Domingo, 14/06/26

A família que já nasceu hexa: brasilienses de seis dedos querem inspirar Brasil na Copa

A família que já nasceu hexa: brasilienses de seis dedos querem inspirar Brasil na Copa
A família que já nasceu hexa: brasilienses de seis dedos – Reprodução

Dos 22 integrantes da família Silva, que vive em Brasília (DF), 14 nasceram com seis dedos nas mãos e nos pés. A característica genética, conhecida como polidactilia, criou novos símbolos da busca pelo hexa. Enquanto o time de Ancelotti corre atrás da sexta estrela na Copa do Mundo 2026, esses brasilienses trazem – literalmente – o hexa nas mãos.

A condição genética vai além da curiosidade e virou até pesquisa científica: cientistas europeus pesquisaram a família para entender como o cérebro controla um dedo extra.

A mutação é sinônimo de orgulho, humor e identidade familiar, principalmente em época de Copa, na opinião de Silvia Santos da Silva, de 63 anos. “Eu já sou hexa. O Brasil é que tem que correr atrás”, brinca a servidora pública que atua na Secretaria de Turismo do governo do Distrito Federal.

Foi essa frase, publicada nas redes sociais junto com uma foto da própria mão, durante a Copa de 2014, que começou a construir a notoriedade da família. A postagem, feita no Facebook, viralizou.

A família passou a receber jornalistas de diferentes países. Veículos como Washington PostUSA Today e The Independent associaram os seis dedos ao sonho da sexta estrela da seleção brasileira. Em Águas Claras, bairro de Brasília onde mora boa parte dos familiares, os Silva passaram a ser conhecidos dessa forma: “Família Hexa”.

Novas expectativas na hora da gravidez

A condição genética é tão comum entre eles que influencia a ansiedade de uma gravidez. A expectativa sobre o sexo do bebê fica em segundo plano.

“Perguntamos se tem seis ou cinco dedos. É uma questão de torcida em prol do seis. Isso desde o ultrassom”, diz o advogado Assis Santos da Silva, 66 anos, irmão de Silvia. “Se tem cinco (dedos), aí a pergunta é se é menino ou menina”.

A história começou muito antes da fama das Copas. Há indícios de que a característica tenha surgido em gerações anteriores da família, ainda no Maranhão.

Foi Francisco de Assis Carvalho da Silva, pai de Silvia, quem transformou a diferença em motivo de orgulho. Advogado, músico e dono da carteira número 1 do Clube do Choro de Brasília, ele recebeu o apelido de “Six”. A partir daí, ensinou os filhos a enxergar os dedos extras sem constrangimento. Dos cinco filhos do seu Six, quatro herdaram a característica.

“Por causa do meu pai aprendemos a conviver com seis dedos e achar normal. Ele sempre mostrou que é natural, alegre, uma dádiva”, conta Silvia.

Colegas de escola sempre reparavam

A curiosidade das pessoas permanece. Colegas de trabalho querem saber como eles escrevem, seguram objetos ou usam ferramentas. Crianças perguntam, observam e pedem para ver as mãos.

Maria Morena, de 20 anos, filha de Silvana Santos da Silva, cresceu convivendo com esse interesse dos colegas de escola. A mãe diz que a família sempre procurou tratar a situação de forma aberta.

“Para evitar constrangimentos, eu sempre avisava às professoras que ela tinha seis dedos e que conseguia fazer tudo normalmente”, conta Silvana. “Quando as pessoas entendem que é algo natural, passam a encarar a situação com tranquilidade.”

Algumas alterações são necessárias, e a maioria delas se refere aos dedos dos pés. Uma das filhas de Silvia retirou o sexto dedo dos pés por questões estéticas, principalmente pela dificuldade de usar calçados abertos e sandálias. Os seis dedos não se encaixavam bem.

No caso dos homens, sapatos com bicos mais finos incomodam. As tarefas manuais envolvem jogo de cintura para usar uma tesoura ou pegar o lápis, por exemplo. Em vez de a caneta ficar entre o polegar e o indicador, eles dividem a mão com dois dedos de um lado e quatro do outro.

Pesquisas sobre o sexto dedo

Os seis dedos chamaram a atenção de cientistas europeus. Silvia e o filho, João de Assis, foram convidados para participar de pesquisas na Universidade de Freiburg, na Alemanha, em 2017. O objetivo era entender como o cérebro controla um sexto dedo funcional.

Em parceria com instituições britânicas e suíças, o estudo concluiu que pessoas com seis dedos plenamente desenvolvidos possuem músculos, nervos e áreas cerebrais específicas para controlar o dedo extra. Em vez de sobrecarregar o cérebro, a estrutura amplia as possibilidades de movimento.

Os pesquisadores observaram que os participantes conseguiam realizar tarefas complexas com apenas uma das mãos, executando movimentos independentes impossíveis para a maioria das pessoas com cinco dedos.

Para João de Assis da Silva Carneiro, hoje engenheiro de software, participar da pesquisa foi uma experiência marcante. “Foi uma oportunidade muito legal para descobrir como nossa biomecânica funciona. Além disso, é bom saber que podemos usar nossa característica para ajudar no desenvolvimento de ferramentas que possam beneficiar outras pessoas no futuro.”

Os cientistas não estudaram os Silva de Brasília por curiosidade. O objetivo foi usar os dados como um gabarito (blueprint) para a engenharia e a robótica. Se o cérebro humano tem capacidade de sobra para controlar um membro a mais, sem se sobrecarregar, os engenheiros podem, no futuro, criar braços ou dedos robóticos extras (próteses de aumento) para ajudar cirurgiões a operar.

Estadão Conteúdo

T LB

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