Sábado, 03/10/26

Brasil rejeita chamar Nicarágua de ‘ameaça regional’ em documento da OEA que cria grupo de negociação

Brasil rejeita chamar Nicarágua de ‘ameaça regional’ em documento da OEA que cria grupo de negociação
Brasil rejeita chamar Nicarágua de ‘ameaça regional’ em documento da – Reprodução

DANIELA ARCANJO
FOLHAPRESS

A OEA (Organização dos Estados Americanos) aprovou por consenso, nesta sexta-feira (2), uma resolução que cria um grupo de diálogo com a Nicarágua no momento em que a ditadura avança contra o pouco que resta de instituições democráticas no país.

O raro momento de unidade na região, no entanto, não evitou pontos de divergência no texto apresentado por algumas das principais nações governadas pela direita no continente: Argentina, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Paraguai, Peru e Estados Unidos. Cinco países aprovaram o documento com notas de rodapé para expressar discordâncias, incluindo o Brasil.

“O Brasil se dissocia de qualquer intenção, inclusive indireta, de caracterizar a situação na Nicarágua como uma possível ameaça à paz e à segurança regionais, cuja definição se situaria na competência do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, escreveu o país no trecho segundo o qual muitos dos atos do regime “têm efeitos extraterritoriais que ameaçam a paz e a segurança do Hemisfério”.

“As repercussões da situação da Nicarágua em países vizinhos, no que concerne a atividades ilícitas transfronteiriças, devem ser abordadas mediante o uso dos mecanismos disponíveis na OEA para a cooperação jurídica em matéria penal”, completam os representantes do Itamaraty na organização.

Durante a votação na sede da organização, em Washington, o representante do Itamaraty, Benoni Belli, afirmou nesta sexta que “atuar com responsabilidade não significa deixar de ser firme no propósito de defender os princípios democráticos e os direitos humanos”. “A firmeza deve-se fazer acompanhar de instrumentos que possam produzir resultados duradouros, sem servir de pretexto para ações contrárias ao direito internacional”, disse.

Ao longo da semana, o Brasil já havia tentado retirar as menções à paz e à segurança do hemisfério —uma clara marca da política externa dos EUA, que têm restabelecido sua influência na região com base no argumento da luta contra o narcotráfico.

Além disso, Brasília sugeriu a criação de um “Grupo de Personalidades Eminentes para a Nicarágua”, em vez de um “Grupo Ministerial de Acompanhamento”. O primeiro seria formado por “ex-chefes de Estado ou ex-ministros das relações exteriores, escolhidos (…) com base em sua idoneidade moral, independência e experiência em mediação política”; o segundo, por “Estados membros designados pela Presidência” da organização.

Nos dois casos, as nações acataram apenas parcialmente as solicitações do Brasil.

O documento original tinha três citações de uma ameaça hemisférica, além de uma menção a “atividades malignas de pessoal de segurança proveniente de fora do hemisfério” na ditadura —esta última, “felizmente retirada do texto após longas horas de negociação”, afirmou Belli durante a votação do texto nesta sexta.

“Afinal, quem determinaria quais atividades extrarregionais são malignas? E o que dizer das interferências intrarregionais em eleições democráticas e outros assuntos internos? Essas seriam benignas?”, continuou, em uma clara referência às tentativas dos EUA de interferir em pleitos da região no último ano.

O texto permaneceu com uma menção à ameaça à paz regional, alvo da nota de rodapé do Brasil, do Uruguai e da Costa Rica. “Queremos uma região que, sob ameaça do uso da força e da punição coletiva, seja formada por Estados vassalos?”, afirmou Belli em Washington. “O objetivo é garantir a democracia e os direitos humanos ou encontrar pretextos para dominar países pela força de modo a reproduzir vetustas práticas colonialistas?”

O Grupo Ministerial, por sua vez, será “de caráter voluntário, aberto a todos os Estados membros, representados por seus Ministros das Relações Exteriores ou por quem designem para representá-los, com base em uma representação geográfica equilibrada”, de acordo com a versão final do texto. A entidade deve começar seu trabalho em 30 dias.

Belli reiterou em sua fala que “é extensa e grave a lista de violações no país”, citando prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados, tortura, confisco de bens, censura e ataques à liberdade religiosa. “Nossa total solidariedade às vítimas e a seus familiares.”

A prática de adicionar uma nota de rodapé em documentos do tipo está mais comum desde que o multilateralismo começou a ser colocado à prova nos últimos anos, e temas que outrora levavam a consenso nesses espaços, como aqueles relacionados a gênero e raça, tornaram-se polêmicos.

No caso desta sexta, a divergência diz respeito à leitura sobre a autonomia da América Latina, mas mantém a separação ideológica da região. O Uruguai, um dos últimos países governados pela esquerda na América do Sul, também adicionou uma nota de rodapé no trecho que trata o regime como uma ameaça regional.

“O Uruguai não concorda que [a Nicarágua] possa ser caracterizada como potencial ameaça à paz e à segurança de todo o Hemisfério, decisão que, em todo caso, caberia ao Conselho de Segurança das Nações Unidas”, afirmou, em linha com a argumentação brasileira.

T LB

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