Terça-feira, 05/05/26

Após câncer ósseo, estudante universitária orgulha-se dos passos e do caminho sem tabus

Após câncer ósseo, estudante universitária orgulha-se dos passos e do caminho sem tabus
Após câncer ósseo, estudante universitária orgulha-se dos passos e do – Reprodução

Por Anna Vitória de Carvalho
Agência de Notícias CEUB

Sentada na mesa de jantar, cabelos longos e bagunçados, Rebeca observa seu pai. Frederico, que sempre foi habilidoso com desenhos, segura uma cartolina. Com 8 anos de idade, a vontade de brincar e correr na rua era maior do que tudo, mesmo com aquela dor no calcanhar que a perseguia como uma pulga atrás da orelha. Ela sabia que estava doente e que deveria fazer uma escolha.

A decisão não parecia algo complicado: “Qual das opções vai deixar eu voltar a brincar mais rápido?”. Na cartolina, o pai desenhou dois pés. Um mostrava a parte de fora, levemente inchado, como de costume. O segundo mostrava a parte de dentro: as veias, os músculos e o osso, o calcâneo direito, com um tumor, várias bolinhas redondas, com altos níveis de CD99.

Diagnóstico

O diagnóstico chegou após meses de incerteza. O que os pais pensavam ser apenas o resultado da agitação de uma criança que pulava demais na escola não cedeu à fisioterapia nem ao gesso. Foi a ressonância que revelou a massa dentro do osso e a biópsia no SARAH que confirmou a agressividade do tumor.

Os médicos foram claros com Frederico e Fernanda, sua esposa: o índice metastático era altíssimo. Pela gravidade, a notícia era de que Rebeca teria pouco tempo de vida. Na mesa de jantar, o desenho apresentava o futuro. Se retirasse apenas o osso afetado, o pé atrofiaria no futuro, exigindo muletas ou andador para sempre. Se amputasse um terço da tíbia, ela usaria uma prótese. 

“A gente nem lembra”

Débora, a irmã do meio, tinha apenas 5 anos na época. Para ela, o câncer parecia uma “gripe um pouco mais forte”. Ela não via a gravidade que os adultos carregavam nos olhos, mas guardou um detalhe que Rebeca deixou passar: assim que a conversa sobre a cartolina acabou, a irmã correu para o quarto para chorar sozinha.

Enquanto a mãe enfrentava a doença da filha e o oitavo mês de gravidez da caçula, Raquel, Débora sentia a solidão de passar os dias com as avós. Ela queria estar com os pais, mas a rotina era ditada pelo hospital. Hoje, Débora não enxerga limitações na irmã, “A gente nem lembra no dia a dia que ela é amputada. Ela não deixa de fazer nada”.

Tratamento

Hoje, aos 26 anos, Rebeca transita pelos corredores da Biblioteca Nacional, onde estagia, com a mesma praticidade com que escolheu seu destino naquela mesa de jantar. Estudante de Biblioteconomia na UnB, ela lida com a prótese sem o peso do estigma ou das inseguranças que costumam marcar a juventude.

Ela recorda que o tratamento foi rápido, durando entre seis meses e um ano, mas deixou marcas profundas. Por causa da imunidade baixa, Rebeca quase não saía de casa. O cansaço físico e emocional transbordou em um estacionamento de supermercado, onde ela caiu aos prantos dentro do carro. Diante do esgotamento, disse à mãe que preferia que Deus a levasse a ter que continuar o tratamento.

A resposta veio no dia seguinte, em uma reunião no hospital: a amputação havia eliminado as células cancerígenas. Não haveria mais quimioterapia, apenas o acompanhamento de dez anos para garantir que o câncer não voltaria.

Vida veloz

A ficha sobre o que realmente aconteceu só caiu de forma tardia. Ao chegar em casa após dias de internação, Rebeca viu sobre a mesa a liturgia de um velório. Era de sua tia-avó Vera, que também lutava contra o câncer e não resistiu. Foi o choque de realidade que o desenho do pai tentou suavizar. Em 2019, já adulta, Rebeca passou por uma cirurgia de reparação, pois seu osso continuou crescendo naturalmente. A recuperação foi veloz, condizente com a naturalidade que ela adotou para a vida.

Hoje, para ela, tirar o equipamento para entrar na piscina ou caminhar na areia da praia nunca foi um tabu, mas uma extensão natural de sua realidade. Rebeca vê o período da vitória contra câncer como privilégio de ter mudado a forma de ver a vida.

T LB

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