
“É uma tragédia em muitas camadas onde é difícil determinar causalidades”, diz a psicóloga brasileira Bárbara Andrade, que construiu uma carreira voltada para o atendimento de imigrantes.
“Alguém que sai do seu país com uma mala de 23 quilos e o objetivo de refazer a vida deixa para trás várias coisas, como rede de apoio, trabalho e status profissional. Não são raros os momentos de estresse financeiro como o que essa família aparentemente enfrentava.”
Situações de violência de gênero, segundo Bárbara Andrade, são recorrentes entre mulheres migrantes, e afetam a família inteira. “Nenhum pai mantém o status de bom pai junto aos filhos se ele é um agressor. Para as crianças, assistir a cenas de violência é também uma forma de violência.”
Com o pai na cadeia, segundo ela, pode ter aumentado imensamente o estresse da mãe que, sem rede de apoio, tem que trabalhar e lidar com uma filha pequena e um filho adolescente. E em situações semelhantes há vários casos em que, na ausência do pai, o adolescente tenta assumir um papel de liderança na casa, gerando um conflito.
“Em famílias de imigrantes, muitas vezes são as crianças em idade escolar que primeiro dominam os códigos do novo país, o que dá a elas um certo poder dentro da família”, diz Bárbara.
“Um adolescente de 15 anos não tem mecanismos para cuidar de si próprio, imagine cuidar da família. Ele presencia situações de violência e tenta desenvolver uma resposta, num projeto de parentificação”, diz a psicóloga, que faz mestrado em uma universidade lisboeta e é fundadora de uma associação de psicologia intercultural presente em 40 países.
“A literatura mostra que crianças que presenciam violência doméstica têm maior possibilidade de se tornar vítimas ou agressores. Impressionou-me a quantidade de vezes que o adolescente pediu ajuda em diferentes instituições. É uma tragédia que poderia ter sido evitada se tivesse sido olhada com mais atenção.”








