São Paulo, 25 – Após dois dias seguidos de alta, em que atingiu o nível de R$ 5,22 e fechou nos maiores níveis desde fins de março, o dólar recuou frente ao real nesta quinta-feira, 25. Operadores afirmam que a baixa da moeda americana no exterior, após leitura de inflação nos EUA em linha com as expectativas, abriu espaço para ajustes e realização de lucros no mercado local.
A agenda doméstica carregada – marcada pelo IPCA-15 de junho abaixo das estimativas e pelo Relatório de Política Monetária (RPM) – teve impacto secundário na formação da taxa de câmbio. A avaliação é a de que, embora ainda veja a inflação acima da meta no horizonte relevante da política monetária, o Banco Central deixou a porta aberta para um corte adicional da Selic.
Com mínima de R$ 5,1668, o dólar à vista fechou em baixa de 0,46%, a R$ 5,1782, mas ainda apresenta leve alta no acumulado da semana (0,26%). A moeda americana avança 2,68% frente ao real em junho, após valorização de 1,82% no mês passado. No ano, as perdas, que chegaram a superar dois dígitos no início de maio, quando a taxa de câmbio rondava R$ 4,90, agora são de 5,66%.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em leve baixa no dia e rondava os 101,400 pontos no fim da tarde, após mínima de 101,305 pontos. O Dollar Index sobe mais de 2,40% no mês. A coroa norueguesa mostrou viés de alta com o avanço do petróleo, diante de relatos de ataques do Irã a uma embarcação no Estreito de Ormuz, a despeito das negociações de paz com os EUA. Entre pares do real, o peso mexicano foi destaque, ampliando os ganhos após o Banco Central do México (Banxico) anunciar manutenção da taxa de juros em 6,5% ao ano.
Medida de inflação preferida pelo Federal Reserve, o índice de preços de gastos de consumo (PCE, na sigla em inglês) e seu núcleo em maio vieram ligeiramente abaixo das expectativas. Em 12 meses, ambos rodam acima da meta de inflação, de 2%, com o índice cheio em 4,1%. A terceira leitura do PIB dos EUA no primeiro trimestre mostrou taxa anualizada de 2,1%, acima das expectativas, de 1,6%.
Segundo o economista-chefe para a América Latina da Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia, o ambiente global de dólar mais forte – na esteira de sinais de resiliência da economia dos EUA e do discurso duro do Federal Reserve – abalou o apetite por divisas emergentes. O real sofreu mais que pares em razão de preocupações de investidores com a piora no mix de política econômica, em especial a adoção de medidas de impulso fiscal.
“A possibilidade de medidas adicionais para dar suporte ao consumo e o aumento do ruído político com as eleições pesam sobre a moeda, embora o real ainda se beneficie do ‘carry’ elevado, o maior entre pares e na comparação com a maioria das divisas emergentes”, afirma Abadia.
Para o economista, os principais determinantes da taxa de câmbio daqui para a frente serão a postura do Fed, o apetite global por risco e os preços das commodities, em especial o petróleo e o minério de ferro. Do lado interno, investidores vão monitorar a condução da política fiscal e a possibilidade de o Copom continuar a cortar os juros sem provocar uma deterioração das expectativas de inflação.
“Uma depreciação desordenada do câmbio não é meu cenário-base, mas o balanço de riscos se tornou menos favorável ao real. Se as taxas dos Treasuries permanecerem altas por mais tempo e o ruído doméstico aumentar, o real pode ficar pressionado”, afirma Abadia, acrescentando que uma postura mais cautelosa do Copom pode limitar a depreciação da moeda.
Pela manhã, o IBGE informou que o IPCA-15 subiu 0,41% em junho, abaixo da mediana das Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) (0,44%). Casas relevantes como Bradesco e Itaú ressaltaram a composição mais benigna do índice, com desaceleração em serviços. O RPM trouxe projeções de inflação acima do centro da meta, no acumulado em 12 meses, até pelo menos o quarto trimestre de 2028.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, comentou o ruído provocado pelo comunicado do Copom na semana passada, quando o colegiado avaliou “trajetórias alternativas” que levariam a inflação à meta no primeiro trimestre de 2028. Na ocasião, parte dos economistas argumentou que o BC “esticou” o horizonte relevante para reduzir a Selic, apesar da piora do balanço de riscos para a inflação. “Uma coisa não pode ser confundida com a outra, você pode ser mais claro no comunicado sem precisar comunicar o que você vai fazer”, disse Galípolo, em coletiva sobre o RPM.
