Por Juan Costa
Agência de Notícias CEUB
No asfalto quente da quadra comercial da quadra 414, da Asa Sul, em Brasília (DF), duas pessoas encontraram mais do que o trabalho de vigia de carros. Andrea, de 28 anos, e Jó, de 25, fincam o que lhes resta de mundo: o laço profundo que os une há quase uma década. Descobriram, ao relento e na hostilidade dos caminhos, uma história de amor.
Sob o sol brasiliense de 12h, ela caminha com uma altivez que desafia a escassez. Mulher alta, de cabelos presos com firmeza e com um piercing discreto no nariz, mantém a vaidade mesmo em situação de rua.
A história de Andrea começou em Samambaia, mas a memória familiar não se faz clara em sua mente. Deixada pela mãe ainda bebê na casa de uma “senhora”, acabou acolhida por andarilhos. Lembra-se de quando achava que era um menino, ainda sem saber se o corpo em que havia nascido se encaixava com o que realmente sentia dentro de si.
Ela
“Apesar de ter sido uma situação em que eu precisava de orientação, o tempo me mostrou que crescer sem ninguém me forçando a ser quem eu não era foi um alívio”, afirma Andrea.
“Eu me tornei o que eu queria ser, e ninguém se meteu”
O seu carisma foi a chave para abrir portas. Ela ajudava comerciantes para barganhar pratos de comida.
Ele
No caso de Jó, ele carrega a seriedade de quem cruzou o país fugindo da violência doméstica em Teresina (PI). Entre a fome e o peso de um carrinho de recicláveis na Cidade Estrutural, ele escolheu a liberdade das ruas aos 16 anos, para escapar das tensões familiares e traçar seu próprio rumo.
“Minha mãe apanhava do meu pai, até que um dia nós fugimos. Ela acabou sendo acolhida por outro homem, que deixou a própria casa para assumir nossa família — ela, eu e meus irmãos. Mas com o tempo, já em Brasília, eu e ele começamos a bater muito de frente.”
A vida a dois
O destino dos dois se uniu naquela mesma Estrutural, iniciando uma jornada de cumplicidade indiscutível. Hoje, a rotina do casal é ditada pelo movimento das quadras comerciais da Asa Sul. Trabalham juntos como guardadores de carros, conquistando a confiança de motoristas, a amizade de comerciantes e a garantia dos donativos de quem já se habituou a vê-los ali.
Mas a calçada também cobra seu preço. Andrea distribui cumprimentos sinceros aos transeuntes, mas esbarra na hostilidade velada de moradores que, segundo os zeladores do prédio, articulam formas de expulsá-los dali, incomodados com aquela presença que a arquitetura não previu.
Caminhar pelo Plano Piloto esconde dois pesos no dia a dia de Andrea: o de não ter uma casa e o de ser uma mulher trans em situação de rua. Nas calçadas, as pessoas quase nunca olham para ela com indiferença.
Cada passo entre as vagas de estacionamento vira uma luta contra os cochichos, sorrisos de canto e o preconceito, dizem eles diante de tanta rejeição. Ela mantém as costas eretas e usa a educação, que parece ter nascido na infância humilde como uma forma silenciosa de se proteger e exigir o respeito que merece.
“Através da educação quebrei o preconceito e consegui acessar tudo, desde conseguir um trabalho e dividir o espaço com outros guardadores de carro, até o direito de dormir em paz debaixo dos pilotis”.
Quando a noite cai e o comércio fecha as portas, o casal estende um colchão no cimento sob os pilotis residenciais, se aninham contra o frio e compartilham o cansaço acumulado.
Para Andrea, a “felicidade” é algo abstrato, colhida em pequenos instantes: o riso solto por uma piada de um comerciante ou o susto cômico ao acordarem certa noite com um pequeno saruê que os observava na penumbra. Enquanto alimentam o sonho de uma casa própria, eles resistem. Diante da dureza da cidade, o aconchego é o único teto que ninguém pode lhes tirar.








