Sexta-feira, 28/08/26

Justiça nega pedido de empresas de saneamento para suspender flúor na água, que previne cáries

Justiça nega pedido de empresas de saneamento para suspender flúor na água, que previne cáries
Justiça nega pedido de empresas de saneamento para suspender flúor – Reprodução

PAULO RICARDO MARTINS
FOLHAPRESS

A Justiça do Distrito Federal negou um pedido de liminar da Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento) para suspender temporariamente a adição de fluoreto à água distribuída no país pelos sistemas de abastecimento, medida que previne cáries.

A decisão, obtida pela reportagem, foi da 14ª Vara Federal Cível da SJDF (Seção Judiciária do Distrito Federal). A Justiça pediu que a União, que é ré no processo, seja citada para especificar as provas que pretende produzir.

“Medida dessa natureza recomenda prévia manifestação da União e exame mais aprofundado dos elementos técnicos pertinentes, inclusive quanto às consequências concretas da interrupção da fluoretação para a política pública de saúde bucal”, diz a decisão.

Procurada pela reportagem, a Abcon disse que pretende recorrer.

A diretora-presidente da entidade, Christianne Dias, diz em nota que não há ácido fluossilícico disponível no mercado nacional.

“Desde junho, levamos o problema cinco vezes ao Ministério da Saúde e seguimos sem uma decisão. Enquanto isso, cada vigilância sanitária decide por conta própria, e as empresas ficam expostas a autuações por uma situação que não está ao alcance delas”, escreveu.

“Se houver fornecedor com produto disponível e com os laudos exigidos pelo próprio Ministério da Saúde, as empresas vão comprar. Porém, até então, não há resposta da pasta a respeito da nossa demanda”.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Saúde não respondeu até a publicação do texto.

O acesso à água fluoretada é uma determinação da lei federal 6.050, de 1974. A adição de flúor à água distribuída às residências brasileiras diminui a prevalência de cáries na população, segundo o Ministério da Saúde. No entanto, sem a fluoretação, a água continua própria para consumo.

O pedido de interrupção da adição de fluoreto à água pela entidade vem na esteira da escassez de ácido fluossilícico, um subproduto da produção de fertilizantes à base de fosfato que é utilizado na fluoretação.

A Abcon solicitou à Justiça a suspensão da obrigatoriedade de fluoretação pelo prazo de 90 dias e a vedação de multas às concessionárias.

A companhia americana Mosaic, que fornecia o ácido fluossilícico às concessionárias, sofreu um baque após a escalada do preço do enxofre, que serve como matéria-prima nessa produção, em meio aos conflitos no Oriente Médio e ao fechamento do estreito de Hormuz.

De acordo com a Abcon, os fornecedores comunicaram formalmente a escassez às prestadoras no dia 12 de junho deste ano. A entidade diz ter começado, então, as tentativas de tratativas junto ao Poder Executivo para encontrar uma solução.

A associação afirma que as empresas registram atraso de cerca de três meses na entrega de ácido fluossilícico e aumento de preço superior a 300% no mercado spot (contrato à vista).

A entidade tem como associadas companhias como Aegea, Sabesp, Grupo Equatorial, Iguá, Copasa e Grupo Águas do Brasil.

Além da Abcon, a Aesbe (Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento) também protocolou uma ação pedindo a suspensão temporária da obrigatoriedade da adição de fluoreto à água.

PESQUISADORES LANÇAM CARTA ABERTA A AUTORIDADES

Diante da escassez de ácido fluossilícico, a Rede Vigifluor (Rede Brasileira de Vigilância da Fluoretação da Água de Abastecimento Público) lançou nesta quarta-feira (26) uma carta aberta pedindo que o Ministério Público estabeleça “as ações necessárias junto às autoridades para que sejam definidos planos e estratégias para superar as dificuldades decorrentes dos conflitos geopolíticos cujas consequências atingem a proteção sanitária da população brasileira”.

A rede reúne pesquisadores e profissionais que atuam na área de vigilância sanitária, focando a fluoretação da água. O documento é assinado por 25 pesquisadores, de universidades como Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), USP (Universidade de São Paulo), UnB (Universidade de Brasília) e UFBA (Universidade Federal da Bahia).

“A proteção conferida pelos níveis adequados de fluoreto na água beneficia atualmente aproximadamente 70% da população brasileira. Os tratamentos evitados com a prevenção representam uma enorme economia pública e no orçamento das famílias”, diz a Rede Vigifluor na carta.


T LB

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