O time de economistas do Itaú, comandado pelo ex-diretor do BC Mario Mesquita, avalia que o RPM “reforça a mensagem de que o ciclo de calibração está próximo do fim e seguirá dependente de dados, embora as projeções e a descrição do cenário no relatório permitam preservar a flexibilidade sem comprometer a convergência da inflação no novo horizonte relevante”.
Bolsa
O Ibovespa fechou em alta e acumula valorização superior a 2% na semana, nesta quinta-feira, 25, amparado no alívio de um Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) abaixo do esperado e com qualitativo melhor. Gestores de renda variável também entenderam que o Relatório de Política Monetária (RPM), seguido pela coletiva do Banco Central (BC), manteve porta aberta para uma flexibilização nos juros, ainda que possa haver pausas no meio do caminho.
Entre as blue chips, destaque para a recuperação da Vale. As ações da Petrobras fecharam sem sinal definido, destoando do avanço de 2% da commodity, assim como o setor financeiro.
Após avançar 1,62% na máxima intradia (173.277,09 pontos), o Ibovespa reduziu alta à tarde, acompanhando a maior cautela vista na curva de juros – esta, por sua vez, se deu pelo avanço do petróleo e por movimentos de ajuste. Por fim, a referência da B3 fechou aos 171.990,2 pontos, avanço de 0,87%, ainda distante da mínima dos 170.507,92 pontos, com variação zero, da abertura. O giro financeiro totalizou R$ 22,04 bilhões. No mês, o Ibovespa cai 1,03% e no ano, sobe 6,74%.
O BC trouxe uma comunicação dura nesta quinta-feira, mas que ainda assim não descarta o corte de juros e o IPCA-15 continua ajudando neste raciocínio, avalia o estrategista de investimentos e sócio da GT Capital, Nicolas Gass, pontuando que este foi o maior direcionador para a Bolsa. “O mercado esperava uma comunicação ainda mais dura do BC, parecida com a que foi do Fed, mas as falas dos dirigentes do BC não indicaram que o corte de juros ficará para trás”, avalia.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou em coletiva que no atual momento, de incerteza, nem a literatura recomenda o uso de guidances. Disse ainda que o mercado está “no direito de pedir essa informação” sobre próximos passos da autarquia, mas que o “BC vai preservar o seu direito de não dar essa informação quando ele achar que não interessa”.
Na avaliação do Bradesco, em relatório assinado pelo diretor de pesquisa econômica Fernando Honorato Barbosa, o Copom pode optar por uma pausa seguida de retomada no processo de calibração da Selic, conforme já havia indicado na ata da reunião de junho.
Ainda que o RPM tenha reforçado preocupação com a inflação alta, dá maior clareza de direcionamento da continuidade de calibração dos juros por parte do BC, acrescenta o head de renda variável da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno. “O BC disse que vai acompanhar dados de inflação, e o mercado acredita que irá continuar com o afrouxamento à medida que forem sendo vistos sinais de que pode cortar juros. O IPCA-15 um pouco abaixo do esperado ajuda nisso.”
O IPCA-15 desacelerou de 0,62% em maio para 0,41% em junho, em variação abaixo da mediana (0,44%) da pesquisa Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado). Em nota, a economista Mariana Rodrigues, da SulAmérica Investimentos, afirma que o dado ajuda a manter a discussão de que a inflação pode já ter atingido o seu pico em 2026, mencionando também composição qualitativamente melhor, com surpresa baixista em serviços e industriais.
Moliterno nota ainda que o mercado pode estar começando a apostar mais em risco novamente, com o conflito no Oriente Médio se direcionando para o término. “Assim, voltam as preocupações internas. A inflação, com o impacto do petróleo diminuindo, também acaba arrefecendo”, pondera.
Ainda assim, nesta quinta o petróleo interrompeu uma sequência de três quedas consecutivas e avançou mais de 2%, diante de relatos do The Wall Street Journal de que o Irã atacou um navio dos EUA no Estreito de Ormuz. Investidores seguem de olho na vigência do acordo entre os dois países, enquanto equilibram a perspectiva de aumento da oferta no Oriente Médio com as preocupações em torno da demanda.
