Quarta-feira, 29/04/26

Brasiliense que trabalha no Capitólio, nos EUA, atua em políticas por imigrantes e diz que família não descola de passaportes

Brasiliense que trabalha no Capitólio, nos EUA, atua em políticas por imigrantes e diz que família não descola de passaportes
Brasiliense que trabalha no Capitólio, nos EUA, atua em políticas – Reprodução

Por Amanda Martins
Agência de Notícias CEUB

O brasiliense Matheus Monteiro, de 25 anos, ocupa o cargo de correspondente legislativo de um deputado democrata nos Estados Unidos. Ele trabalha no Capitólio, que é onde se reúnem os congressistas no país. Cabe a ele escrever respostas em nome do gabinete, organizas demandas da população e participar da preparação de materiais para decisões políticas.

O gabinete é pequeno. Cerca de nove pessoas. Cada uma cobre várias áreas ao mesmo tempo. Ele diz que tenta levar um “calor brasileiro” para o ambiente. Aos poucos, isso se traduz na facilidade de transitar entre equipes. De se aproximar de colegas de áreas diferentes. De construir relações que não ficam restritas ao trabalho.

Mas há temas que não ficam no gabinete. A imigração é um deles.

“Como brasileiro e imigrante, você vai ter uma compaixão maior por imigrantes aqui nos Estados Unidos”, afirma. Em um momento de endurecimento das políticas migratórias, o tema atravessa também a vida fora do trabalho.
Mesmo com a situação migratória regular, a família passou a viver com cautela. “Os meus pais hoje andam com o passaporte em mãos a todo momento.”

O gesto é pequeno, mas constante.

Políticas públicas
No gabinete, essa experiência se transforma em ação. Um dos projetos de que ele mais se orgulha, foi desenvolver uma ficha chamada “Know Your Rights” (Conheça seus direitos) e traduzi-la para o português.

Segundo ele, é um jeito de garantir que o imigrante saiba que não está sozinho. “O objetivo é mostrar que eles têm direito ao devido processo legal, que não precisam abrir a porta de casa se os agentes não tiverem um mandado”

A caminhada até D.C. teve seus obstáculos. Para manter o sonho vivo na capital caríssima, morou de favor até conseguir se estabelecer. Começou como assistente administrativo, atendendo ligações e gerenciando estagiários, e aos poucos, foi se aproximando do trabalho legislativo.

Ideais em prática
A política, para ele, não é abstrata. O primeiro estágio veio por tentativa direta. Ao saber de uma vaga no gabinete de um deputado local em Orlando, entrou em contato. Conseguiu. Depois vieram outras oportunidades, até a mudança para Washington.

Em 2018, já nos Estados Unidos, outro episódio ajudou a dar direção a essa inquietação. O tiroteio em uma escola em Parkland marcou o ano.

“A maneira como a comunidade reagiu me comoveu muito. Vi alunos sobreviventes se organizarem em um lobby poderoso para passar legislações mais restritas”.
Observando colegas de sua idade transformarem o luto em movimento político, ele entendeu que a política era o caminho para mudanças reais na vida das pessoas.

Crescer no Brasil teve peso nisso. “No Brasil, a desigualdade está na sua cara. Você é constantemente confrontado com o fato de que a sociedade é organizada de um jeito onde alguns têm muito e outros não têm nada.”

Enquanto alguns acumulavam estágios, ele acumulava turnos. A diferença não era só de currículo. Era também de ponto de partida. A política não começou como carreira. Começou como inquietação.

Matheus durante sua formatura na UCF, após anos conciliando estudo e trabalho. Foto: arquivo pessoal
Ele recorda que, no primeiro dia no gabinete, entre corredores que até então só conhecia pela televisão, a sensação era de realizar algo que antes parecia distante demais.

Ao redor, colegas formados nas Ivy League (rede de universidades particulares), jovens que, como ele mesmo descreve, se prepararam desde cedo para chegar ali.

Matheus em frente ao Capitólio, onde hoje atua profissionalmente. Foto: arquivo pessoal 

Formação

Porém, a trajetória não foi fácil. Chegou aos Estados Unidos em 2017, aos 17 anos, sem um plano definido e com poucas opções. Entrou em uma community college na Flórida. Era o que estava ao alcance naquele momento.

Mais tarde, conseguiu uma bolsa e se transferiu para a University of Central Florida (UCF), onde se formou em Relações Internacionais e Ciência Política. A rotina não se parecia com a da maioria dos colegas. “Eu não tinha o suporte de poder somente estudar. Sempre tive que trabalhar durante a faculdade.”

Pausa

Fora do trabalho, o ritmo desacelera.

Ana Paula, esposa de Matheus e para ele, Paulinha, passou a acompanhar de perto essa rotina depois de se mudar para os Estados Unidos, após anos de relacionamento à distância. “É um trabalho com muita responsabilidade. Tem muita pressão, muita autocobrança. E os assuntos que ele lida acabam afetando ele também.”

Dentro de casa, eles tentam construir pausas.

Cozinham todos os dias. Falam português. Mantêm o Brasil presente no cotidiano. O jantar virou um momento de respiro. “É o nosso refúgio”, diz. “Às vezes eu puxo outros assuntos, tipo BBB, para ajudar ele a se desligar”, ela me conta, rindo.

Para ela, a convivência trouxe outra perspectiva.

“A gente vê o prestígio de trabalhar em um lugar como esse, mas no fim também é um trabalho normal.”

Para ele, mudou mais do que isso.

Ao começar a trabalhar na política, ele se tornou uma pessoa mais cética e realista. “Por mais que nós estejamos vivendo um momento difícil e obscuro na política americana agora, eu diria que na resistência a essas tendências, nós temos uma esperança muito forte na mobilização de gerações futuras, em pessoas acordando para as realidades e desejando mudanças”, diz.

A mudança veio de acompanhar como uma demanda atravessa reuniões, anotações e disputas até se transformar em política pública. De perceber que, mesmo em um ambiente marcado por conflitos, ainda existe espaço para mobilização.

Matheus e a esposa, Ana Paula, em Washington, onde constroem juntos a vida nos EUA. Foto: arquivo pessoal

O amanhã

Com a proximidade das eleições de meio de mandato, o clima em Washington volta a acelerar, e Matheus não pretende deixar o posto. Para ele, o momento não é de recuar, mas de observar a possibilidade de uma nova maioria no Congresso que tire do papel pautas como a redução do custo de vida e o acesso à saúde.  

Enquanto o futuro não chega, ele continua cruzando os mesmos corredores do primeiro dia. 

A diferença é que agora, entre uma reunião e outra, ele já não precisa mais se beliscar, sabe que seu lugar é ali, garantindo que a voz da sua comunidade seja ouvida.

No dia a dia do gabinete, Matheus busca levar um pouco da identidade brasileira para o ambiente de trabalho. Foto: arquivo pessoal

T LB

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