Com os principais bancos centrais indicando e, em alguns casos, até começando novos ciclos de aperto monetário, a situação fiscal brasileira voltou ao radar dos investidores e ampliou a pressão para que o próximo governo enderece o entrave das contas públicas do País. Independentemente do resultado da eleição presidencial de outubro, especialistas avaliam que a futura administração federal e o Congresso terão pouco tempo para aprovar medidas que sinalizem uma trajetória sustentável para a dívida brasileira.
Nos últimos anos, o Brasil optou por fazer um ajuste com base no aumento da arrecadação, mas é um caminho que se esgotou: a partir de 2027, o governo vai ter de acertar as contas públicas pelo lado da despesa, apontam os especialistas.
“O Brasil precisa de, pelo menos, um ajuste de quatro pontos porcentuais do PIB. Isso dá mais ou menos R$ 500 bilhões. O governo fez a recomposição de receita. E o espaço para continuar aumentando a carga tributária parece ser nulo ou muito restrito. Agora, é preciso atacar o gasto”, afirma Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da ARX. “Eu acho que o próximo governo não vai ter muito tempo para tomar as medidas. Vai ter de ser em D+1 (ou seja, no dia seguinte).”
A agenda para acertar as contas públicas é amplamente conhecida, mas é pouco provável que seja debatida durante a eleição, por envolver temas impopulares. A lista de medidas inclui a sobreposição de gastos em benefícios sociais, mudança nos pisos constitucionais de saúde e educação, reavaliação dos supersalários e das regras atuais de reajuste real do salário mínimo, além do encaminhamento de uma reforma administrativa.
Há mais de uma década, a situação fiscal brasileira está no radar dos investidores por causa do elevado endividamento do País para uma economia emergente. No fim deste ano, a dívida bruta deve encerrar em 83,2% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo projeção dos economistas consultados pelo Banco Central. Em 2035, eles projetam que a dívida chegará a 99,8% do PIB.
Com o cenário eleitoral ainda aberto, a maior preocupação já tem ficado evidente. Na semana passada, por exemplo, a combinação da incerteza fiscal local e da mudança de cenário internacional levou o Tesouro Nacional a cancelar o leilão tradicional de venda de Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B) – aquelas atreladas à inflação. O mercado viu uma estratégia da equipe econômica de não referendar taxas excessivamente elevadas cobradas pelos investidores.
Nas últimas negociações, a taxa real (descontada a inflação) chegou a superar 8% para títulos públicos com prazo de vencimento de seis anos. Nos títulos com prazo maior de vencimento, as taxas exigidas também se aproximaram desse nível.
“O governo que chegar não pode demorar muito para dar esse sinal. Tem de chegar, acomodar a equipe e, no final do primeiro trimestre, já sinalizar a agenda”, diz Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e análise setorial da Tendências Consultoria. “Não tem como fugir dessa agenda. O governo vai ter de comprar essa agenda ou parte dela, ir atrás para implementá-la e fazer a coordenação junto ao Congresso.”
Sem uma clareza em relação ao futuro fiscal do Brasil, a avaliação é de que pode haver uma piora da percepção de risco dos investidores em relação ao futuro da economia brasileira, levando o investidor a exigir um retorno ainda maior para financiar o Tesouro brasileiro.
“Se não tiver nenhuma sinalização concreta do novo governo, essa curva de juros pode piorar ainda mais, o câmbio pode ficar mais depreciado”, afirma Alessandra. “Tem esses efeitos financeiros mais imediatos, mas que respingam na economia depois.”
Mudança no cenário internacional
Os BCs passaram a rever a trajetória das suas políticas monetárias diante dos impactos provocados pela alta do petróleo com a guerra do Oriente Médio. Juros mais altos no mundo levam os investidores a ficarem mais seletivos e a olhar com mais cuidado a fragilidade dos países considerados mais arriscados para investidores – no caso do Brasil, o elevado endividamento público.
É um cenário bastante diferente do observado no início do ano, quando havia uma expectativa de alívio de juros globais e os investidores estavam buscando uma diversificação para fora dos Estados Unidos, colocando o Brasil como destino de bilhões de dólares. Em 18 de maio, como reflexo desse movimento, a moeda norte-americana chegou a ser cotada a R$ 4,998. Agora, voltou ao patamar de R$ 5,20.
“Se olharmos para dois meses atrás, todo aquele ciclo de corte saiu da mesa. Agora, ou é juro parado ou para cima”, afirma Barros, da ARX. “Nesse ambiente de juro mais alto, eu acho que o Brasil não vai ter tempo nem espaço para fazer um ajuste gradual. Vai ter de fazer um ajuste rápido.”
Neste mês, por exemplo, o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) manteve as taxas de juros, mas indicou uma preocupação grande com a inflação dos Estados Unidos. A maior parte dos dirigentes passou a prever uma alta dos juros.
“Um pouco (desse resultado) era esperado, no sentido em que há uma onda de inflação vindo de preços de energia mais altos, repassada, aos poucos, para os núcleos de inflação dos EUA. E, na economia real, o mercado de trabalho tem melhorado nos últimos meses”, diz Benjamin Mandel, sócio e chefe de pesquisa da Jubarte Capital. “O raciocínio para cortar juros sumiu. Então, o debate ficou entre manter ou subir.”
Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) subiu os juros em 0,25 ponto porcentual, para 2,25%. Foi a primeira alta desde 2023. No Japão, os juros subiram ao maior nível em 31 anos para conter a inflação causada pela guerra.
“Se temos um mundo global em que o Fed tem oportunidade para cortar juros ou onde os juros globais são mais baixos, geralmente, é um ambiente mais positivo para mercados emergentes, e o Brasil surfa essa onda”, afirma Milena Landgraf, sócia e chefe de estratégia macro da Jubarte Capital
“E, por consequência, quando os bancos centrais estão apertando a política monetária e o Fed está subindo juros, o ambiente pode ficar mais hostil para emergentes e, consequentemente, para o Brasil”, afirma Milena.
Estadão Conteúdo