Em termos micro, Petrobras PN subiu 0,42%, mas a ON fechou em leve baixa de 0,12%. Já Vale (+1,20%) registrou recuperação, na linha da alta de metais básicos – exceção ao minério de ferro, que caiu. Depois de valorização generalizada mais cedo, os bancos fecharam mistos, com Unit do Santander Brasil cedendo 0,68%, maior baixa, e Itaú PN liderando os ganhos do setor a partir da alta de 1,78%.
Juros
Os juros futuros fecharam sem direção única, com queda nos vencimentos curtos e viés de alta na ponta longa. Pela manhã, prevalecia o sinal de baixa em toda a curva, ainda amparado pela reação ao IPCA-15 de junho e pela leitura do Relatório de Política Monetária (RPM) que reforçou a expectativa de novas quedas da Selic. Mas o alívio perdeu força ao longo da tarde, refletindo a aceleração dos ganhos do petróleo e ajustes técnicos relacionados ao leilão de prefixados do Tesouro.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caía de 14,128% na quarta no ajuste para 14,090%. O DI para janeiro de 2028 tinha taxa de 14,250%, de 14,320% na quarta no ajuste. A do DI para janeiro de 2029 passou de 14,378% para 14,330% e a do DI para janeiro de 2031 subiu de 14,362% para 14,390%.
Após três sessões seguidas com taxas em baixa, o mercado ainda encontrou fôlego para seguir devolvendo prêmios pela manhã, na esteira do IPCA-15 de junho, cuja alta de 0,41% veio abaixo da mediana das estimativas (0,44%) coletadas pelo Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado). Houve também bom comportamento dos preços de abertura.
Na segunda etapa, as taxas longas zeraram a queda, na medida em que os preços do petróleo passaram a subir mais de 2%, com a tensão no Oriente Médio voltando a piorar. Segundo o The Wall Street Journal, o Irã atacou um navio de carga no Estreito de Ormuz, informação que reduziu o otimismo em relação ao cumprimento das condições do memorando de entendimento assinado na semana passada junto com os EUA que pode viabilizar o fim da guerra.
Além da questão externa, o gestor de renda fixa da Armor Capital, Igor Campos, afirma que também pesaram sobre o mercado operações relacionadas ao leilão do Tesouro. “Parece que o mercado não conseguiu absorver muito bem”, disse, destacando que os volumes de prefixados voltaram aos níveis pré-guerra. “Não foram lotes tão grandes, mas maiores do que o Tesouro vinha conseguindo colocar.” Foram vendidas integralmente as 19 milhões e as 4 milhões de NTN-F ofertadas.
De todo modo, o alívio do IPCA-15 somado à avaliação do RPM e às entrevistas do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do diretor de Política Econômica e de Assuntos Internacionais, Paulo Picchetti, reforçaram as apostas de corte da Selic em agosto. Na pesquisa realizada pelo Projeções Broadcast após a divulgação do RPM, a expectativa de corte de 0,25 ponto no Copom de agosto é majoritária, apontada por 17 entre 29 casas consultadas, enquanto 12 esperam uma pausa no ciclo de calibragem.
As trajetórias de juros avaliadas pelo Copom foram tema de discussões intensas no mercado nos últimos dias. Galípolo explicou que estas levam em conta diferentes opções de pausa e retomada dos cortes – o chamado “stop-and-go”, no qual uma parada não significa fim do ciclo, ratificando a leitura do mercado feita após o comunicado. “Eram cenários que simulavam alternativas de quando pausar e quando seria possível retornar esse ciclo de calibragem para produzir a convergência”, disse o presidente do BC.
Na Manchester Investimentos, o especialista em renda fixa Eduardo Amorim não vê o alívio recente da curva como sintoma de uma “normalização definitiva do cenário”, dada a comunicação do Copom lida como ainda falha e um cenário externo ainda pouco favorável, com destaque para o risco de persistência dos juros americanos em patamar elevado, o que mantém as taxas dos Treasuries pressionadas e limita o apetite por risco em mercados emergentes. “Esse pano de fundo tende a sustentar o dólar e reduz o espaço para fechamento mais forte dos juros no Brasil”, afirma.
Estadão Conteúdo








