Quinta-feira, 13/08/26

Área técnica do Cade vai dar aval a operação entre MSC e Maersk em disputa pelo leilão do Tecon 10

Casa Civil recomenda disputa sem restrição para armadores no leilão de megaterminal em Santos
Casa Civil recomenda disputa sem restrição para armadores no leilão – Reprodução

GUILHERME PIMENTA
FOLHAPRESS


A área técnica do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) vai dar aval à operação apresentada pelos gigantes internacionais Maersk e MSC para reorganizar o controle do Brasil Terminal Portuário (BTP), em Santos, no âmbito da disputa das duas armadoras pelo leilão do Tecon Santos 10.

Segundo apurou a reportagem com integrantes do órgão, a operadora filipina International Container Terminal Services Inc. (ICTSI), que tenta impedir a inscrição delas no leilão e quer ser admitida como terceira interessada nos processos, deve ter seu pedido rejeitado pelo Cade.

O pedido foi apresentado pelas empresas em julho -elas buscam um aval prévio da autoridade de defesa da concorrência para participarem do leilão, que deve proibir a presença de incumbentes no porto. Por meio de suas subsidiárias, Maersk e MSC são sócias, em partes iguais, do BTP, um dos maiores terminais portuários no estado.

Pela proposta levada ao Cade, se a Maersk vencer o futuro leilão do Tecon Santos 10, a MSC ficará com a participação da Maersk no BTP. Se a vencedora for a MSC, ocorrerá o movimento inverso: a Maersk assumirá integralmente o BTP.

A companhia filipina, que concorre com as empresas no leilão, afirma que Maersk e MSC não estão apenas reorganizando a sociedade no BTP, mas estruturando um acordo para dividir entre si os dois principais ativos de contêineres envolvidos na expansão do porto de Santos.

Mesmo com aval da Superintendência-Geral, o caso ainda poderá ser levado ao Tribunal do Cade caso algum conselheiro peça uma análise em até 15 dias. Como o processo é analisado em rito sumário (simplificado), a decisão de aprovação deve sair nos próximos dias -o Cade não trabalha, neste momento, com a possibilidade de prorrogar o tempo de análise.

A estratégia permite que as duas maiores armadoras do mundo continuem habilitadas a disputar o novo terminal sem manter simultaneamente a participação conjunta no BTP. O pedido foi apresentado pelas empresas sob o argumento de que a operação seria uma reorganização societária simples, condicionada ao resultado do leilão.

Mesmo que ainda não tenha a publicação do edital, integrantes das empresas defendem que as sinalizações dadas pelo governo até o momento são suficientes para submeter a análise ao Cade.

O processo em análise no órgão antitruste abriu uma nova frente de disputa em torno do leilão. O Tecon Santos 10 é o maior projeto de expansão da capacidade de contêineres do porto de Santos.

O terminal deverá receber investimentos de cerca de R$ 6,4 bilhões da empresa vencedora, com amplo aumento na capacidade projetada para cargas.

O projeto se arrasta há anos por causa de uma disputa sobre quem poderá participar da licitação, até agora sem definição final pelo governo.

A modelagem inicialmente defendida pela Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) restringia a participação de empresas que já operam terminais de contêineres em Santos.

O TCU (Tribunal de Contas da União) foi além e defendeu também restrições à participação dos grandes armadores. O argumento é que a entrada de incumbentes poderia aumentar a concentração em um mercado que já é altamente concentrado.

A discussão mudou neste ano depois que a Casa Civil passou a defender uma solução que permitiria a participação de empresas já instaladas, desde que elas se comprometessem a vender seus ativos existentes caso vencessem o leilão. Ainda assim, não há manifestação final nem publicação do edital.

Mas mesmo com essa indicação prévia do Palácio do Planalto, abriu-se espaço para que Maersk e MSC estruturassem o acordo, agora submetido ao Cade. Assim, um futuro aval do órgão antitruste é encarado como uma certidão de aptidão para o leilão.

Membros do TCU dizem, sob reserva, que se o governo decidir alterar o modelo do edital a corte de contas terá de fazer, novamente, uma análise de viabilidade, o que pode atrasar ainda mais o certame. Além disso, o tribunal poderá discordar do Executivo e reafirmar que incumbentes e armadores não poderão participar do leilão.

Na manifestação ao Cade, a rival filipina alega que o acordo entre Maersk e MSC não produz desconcentração efetiva, porque uma das armadoras ficará com o BTP e a outra com o Tecon Santos 10 caso vença o leilão. Segundo a empresa, o resultado seria a manutenção das duas incumbentes no mercado, apenas com a troca dos ativos controlados individualmente.

A ICTSI sustenta que, em 2025, Maersk e MSC responderam juntas por 49,1% da demanda de movimentação de contêineres em Santos.

A empresa também diz que o acordo poderia configurar coordenação entre concorrentes para reduzir riscos no próprio leilão do Tecon Santos 10, e chegou a pedir a abertura de um processo para investigar possível divisão de mercado.


T LB

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