Sábado, 09/05/26

Bandas de rock do DF são retiradas do palco em evento de carros antigos

Bandas de rock do DF são retiradas do palco em evento de carros antigos
Bandas de rock do DF são retiradas do palco em – Reprodução

O que deveria ser uma celebração da cena autoral na “Capital do Rock” transformou-se em um cenário de hostilidade e denúncias de discriminação. O projeto “Som de Garagem”, realizado dentro da programação do evento Brasília Auto Indoor, foi marcado pelo cancelamento do show de bandas da cidade, após organizadores interromperem apresentações e solicitarem a redução drástica do volume das bandas participantes.

A tensão começou logo no primeiro dia de apresentações, na sexta-feira (1º), com reclamações pontuais sobre o volume. No entanto, o conflito escalou no segundo dia, quando a organização exigiu que o sistema de som (P.A.) fosse reduzido em 50% logo no primeiro “duelo de bandas”.

Estevam Teixeira, produtor cultural da cena underground de música autoral em Brasília— convidado para a função devido à sua influência na divulgação de bandas locais — relata um tratamento desrespeitoso por parte dos responsáveis pelo evento. Segundo ele, o dono do Brasília Auto Indoor teria afirmado que “se soubesse que era esse tipo de banda, não teria aprovado”, alegando esperar um repertório focado exclusivamente no rock dos anos 80.

A produção do “Som de Garagem” afirma possuir registros que comprovam o envio antecipado de todo o material das bandas selecionadas, comoreleases, nomes dos integrantes e material audiovisual (áudio/vídeo). “Eles receberam tudo previamente. Falar isso na hora é um descaso total com o meu trabalho e com as bandas”, desabafou o produtor.

Expulsão do palco

O momento de maior tensão ocorreu quando o dono do evento teria subido ao palco para expulsar uma das bandas enquanto esta executava um cover do Black Sabbath. Para os envolvidos, o episódio não se trata apenas de uma divergência técnica sobre decibéis, mas de algo mais profundo.

“Para mim, o nome disso é preconceito. Um preconceito ao rock na cidade do rock”, afirma Estevam.

Desrespeito

O músico e produtor Augusto “Guto” Mota, que participaria do “Duelo de Bandas” com seu grupo de Deathcore, a banda Mota, descreveu o ambiente do evento como hostil e desorganizado. Segundo Guto, os problemas começaram com atrasos causados pela inserção de atrações de última hora, não previstas no cronograma, e culminaram em uma postura agressiva da organização quanto ao som das bandas de rock.

O músico relata que representantes do evento interromperam as apresentações de forma exaltada, exigindo o desligamento dos sistemas de som (P.A.), o que levou ao cancelamento do show de sua banda antes mesmo de começarem. Para Mota, o episódio reflete uma falha grave de gestão e um preconceito estético.

“A estrutura estava lá — um palco grande, luzes — mas eles não queriam que a gente a aproveitasse. As bandas tiveram o som desligado em cima do palco. Ficamos de 11h da manhã até as 15h nessa inutilidade. Tinha gente que deixou parente em casa para cuidar, outros trabalhos; nós nos dedicamos ao evento e fomos tratados desse jeito”, desabafou Guto. “Nós não somos ratos de laboratório para testes, do tipo: ‘ah, no próximo evento vou tratar melhor’. Foi desorganização. O nosso show era de apenas 20 minutos, não ia atrapalhar o percurso do evento.”

O músico criticou, ainda, a falta de competência da organização para avaliar quais as bandas haviam sido selecionadas para o evento. “Eles foram incompetentes. Não verificaram as bandas que iam tocar para poderem trocar antes; nos deixaram na mão, humilhados e exaustos. Só aceitaram que eram incompetentes na nota, mas nada fizeram.”

O músico destaca que houve investimento pessoal (pagamento de ator para o show, transporte de equipamento e produção de material de divulgação) que foi ignorado pela organização. “Foi um preconceito com o rock mais pesado. No sábado, eram bandas de Metal, Hardcore e Deathcore. Se eles são produtores de um evento de alto valor, isso deveria ter sido honrado”, concluiu.

