Quinta-feira, 17/09/26

‘Acho que vai envolver Milton Leite’, disse investigado sobre substituição de empresa suspeita de elo com PCC

‘Acho que vai envolver Milton Leite’, disse investigado sobre substituição de empresa suspeita de elo com PCC
‘Acho que vai envolver Milton Leite’, disse investigado sobre substituição – Reprodução

Documentos da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo indicam que o mandado de prisão contra o ex-vereador Milton Leite (União Brasil) foi baseado, principalmente, em duas circunstâncias em que seu nome foi mencionado por terceiros.

O nome dele aparece em um áudio encontrado em aparelho celular apreendido e nos depoimentos de policiais prestados à Corregedoria da Polícia Militar.

As duas citações a Milton tratam de supostas conexões dele com as empresas que foram alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024, que mira a infiltração da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) no transporte coletivo de ônibus da cidade de São Paulo.

Nenhuma outra prova contra ele, como pagamentos ou vínculos societários com as empresas ou pessoas investigadas, aparece nas representações da polícia e da Promotoria.

O ex-vereador não foi encontrado em casa e, por telefone, afirmou à reportagem que está fora de São Paulo e que não está foragido. “Vou me entregar em 24 horas”, disse ele na manhã desta quinta (17). Ele negou veementemente qualquer tipo de vínculo com o PCC.

Menções ao ex-vereador aparecem pela primeira vez numa conversa por aplicativo de mensagem em 11 de julho de 2024. José Daniel Satilite, sócio da empresa de ônibus Translider, conversava com um advogado sobre a possibilidade de substituição da empresa UPBus nas concessões de linhas da capital paulista após a deflagração da Fim da Linha.

Ambos, Satilite e o advogado, são suspeitos de integrar o PCC, segundo a Promotoria.

O empresário diz ao interlocutor que acreditava que seria necessário envolver Milton nas conversas para acertar a substituição da empresa. A sugestão para envolver o então vereador teria vindo do advogado Milton Milreu, que segundo a Promotoria também é suspeito de ser membro da facção.

“Eu falei com o doutor Milton [Milreu], referente à substituição da UPBus pela nossa empresa, lá, querendo ou não vai envolver o Milton Leite”, diz Satilite no áudio. “Eu falei ‘ah doutor, tudo bem, qualquer coisa a gente fala com o Milton Leite também”, ele continua.

Quatro dias depois, Satilite envia outro áudio ao mesmo interlocutor e diz que um representante dele iria se encontrar com Levi dos Santos Oliveira, então presidente da SPTrans (órgão municipal responsável por gerenciar o transporte por ônibus).

Nesse áudio, ele reitera que achava que o ex-vereador seria envolvido nas conversas sobre a substituição do contrato. “Acho que vai envolver Milton Leite, esse pessoal todo.”

A reportagem não localizou a defesa de Satilite. A reportagem entrou em contato por telefone e mensagens de texto com o escritório de uma advogada que já representou Milreu para pedir um posicionamento, mas não recebeu resposta.

Decisão de primeira instância havia negado o pedido do Ministério Público para prender o ex-vereador, assim como outros 12 dos 16 investigados. A prisão contra ele veio após apelação à 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo.

TRANSWOLFF

A decisão que decretou a prisão de Milton afirma que, além das menções ao seu nome em mensagens, há depoimentos de policiais militares investigados segundo os quais ele seria o dono de fato da Transwolff.

Entre os interrogatórios que estão nos autos do Tribunal de Justiça Militar, um relato que corresponde a essa descrição é o prestado em fevereiro de 2026 pelo policial militar Alexandre Aleixo Romano Cezário.
Ele afirmou que Milton seria o verdadeiro “dono” da Transwolff e que os diretores formais da empresa atuariam como “laranjas”. O militar afirmou na ocasião que “ouvia dizer” que isso ocorria e que não dispunha de provas.

Cezário teve a prisão preventiva mantida no processo em que é acusado de integrar um esquema de segurança privada prestada à empresa e a seus dirigentes.

O capitão Alexandre Paulino Vieira, que trabalhou com Milton quando o então vereador presidia a Câmara Municipal de São Paulo, apresentou uma versão diferente. Em depoimento, afirmou desconhecer qualquer relação dele ou de seus familiares com a Transwolff e negou ter recebido do ex-parlamentar determinações relacionadas a empresas de transporte.

Milton também é mencionado em mensagens extraídas de aparelhos apreendidos. Em uma conversa de 18 de agosto de 2023, inicialmente atribuída pela investigação ao sargento reformado Nereu Aparecido Alves, o remetente informou ao empresário Cícero de Oliveira, o Té, dirigente da Transwolff, que estava na inauguração de uma escola batizada com o nome da mãe do “chefe Milton”.

Os investigadores associaram a referência a Milton e identificaram o local como o Centro de Educação Infantil Nathalia Pereira da Silva.

Ao ser interrogado em 19 de fevereiro de 2026, porém, Nereu negou ter escrito a mensagem e afirmou que não esteve na inauguração. Segundo ele, o texto havia sido redigido pelo capitão Alexandre Paulino Vieira e encaminhado a Cícero.

CONTATOS

As representações da polícia e do Ministério Público afirmam que Milton foi mencionado nominalmente diversas vezes, mas trazem apenas essas duas circunstâncias em que ele é citado. Somados, os dois documentos têm 570 páginas.

“Embora o ex-vereador Milton Leite não esteja dentre os contatos de José Daniel Satilite, seu nome surgiu justamente no contexto da investigação da Operação Fim da Linha, onde foi apontado como o verdadeiro dono da empresa Transwolff”, diz documento apresentado pela Promotoria à Justiça.

Os promotores acrescentam que Satilite “demonstra extrema preocupação em dar ciência a Milton Leite dos fatos envolvendo a UPBus”.

“Nesta investigação detectou-se um estreito relacionamento entre o crime organizado, pessoas do círculo político, incluindo o presidente da Câmara dos Vereadores à época, o ex-vereador Milton Leite e servidores públicos”, diz o documento do MP-SP, reproduzindo trechos da representação da Polícia Civil.

“Chamou a atenção que os maiores e mais recentes escândalos envolvendo a infiltração do crime organizado no transporte público da capital, se deu na gestão de Levi de Oliveira à frente da SPTrans e de Milton Leite no comando da Câmara dos Vereadores.”

T LB

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