Para o diretor do Setorial Cultura Rock, João Paulo Mancha, a situação precisa de reflexão, uma vez que ocorreu em uma cidade que tem o gênero profundamente atrelado com a cidade.

“O Setorial Cultura Rock vem trabalhando pela valorização do rock como patrimônio cultural do DF. O cancelamento do duelo de bandas desvaloriza a cena como um todo. Essa foi uma situação “pesada demais” para acontecer em plena a Capital do Rock”, lamentou. “Enquanto coletivo que trabalha pela cidade e pela cena do rock, esperamos que a organização do evento reavalie a fundo o ocorrido e realize a reparação junto às bandas e os profissionais envolvidos”, concluiu Mancha.

Outro lado

Em nota enviada à nossa reportagem, a organização do Brasília Auto Indoor esclareceu os motivos que levaram ao cancelamento das apresentações de rock e respondeu às críticas sobre a gestão do evento.

Segundo aorganização, o cancelamento não foi deliberado, mas decorrente de um problema acústico no pavilhão coberto. O volume das bandas teria prejudicado o funcionamento de outras áreas, como a praça de alimentação e a arena de e-sports. Houve um impasse técnico ao solicitarem a redução do volume, e não houve acordo com as bandas, resultando na suspensão dos shows.

Sobre o uso de verba pública, informou que o orçamento principal foi destinado à estrutura e logística do projeto original. A “batalha de bandas” foi uma iniciativa complementar para valorizar a cena local, sem custos adicionais ao erário. A prestação de contas será apresentada integralmente dentro dos prazos legais.

A organização lamentou, ainda, o mal-entendido sobre a frase, explicando que o termo foi usado por um integrante da equipe para elogiar a potência das bandas, e não como crítica. Admitiram, contudo, que falharam no planejamento ao não prever que o som “poderoso e autêntico” dos grupos seria incompatível com a acústica do local.

Como medida reparadora, os organizadores assumiram o compromisso de realizar estudos acústicos detalhados em edições futuras e revisar o processo de curadoria. O objetivo é garantir que a estrutura técnica suporte o perfil artístico das bandas convidadas, evitando novos transtornos à cena cultural brasiliense.

Em nota publicada no Instagram do Brasília Auto Indoor, a organização do Brasília Auto Indoor 2026 lamentou o ocorrido, reconhecendo que a situação gerou frustração e desrespeito aos artistas e ao público. A gestão do evento atribuiu o conflito a um “desalinhamento interno no processo de curadoria”, que teria resultado em apresentações fora do perfil planejado.

A nota admite que as intervenções feitas pela equipe não refletiram os valores da organização, mas negou qualquer intenção de desvalorizar a cena local. O comunicado encerra informando que medidas internas estão sendo adotadas para corrigir processos de comunicação e garantir que episódios de falta de alinhamento e desrespeito não voltem a acontecer.

Nota de esclarecimento

A organização do Brasília Auto Indoor 2026 vem a público se manifestar sobre os acontecimentos envolvendo apresentações musicais no palco principal do evento.

Sabemos que o que ocorreu gerou frustração e sentimento de desrespeito, especialmente para os artistas que se prepararam, se deslocaram e se dedicaram para estar conosco, e também para o público presente. E por isso, lamentamos sinceramente a forma como essa situação foi conduzida.

Houve um desalinhamento interno no processo de curadoria das bandas, o que resultou em apresentações fora do perfil planejado para a programação do evento. Durante esse cenário, intervenções foram realizadas de forma que não refletiram o cuidado e o respeito que são valores da nossa organização.

Reforçamos que em nenhum momento houve a intenção de desvalorizar os artistas ou a cena local. Reconhecemos a importância de cada profissional envolvido e o quanto a cultura e a música são essenciais para a experiência que buscamos construir.

Já estamos adotando medidas para corrigir nossos processos internos e garantir que situações como essa não se repitam, com mais alinhamento, organização e respeito em todas as etapas.

Embora o Brasília Auto Indoor não seja um evento destinado exclusivamente à música, seguimos comprometidos com a valorização da cultura, dos artistas e com a entrega de uma experiência positiva para todos.

Lamentamos o ocorrido e agradecemos a compreensão.

Organização Brasília Auto Indoor 2026

T LB

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